Papo de Estúdio | Análise musical, seu melhor guia

No universo da música eletrônica, não encontramos formas convencionadas como existem na música erudita e popular, como é o caso do Choro Tradicional “Chorinho”, ou como no Jazz e Rock. As opções para  criar sons eletrônicos são ilimitadas por isso que os gêneros e sub-gêneros na música eletrônica são quase infinito, tornando-se particularmente fácil se perder em diversas possibilidades e direções que sua  música pode tomar.

Mesmo assim, já temos nela algumas características peculiares como:  

  • Corpo: onde há o desenvolvimento da música. 
  • Breaks: partes com menos elementos que geram a expectativa para a entrada da próxima parte.

Não existem regras definitivas para produzir de forma profissional. Claro que, certas práticas e técnicas se  tornaram padrão ao longo dos anos, e há alguns aspectos dos processos de gravação e produção que quase sempre são feitos da mesma forma por todos, independentemente do estilo ou gênero,  independente de estúdio ou equipamento, eles realmente funcionam. Os princípios fundamentais da  gravação e produção musical são surpreendentemente universais.  

Compare a gravação de uma banda em um estúdio profissional, com dezenas de microfones, uma  enorme mesa de mixagem e uma equipe de técnicos com um produtor que certamente produziu em seu  home studio e que inúmeras vezes é apenas um PC + headphone. Ambos podem ser exemplos de som  profissional.  

Para muitos, apenas a pressão de tentar apresentar novas ideias pode gerar um bloqueio. Pedir dicas a  alguém por onde começar também pode levar a mais perguntas, já que cada produtor desenvolveu sua maneira de produzir e isso varia muito.  

Dica: a criatividade começa com a variedade infinita de sons e ideias que você capta. Não pense que você vai reinventar um género todo, as expectativas matam a criatividade. 

Você pode ter uma compreensão de todo o processo de produzir música eletrônica, mas há outra dimensão, a da intuição (improvisando) e dos sentimentos. Isso envolve duas coisas:  

  • Jamming: toque com instrumentos e softwares.  
  • Referências: inspiração de outras músicas, samples, presets, artistas.  

Nas bandas, por exemplo, os músicos tocam juntos por certo tempo até surgir alguma ideia que gostem.  Então eles vão gravar inúmeras vezes até transformá-la em uma música. Para conseguir chegar numa  ideia criativa é importante tocar sua música, então se solte e explore seu som. Não é ajustando loops por 30  minutos que você vai criar algo novo e inovador. Quanto mais sessões longas fizer, mais novos caminhos irá descobrir. Exige certa disciplina, mas que te também permite quebrar suas regras. 

Explore, teste e use até o ponto crítico instrumentos, ferramentas e técnicas até descobrir como e por que funcionam, e como adaptar ou desconsiderar para atender aos seus requisitos.

Processo Criativo x Análise Estrutural  

Muitas vezes pensamos que temos que adicionar mais elementos nas nossas produções para que o som  se torne algo melhor ou o tão sonhado “som profissional”.  

O som profissional não se trata de empilhar canais e elementos — que certamente irão competir dentro de uma track — para fazê-la soar completa. Quando falamos sobre otimização estamos nos referindo à  remoção de coisas: agilizando o processo e simplificando. O famoso “menos é mais” que muitos citam,  eu já prefiro “use menos e melhores elementos”.

Também não se trata de ter todos os plug-ins ou instrumentos disponíveis; temos que evitar fluxos de trabalho (workflow) e métodos muito complexos, no qual você acaba gastando mais tempo atualizando e corrigindo problemas do que produzindo música.  

Isso se aplica igualmente à configuração de seu ambiente de estúdio, seu software, pasta de plug-ins, composição, organização e mixagem: sempre procure cortar coisas e tornar o que permanece  ainda melhor. 

Os processos usados para produzir em alto nível são sobre o uso de combinações de instrumentos,  ferramentas e técnicas relativamente simples para um efeito ideal. Em termos de treinamento e aprendizado, também se trata de detalhar as coisas em pequenas partes sistemáticas, para que você sofra menos tentando aprender tudo de uma vez e que desenvolva uma compreensão sólida dos fundamentos principais.  

Muitos músicos criativos encontram inspiração em outras músicas. Todas tracks que ouvimos se torna  uma parte inconsciente de nosso vocabulário musical. Plagiar é roubo, mas usar muito pouco falha em  reconhecer as raízes do gênero e as nossas principais influências. 

Para músicos que desejam encontrar e desenvolver uma identidade sempre haverá um conflito interno  ao ouvirem as tracks inspiradoras com suas produções. Lógico que temos questões legais, sendo assim, cada artista precisa criar seu nível de conforto ao usar algo de outras fontes.

Enquanto busca criatividade para fazer música que é exclusivamente sua, você criará sons mais originais combinando influências musicais mais detalhadas e, ao fazer isso, sua música não soará apenas única dentro de um gênero específico, mas também pode vir ser a sua identidade sonora como artista.

Existem algumas estratégias que permitem que você imprima em seu próprio trabalho a “essência” ou as características das suas inspirações ao mesmo tempo que o forçam a fazer algo novo. 

Uma das maneiras é dedicar seu tempo analisando cuidadosamente o trabalho de artistas que você admira. Isso envolve fazer uma análise estrutural e interpretar ativamente o trabalho de outras pessoas dentro de sua DAW. Assim você verá as diferentes formas usadas por vários produtores, escutará qual é o efeito que cada uma proporciona e conseqüentemente terá maior consciência para estruturar suas músicas, de modo a criar um caminho que você possa implementar facilmente em sua  própria produção e chegar no resultado sensorial que você deseja alcançar.

Audição Crítica  

A primeira etapa é treinar o seu ouvido para desconstruir o que está acontecendo na música que você  gosta, criando uma audição crítica. Uma ótima maneira de ativar seu ouvido é ouvir a música várias vezes, tentando se concentrar em um parâmetro específico diferente cada vez, principalmente tentando ouvir em camadas.  

Aqui estão algumas dicas para fazer isso:  

Som: Quais são as características timbrais da música? Quais os instrumentos usados? Qual é a textura?  Existe alguma técnica de produção que você reconhece? Que tipo de espaço acústico? (dry x wet:  reverb curto ou distante)  

Harmonia: Em que tom está a música? Quais acordes são usados? Há uma progressão de acordes? a  harmonia está implícita de outra maneira?  

Melodia: O que está acontecendo na melodia? Está acontecendo por etapas, com movimento por um ou  dois semitons? Qual instrumento ou vocal é usado? Isso nunca muda? Há melodia definida?  

Ritmo: São intervalos de tempo curtos, como um motivo, semi-frase ou frase? Existem padrões que se  repetem ou fazem variações rítmicas acontecer? Você encontra os ritmos facilmente? Quais instrumentos  têm mais impacto no ritmo? O que fazem os instrumentos menos rítmicos?  

Estrutura: Como a música evolui com o tempo? Existem divisões ou existem limites entre as seções? O  que define uma seção contra outra? Certos instrumentos tocam apenas em algumas seções ou a  instrumentação é a mesma em todas?  

Além disso, se houver partes específicas que você gostaria de entender melhor, tente exercitar,  escutando várias vezes essa parte. Por exemplo, a melhor maneira de aprender como um bassline funciona é desligar todo o resto e concentrar apenas no bassline. 

Ouça com atenção – e repita muitas vezes – a track que te inspira. Estude seção por seção, elemento por  elemento, camada por camada, parte por parte e escreva um modelo de análise estrutural e suas  características.  

Como fazer um modelo de análise?

Descrição x Transcrição

Considere as características da música, ritmo, harmonia, melodia e estrutura. Escreva algo sobre o que  você ouve para cada parte, aqui a notação pouco importa, o objetivo é apenas captar a estrutura da fonte, incluindo anotações aleatórias do que realmente te inspira. Aqui não é para simplesmente copiar e sim captar uma realidade e transportá-la para um texto. 

Os detalhes podem variar dependendo de uma série de fatores:  

  • conhecimento e capacidade de traduzir o que você ouve em palavras 
  • complexidade da música que te inspira 
  • quanto tempo você se dedicará a isso

O mais importante aqui não são os detalhes e sim o que você pode usar para criar o modelo de análises sem ter que se referir à fonte original durante o processo criativo. Assim que tiver o modelo completo,  use-o para seu novo trabalho. 

Modelo de Análise  

BPM 
Elementos da música: kick de 909, bassline sawtooth off beat com delay, piano elétrico com bastante  variação de ADSR, sintetizador principal… qual síntese usada ?  
Harmonia: nota principal Dó maior alternando com sua relativa menor Lá, até o break, entrando G  maior no break e alternando até o fim com as anteriores, no outro apenas G maior saindo…  
Melodia: arp de Dó maior 1/16 2 oitavas, lfo em alguns momentos movendo o filtro cutoff, chegando ao ápice no break com bastante reverb e ressonância até a volta do break e aí vai saindo até o outro,  alternando para 1/8 e 1 oitava.  
Ritmo: 4x4 clássico de house. Bassline off beat com delay, influência de Donna Summer I feel Love ???  Stab com bastante reverb a cada 16 bars…  
Estrutura: a música começa com a harmonia em Dó maior por 16 bars junto com groove hat abrindo o  filtro e decay, tipo um dry/wet… mini break entre 15 e 16, bassline e os outros elementos de bateria  entram filtrados até o kick voltar na bar 17. Harmonia começa alternar na bar 33 após outro mini break  junto do arp que modula a cada 4 bars até o break principal. No Break outra alteração de harmonia entra e alguns elementos são cortados como o kick, quando o break volta na bar … um novo elemento começa (ride) aumentando a pressão até ir diminuindo …. cortando elementos e chegando ao fim.  Resumindo a música teve começo meio e fim com detalhes na bar tal … e assim por diante. 

Você pode descrever inúmeras tracks criando um modelo padrão. Provavelmente após isso você vai  começar ouvir músicas com isso na sua cabeça e com uma grande possibilidade de jamais ouvir música de outra forma. 

Cuide para que, quando criar o modelo de análises, ele não seja uma copia da track de referência. Pense  que esta base pode ser usada por outros produtores, sem que eles descrevam a mesma coisa.  

Ferramenta de Análise 

A melhor ferramenta para fazer essa análise é sua DAW. Tente carregar a música que deseja ouvir na linha  do tempo de sua DAW, ajuste o andamento do projeto para corresponder à música e, em seguida, defina  o loop para uma região curta – um ou dois compassos ou, no máximo, uma única frase musical. Ouça este  loop tantas vezes quanto necessário para identificar que está acontecendo. Em seguida, avance para o  próximo loop e repita. Quando chegar ao fim, volte ao início e gradualmente expanda o comprimento do loop para que você esteja cobrindo uma quantidade maior de tempo. 

O melhor guia de produção e mixagem são as tracks de referências. Portanto, ter certo cuidado a  escolher uma track e saber como analisa-la é fundamental para sua evolução. Você pode consultar essas tracks ao longo de seu processo de produção, sempre que se sentir perdido, ou simplesmente por querer aprender mais sobre técnicas usadas pela track escolhida. Isso serve para todos os processos.  

O principal aqui é ouvir criticamente: saber o que você está ouvindo e aprender a dissecar uma track em  sua cabeça, sendo capaz de se concentrar em qualquer parte individual ou na coisa toda como um todo  coeso.  

A audição crítica é provavelmente o traço nº 1 para atingir o SOM PRO – escolha algumas tracks de  referência decentes para o seu material de treinamento de audição crítica. “Só se pode criar na medida  em que se percebe”. Treine para aumentar sua percepção. 

A música conecta.