Luke Slater Luke Slater Luke Slater Luke Slater Luke Slater
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Alataj entrevista Luke Slater

Me permitam fazer essa introdução em primeira pessoa. Como editora-chefe do Alataj tenho o desafio de elaborar entrevistas a diversos artistas, materiais que vocês acompanham por aqui. São momentos peculiares no meio do trabalho, pois entender a mente de um artista ou até mesmo conhecer sua história traz bons ensinamentos e exemplos dentro do universo em que atuamos. Mas existem algumas que atingem um nível de conhecimento e inspiração muito superiores e posso dizer claramente que entrevistar Luke Slater me proporcionou este momento.

Primeiramente porque esta entrevista foi feita através de uma conversa informal entre uma mera iniciante dentro do cenário da cultura eletrônica e um dinossauro da música, se você parar para pensar que essa figura que eu estava conversando começou sua carreira como DJ exatamente no ano em que eu nasci. Pois é, Luke Slater pode ser considerado uma das personalidades mais respeitadas enquanto propulsor do Techno no final dos anos 80, início dos anos 90 no Reino Unido, trazendo e modelando, junto a outros artistas da época, o conceito sonoro e também da forma de se consumir música nos primórdios da história do gênero, que se transformou no que vivenciamos hoje.

Vocês também conhecem Luke Slater por outros pseudônimos não menos importantes no cenário como Planetary Assault Systems, L.B. Dub Corp, além de outros que nem ele consegue contar, então já podem imaginar a capacidade criativa desse grande artista. Além disso, ele é label boss da gravadora Jelly Jam Records que há anos também foi uma loja de discos em Brighton. Mais uma vez acho que dá de notar a quantidade de conhecimento adquirido em sua carreira em tantas frentes diferentes que atuou.

E ainda que os anos tenham se passado, Luke segue sendo uma mente inquieta, produtiva e com ideias tão geniais que realmente me impressionaram. O mix realizado por ele para a série de compilações do Berghain e Ostgut Ton em comemoração ao dia do DJ, que foi lançado há poucos dias, me deu essa certeza. Foi uma ideia tão geniosa e maluca de ser executada que só poderia ter sido concluída por alguém que realmente busca realizar algo relevante dentro do seu trabalho e passar uma mensagem profunda sobre seu papel dentro do que ele se propõe. E assim foi.

Bom, eu não vou me alongar muito por que acho que vocês merecem conhecer Luke Slater através de suas palavras. Garanto boas histórias, bons conselhos e uma conversa bem inspiradora para quem busca seu lugar ao sol na música. Pelo menos para mim esse bate-papo se tornou um momento bem especial e me fez enxergar que nós precisamos de muitos Luke Slaters, seres apaixonados pelo que fazem, tem o merecido reconhecimento e sucesso pelo seu trabalho e ainda assim seguem com o mesmo propósito de se expressar de maneira admirável e intensa pela arte.

Alataj: Acredito que esta é a primeira vez que você conversa com um veículo de mídia do Brasil, certo? Então acho legal que a gente comece essa conversa do princípio. Você iniciou sua carreira nos anos 90 no Reino Unido, em meio a um período efervescente e importante da história da música e cenário eletrônico no mundo. Como foi seu primeiro contato com a música? 

Luke Slater: Comecei a adquirir House music bem cedo, no final dos anos 80. Eu só comprava os discos e mixava todos juntos. Eu lembro que eu e alguns amigos decidimos ir a um clube em Londres, chamado Troll. Eu nem lembro direito do motivo pelo qual a gente decidiu ir lá. Nesse clube estavam basicamente tocando o mesmo tipo de música que eu estava comprando, então eu pensei “Uau, isso é incrível! É um reflexo do que eu estou fazendo e do que eu gosto”. O que aconteceu depois disso foi que meus amigos decidiram que aquilo não era pra eles, então eles pararam de frequentar e acabaram fazendo outras coisas. Mas eu continuei voltando lá. Eu entreguei pra um cara do club uma mixtape – que era o único formato disponível na época -, e ele disse “Hei, você pode tocar aqui toda semana!” Eu estava no lugar certo, na hora certa. Então foi isso que eu fiz por um ano, fui residente no clube Troll, que era um lugar muito bonito, uma mistura de House alegre e ácido. Muitos gays frequentavam, gente se fantasiando, um clube muito louco. Eu me sentia como se aquele lugar fosse minha casa. Depois disso, eu cheguei num momento que tinha que decidir o que fazia sentido para mim, o que eu queria fazer dali pra frente, isso lá pelo ano de 1988.

Eu nasci em 1988…

Pois é, isso já aconteceu outras vezes em outras entrevistas (risos).

Vivenciar o progresso da música eletrônica durante todos estes anos te proporciona uma visão privilegiada em relação a todas as transformações que o cenário sofreu, principalmente em relação a chegada da tecnologia que, acredito eu, mudou completamente a forma de produzir música e também o contato com a pista de dança. Como você enxerga todas essas transformações?

Eu gosto de ser realista sobre o que eu faço. Não gosto de enganar as pessoas. Então eu acho que tudo é bom, contanto que você realmente esteja fazendo aquilo, contanto que você esteja realmente sendo honesto com o que você está fazendo, e não fingindo. Acho que o conceito de tocar um vinil e jogar seus braços pra cima não é a coisa mais importante. Se você sente aquilo realmente e então faz isso, aí é outra história. Mas é o tipo de coisa que não é pra mim; de onde eu venho, não é assim. Isso é um tipo de performance onde você literalmente tem que estar fazendo alguma coisa. Pra mim não é tanto uma questão sobre tecnologia, é mais sobre o que isso representa quando você está fazendo ao vivo, quando está tocando live; isso é o que na verdade torna a coisa ótima. Eu sei que tem pessoas que fazem coisas de muita qualidade e não ganham notoriedade, tem gente que faz coisas muito boas e ganham notoriedade, e tem gente que ganha muita fama por na verdade não fazer nada. E é assim que é.

Isso sempre existiu. Quando eu comecei a tocar lembra muito de como as coisas são agora. As pessoas vão para as gigs e meio que só querem se livrar daquilo, e isso na verdade não mudou desde 1998. Então o conceito é praticamente o mesmo, tem sido assim desde aquela época. Mas o tipo de música é importante pra mim. Se você pega um conceito e coloca isso com um tipo diferente de música, isso é uma coisa. Em 1998 não tinham 50 clubes tocando variações diferentes do Techno ou House. Agora existem infinitas versões da mesma música. A fragmentação que tá acontecendo agora é meio maluca. Eu não sou alguém que fica confortável em fazer algo pelos motivos errados; simplesmente não soa bem pra mim.

Você atende por quatro pseudônimos diferentes: Planetary Assault Systems, L.B. Dub Corp e ainda encontramos nomes como LSD, Morganistic e Clementine atrelados a você. Como surgiu a criação dessas outras personalidades musicais? Você sentiu essa necessidade por algum motivo?

Acho que eu provavelmente estava sendo escapista. No tempo em que eu estava crescendo o “escapismo” era muito importante, porque as outras opções não eram boas. Praticamente tudo girava em torno disso. Na verdade, eu gosto da ideia de ter criado coisas através disso, acho eu só segui em frente. Quando Planetary apareceu era quase um personagem, então eu podia parar de ser eu e focar em todo o conceito, na história que eu inventava na minha cabeça, e no que aquilo representava pra mim, a motivação por trás. Mas sentar e produzir um disco no modo Luke Slater era difícil pra mim, por isso usei muitos pseudônimos.

Quando você inicia um processo de criação musical, você já sabe previamente para qual projeto está criando ou isso acontece de forma natural?

Seria legal dizer que eu começo já sabendo o que vou produzir, como Planetary ou Luke Slater, por exemplo. Mas pra ser honesto não é assim que rola comigo. Eu vou pro estúdio e às vezes não vem nada. Outras vezes eu entro naquela sala e apenas vejo onde aquilo vai me levar. Se você consegue ser livre quando vai pra dentro do estúdio, é muito bom. Mas entrar lá e pensar que você tem que produzir um disco pro Planetary ou fazer algo pro Luke Slater, isso pra mim é tipo a morte, simplesmente não funciona. E quando eu tenho fazer isso, não dá muito certo. Às vezes eu só fico sentado ouvindo algumas músicas… Alguns dos meus melhores álbuns vieram de coisas que eu nem percebi que eu estava criando. Tracks como Desert Races, Booster, todos essas produções aconteceram tão rápido e eu nem estava planejando criar nenhuma delas. As coisas podem funcionar melhor quando você não está realmente tentando fazer algo. Isso funciona da mesma maneira na vida. Eu estou sempre escrevendo alguma coisa e eu arquivo tudo que escrevo. Então se eu faço alguma coisa, independente de como fica, eu armazeno. Muitas vezes nem sei se vou mexer naquilo de novo, mas algumas vezes acontece.

Vamos falar do seu anniversary DJ mix para o Berghain e Ostgut Ton, uma responsabilidade e tanto, porém uma prova da sua relevância dentro do estilo que você atua. Sobre esse projeto, li um depoimento de um artista emocionado com seu trabalho, mesmo após décadas de carreira. Como é para você enxergar todo esse prestígio, ainda mais de marcas tão imponentes como Berghain e Ostgut Ton?

Eu tenho uma relação com esses caras há anos. Quando surgiu o assunto, se eu faria o mix, não foi algo como “Ah, sim, claro, vou mixar algumas músicas e isso basta”. Na verdade foi mais tipo, “Ok. Você quer que EU faça esse mix?!”. A primeira coisa que eu pensei foi “Eu não vou fazer isso”, mas depois já estava planejando como poderia haver algo especial e novo nisso; tinha que ter algo que fizesse valer muito a pena. Acho que se eu tivesse apenas selecionado algumas músicas e mixado, não teria sido bom o suficiente, sabe? Eu precisava pensar em como fazer algo interessante para as pessoas e pra mim, e fazer daquilo algo empolgante. Então eu comecei por aí.

O conceito de um DJ mix numa fita remete aos anos 90, que é a ideia de mixar duas produções juntas. Então eu pensei que daria pra fazer algo novo, com as novas tecnologias. Tive a ideia de pegar cada álbum da Ostgut e criar novas faixas inspiradas naqueles materiais, e então eu mixaria essas novas tracks. Foram 5 minutos pra ter essa ideia, e a execução me tomou desde setembro de 2019. Fui do “Nossa, que ótima ideia!”, para “Droga, isso está levando muito tempo.” Porque basicamente eu desenvolvi 26 novas produções, tracks separadas, criações novas, usando 130 releases. Se você pegar as partes daquelas 26 novas tracks,em cada uma delas vai encontrar um pedaço dos álbuns que usei como inspiração.

Para fazer tudo isso, a primeira coisa que eu pensei foi no modelo da Ford Motor Company, de Detroit. E pensei “Ok, se formos fazer isso, eu preciso de uma linha de produção. Preciso organizar um sistema onde tudo que eu preciso fazer é ir pro estúdio e sentar e começar a escrever de imediato; tudo precisa estar pronto pra mim”. Por sorte, Daniel, da Ostgut, ele é muito ligado à tecnologia, então eu disse pra ele “Olha, você me manda 10 releases no Ableton Live e eu posso percorrer por todos aquelas gravações e rapidamente escolher beats que eu quero usar numa produção”. Então basicamente ele me fornecia com uma espécie de paleta de sons. Eu expliquei o sistema pra ele e que pra que eu pudesse fazer esse trabalho a tempo, nós precisávamos ter essa linha de produção acontecendo. Então toda semana ele teria que me entregar uma paleta de opções e então eu ia lá e fazia. E foi assim que aconteceu. Esse tipo de “regime” funcionou. Eu não fiz tudo sozinho. Se eu tivesse que pegar todos aqueles lançamentos e fazer toda parte de engenharia de áudio, acho que eu não teria conseguido. Mas com a ajuda do Daniel deu certo e foi muito divertido! Surgiram coisas novas que representavam não somente a mim, quanto ao jeito que gosto de compor, mas também representavam as produções da Ostgut, sem que soasse como um remix.

Fiquei muito satisfeito e feliz com o resultado final. Eu gosto de me dedicar 110% nas coisas, senão sinto como se não tivesse feito um bom trabalho. Eu queria sentir que realmente tinha trabalho nesse projeto, e ao mesmo tempo queria que o pessoal da Ostgut tivessem algo muito especial, porque era algo que só aconteceria uma única vez.

Também pude perceber que com esse projeto você tinha a intenção de passar uma mensagem “para futuras gerações se maravilharem, lembrando calorosamente o conceito original da discotecagem”. Hoje, mais do que nunca, temos cada vez mais novos DJs tentando ingressar no cenário da música. Você tem algum conselho para dar a esses novos artistas? Algo que considera muito importante que aprendeu de um erro ou acerto ao longo dos anos?

É uma pergunta muito difícil. Acho que talvez perguntar a si mesmo quem você é e o que você quer ser; questionar a si mesmo sobre o que você realmente quer. Você quer compor música? É isso que funciona pra você? Ou você quer ser um superstar, e não realmente saber como compor, mas tocar algumas coisas e conquistar fama? Então acho que você tem que começar a lidar com o que você deseja. Você também tem que aceitar que, uma vez que você descobrir quem você é, tem que amar aquilo. Acho que o que acontece na cena da música é, por exemplo: tem aquele cara no palco, fazendo as coisas dele, os fãs, muitas pessoas… Mas tem que haver algo por trás daquilo, você precisa saber como chegou lá.

E para o Luke Slater do início da carreira, se pudesse dar a ele um conselho, qual seria?

Eu não me arrependo de nada que fiz. Passei por fases interessantes e acho que todas aquelas experiências foram válidas. Mas sempre trabalhei duro. Acho que se eu olhasse para trás, para o começo, eu diria “Vá trabalhar. Pare de brincar, cara, e se concentre nas coisas que são importantes”. Acho que é o que importa, trabalhar duro. É bom ter a ideia de disciplina, mas também é legal quebrar algumas regras, e jogar a disciplina numa lixeira. Você precisa de regras, de limites, mas você também precisa ser capaz de quebrar aquelas regras em certos momentos. Eu vim de uma época em que a música era uma forma de rebelião, por isso eu tenho sido meio rebelde desde aquele tempo, sou parte daquela geração agarrada nas ideias de anarquismo. Então eu gosto de regras mas não gosto – e é legal transpassá-las.

E em meio a toda essa rotina, gigs, tours, estúdio, é necessário manter um equilíbrio mental para que se possa trabalhar todas essas frentes com eficácia. Como você faz para manter esse equilíbrio?

Essa é sua vida. Isso é o que você escolheu para si mesmo. Ou você abraça a causa, ou não. Não se pode ter tudo. Eu aceitei isso há muitos anos, que essa era a vida que eu iria ter. É claro que você perde muitas coisas, mas você simplesmente não pode ter tudo. Você precisa aceitar quem realmente é, e acho que agora temos que olhar pra quem realmente somos de novo. Eu nunca pensei em toda questão de estar na estrada como sendo um estilo de vida errado, ou estranho; sempre vi como sendo o que é. Na verdade, acho que é uma vida bastante privilegiada.

Jelly Jam Records é o nome da sua gravadora e também de uma loja de discos que você abriu em Brighton, o que provavelmente faz de você um grande digger. Como acontece o processo de curadoria do label e no que a loja de discos influencia no seu trabalho até hoje?

Eu sempre fui um grande fã de discos, tanto quanto gosto de produzi-los e tocá-los. Na época que abri a loja de discos em Brighton haviam muitas. Vários DJs da minha era começaram em lojas de vinil, porque era o primeiro emprego que você conseguia. Aquilo era a escola da música. A loja onde eu trabalhava, que era uma loja de importação, fechou, então eu abri uma só pra ficar perto da música; parecia uma boa ideia naquele momento. A loja não existe mais. O conceito de loja de discos é algo do passado, mas na época era legal. Naquele tempo as lojas de discos eram tipo um ponto de encontro, aquela empolgação por causa da música. Uma multidão de pessoas aparecia e você colocava um vinil pra tocar e de repente surgiam mãos pro ar pedindo “Eu quero um daquele!”, e só havia cinco cópias e dez pessoas querendo. Essa coisa da música que rolava e a necessidade de tê-la era brilhante, e nem sempre você podia ter a música que queria, era limitado. Não tinha downloads, então se você queria, você tinha que estar lá na hora certa pra conseguir. Assim eram os tempos antigos. Antes de abrir a Jelly Jam eu ia atrás de discos no Black Market e outros lugares parecidos em Londres, e você tinha que ter o timing se quisesse a música. Você tinha que estar no lugar, conhecer o cara… Não era uma competição, mas era muito emocionante conseguir a música. Bons tempos! Um mundo diferente, mas definitivamente, bons tempos! É uma memória de um tempo bom, mas eu não sou muito de ficar apegado às coisas, porque elas têm que acabar em algum momento. Então é legal lembrar, mas é algo do passado e não acredito que é algo que possa ser recriado.

Quando você não está ouvindo ou produzindo música eletrônica, o que você costuma ouvir? Tem algum gênero em especial que te inspira?

Eu sou um grande fã das produções do Studio One. Eu gosto de jazz, especialmente os mais antigos. Gosto de sons Ambient bem estranhos; de encontrar coisas que são bem esquisitas de ouvir, coisas que me coloquem numa dimensão totalmente diferente. Eu não sou alguém que sintoniza na BBC, realmente amo descobrir coisas que eu não tenha ouvido antes. E algumas dessas coisas são muito inspiradoras.

Para finalizar, uma pergunta pessoal: o que é música para você?

Essa é difícil. Acho que música é o resultado de algumas pessoas que não sabem como se expressar de nenhuma outra forma. Talvez eu esteja falando de mim mesmo. Realmente acredito que é uma forma pra que algumas pessoas possam expressar como elas se sentem e o que elas pensam, e simplesmente sai em forma de música. Algumas vezes vem em forma de pintura, ou escrita, mas com a música você tem essa coisa dentro de você e é a única forma que consegue tirar isso de dentro, escutando e compondo música. Acho que você não pode forçar isso a acontecer, acho que é simplesmente parte da condição humana de algumas pessoas.

A música conecta.