Algumas das grandes viradas de chave da cena surgem a partir de decisões concretas que podem parecer corriqueiras, da implementação de novas práticas, de reorganizações estruturais, de riscos assumidos e de criações que alteram a forma como consumimos e compreendemos a música eletrônica. São movimentos que redefinem formatos de programação, reposicionam modelos de gestão, abrem espaço para a diversidade tanto do público, quanto da curadoria e influenciam a percepção coletiva sobre a cultura de pista e tudo que a envolve.
A nova série de posts do Alataj, Turning Point, nasce da premissa de observar esses direcionamentos e compreender como eles moldaram, em diferentes contextos, a mudança de comportamentos, a consolidação de cenas locais, a estrutura do mercado da música eletrônica, a formação de públicos e os modos de funcionamento que hoje parecem naturais dentro da cultura clubber. Neste espaço, vamos investigar os detalhes de acontecimentos e movimentos que isolados são apenas mais uma peça no quebra-cabeça histórico da Dance Music, mas quando analisados de maneira cuidadosa, se mostram muito mais do que isso.
Em meados de 1995, o Techno ainda circulava em São Paulo de forma concentrada, restrito sobretudo ao Hell’s Club no Columbia — onde DJs como Mau Mau e Andrea Gram sustentavam madrugadas que começavam às quatro da manhã e avançavam até o meio-dia — a cidade tinha público, mas não tinha continuidade em torno do gênero. Ele transitava de alguma forma, mas sua presença era intermitente. A criação do Club Alien nasceu dessa lacuna. Ao estabelecer uma festa semanal às quartas-feiras, Andrea Gram reorganizou o calendário e, com ele, o comportamento do público. A pista deixou de depender exclusivamente do sábado e passou a ocupar um dia útil, num horário que exigia outra disposição de quem estava ali, pois a festa não era parte da programação dos finais de semana, mas um compromisso recorrente de quem realmente queria consumir aquela sonoridade.


Única foto existente da pista do Alien Club
Sem internet, a estrutura de divulgação exigia insistência. Flyers produzidos manualmente, fax enviados para redações, mala direta, convites distribuídos em lojas e deixados por baixo de portas compunham uma rede de comunicação que fazia o Techno circular por fora dos meios tradicionais. Andrea costumava enviar o material para diversos veículos de comunicação e, em uma dessas ocasiões, foi publicada uma matéria na Gazeta Mercantil, jornal voltado ao mercado financeiro, que fez com que executivos aparecessem engravatados na pista, ampliando ainda mais o espectro de frequentadores. Sendo assim, é possível dizer que o Club Alien reunia clubbers, curiosos e artistas em um mesmo ambiente, evidenciando que a música eletrônica podia dialogar com diferentes camadas da cidade.
A curadoria era parte central dessa construção. Andrea combinava nomes consolidados como Mau Mau e Luiz Pareto com DJs em início de trajetória, criando um sistema de visibilidade compartilhada. O frequentador aprendia a reconhecer novos nomes em um contexto sólido, enquanto o DJ emergente se consolidava diante de uma pista que levava a sério o que estava sendo apresentado. Ao inserir também live PAs e abrir espaço para vertentes como DnB, Andrea ampliava o repertório da audiência, demonstrando que o Techno era parte de um ecossistema mais amplo de música eletrônica. Em paralelo, a presença de Andrea de maneira regular em mídias como MTV e TV Cultura reforçava publicamente a defesa do gênero, desmontando a leitura simplificada que o associava apenas a um som repetitivo e agressivo, e deslocando-o da caricatura de “bate-estaca” para uma linguagem cultural mais complexa e contemporânea.
Durante aproximadamente um ano, o Club Alien sustentou a frequência semanal e o fomento do Techno e suas derivações na noite paulistana, até que o crescimento das raves deslocasse parte do público para eventos de maior escala. Ainda assim, a quarta-feira estabeleceu um precedente: a de que o gênero poderia existir como agenda regular, urbana e plural. Essa regularidade foi decisiva para que a sonoridade deixasse de ser exceção e passasse a integrar o cotidiano da noite paulistana.
Três anos depois, com o terreno parcialmente preparado, o Lov.e Club & Lounge abria as portas na Vila Olímpia, fundado por Flávia Ceccato e Angelo Leuzzi. O espaço era pequeno, com capacidade para cerca de 450 pessoas, e a pista era o centro absoluto, sem múltiplos ambientes de dispersão. Ao entrar, o público já estava imerso no som do sistema DAS, diante de uma decoração kitsch em laranja, azul e rosa, com luminárias garimpadas em Los Angeles e uma atmosfera que reinterpretava referências internacionais a partir de uma sensibilidade local.
No início dos anos 2000, após o fim do casamento com Angelo Leuzzi, Flávia assumiu integralmente o comando do Lov.e. Em vez de centralizar as decisões, optou por delegar funções, estruturar equipes e profissionalizar a gestão financeira ao chamar o próprio pai para organizar as contas. Essa reorganização operacional foi decisiva para que o club voltasse ao azul e mantivesse sua relevância em um cenário cada vez mais competitivo.
Uma das mudanças estruturais trazidas pelo Lov.e foi a organização dos dias da semana por estilos específicos e identidades claras, criando regularidade e fidelização de público, modelo que se tornaria padrão na maioria dos clubes a partir dali. Foi assim que a Technova, inicialmente comandada por Oscar Bueno e depois por Eli Iwasa, ganhou dimensão nacional. A festa acontecia tradicionalmente às sextas-feiras, com artistas como Mau Mau e Renato Cohen como residentes, consolidando uma dinâmica em que o club não dependia exclusivamente de atrações importadas para lotar. A dupla tornou-se referência contínua, e muitos frequentadores iam à pista independentemente da presença de uma atração internacional. Ao mesmo tempo, a passagem de grandes artistas pelo club, como Laurent Garnier, Richie Hawtin, Afrika Bambaataa, John Acquaviva, Slam e Anthony Rother reforçava a reputação do espaço fora do país, enquanto brasileiros dividiam cabine em pé de igualdade.
O sucesso do club também deu abertura para o fomento de sonoridades até então deslocadas do que se entendia por música eletrônica. Um grande exemplo disso foi a residência de DJ Marlboro, que trazia a identidade dos bailes funk do Rio de Janeiro para as noites de quarta-feira. Às quintas-feiras, a residência de DJ Marky marcou outro momento decisivo. Foi na pista do Lov.e que sua técnica chamou a atenção de Brian Gee, abrindo caminho para sua ida a Londres e ampliando a circulação do Drum’n’Bass brasileiro no exterior, com ainda mais espaço para DJs como Patife e Andy. O club também abrigou projetos como a Vibe e o Paradise, organizou after-hours que se tornaram parte da rotina da cidade e transformou o próprio conceito de residência em uma plataforma de construção de carreira. Muitos profissionais que depois ocupariam posições centrais na cena começaram ali, como DJs, produtores, hostess ou equipe técnica.
Paralelamente, o Lov.e estruturou iniciativas que extrapolavam a pista. Criou uma escola para DJs com algumas das vagas destinadas a bolsistas, adotou entrada mediante doação de alimentos ou roupas em determinados dias e levou eventos gratuitos para diferentes pontos da cidade com o projeto Lov.e por SP. Ao longo dos anos, tornou-se um ponto de encontro para públicos diversos, da moda ao rock, das periferias ao Jardins, consolidando a cultura clubber como parte visível do circuito urbano paulistano. Mesmo encerrando as atividades em 2006, o club estabeleceu um padrão de programação, curadoria e profissionalização que ajuda a moldart os espaços de eventos noturnos até os dias atuais.
Entre 1995 e o início dos anos 2000, o que se desenha são duas etapas distintas de maturação da música eletrônica em São Paulo. O Club Alien estabelece a regularidade em um momento em que o Techno ainda dependia de brechas na programação da cidade; ao ocupar a quarta-feira, cria um ritmo contínuo de circulação para DJs e público, amplia repertório e naturaliza a presença do gênero fora dos finais de semana. Alguns anos depois, o Lov.e absorve essa base e organiza a noite em camadas mais estáveis: dias definidos por sonoridade, residentes que garantem identidade própria às festas, nomes internacionais dialogando com artistas locais e uma gestão capaz de sustentar crescimento real. A partir desse ponto, a música eletrônica deixa de aparecer como acontecimento esporádico e passa a funcionar com frequência previsível, público fiel e estrutura profissional.
Há ainda um dado histórico que atravessa essas duas experiências: tanto o impulso inicial de ampliar espaço para o Techno quanto a reorganização administrativa que manteve o Lov.e ativo nos anos 2000 foram liderados por mulheres que assumiram decisões artísticas, operacionais e estratégicas em momentos delicados da cena, majoritariamente ocupados por presença masculina. Assim, em um intervalo de poucos anos, Andrea Gram e Flávia Ceccato influenciaram diretamente a forma como a música eletrônica passou a ser percebida na cena local e, posteriormente, a nível nacional, moldando a maneira como o nosso público percebe e consome essa cultura.






