Storytelling

De Currais Novos para o mundo: Omoloko e sua legítima representatividade na música eletrônica

Primeiramente, começo essa matéria informando que as emoções aqui serão a guia de conduta dessa narrativa. Afinal, escrevo sobre Omoloko, o cidadão de Currais Novos que parte do Rio Grande do Norte para Belo Horizonte na promessa de fazer a faculdade de engenharia química, mas que na verdade, vai se enveredar pela música eletrônica e nas produções de festas. E agora, após quase 10 anos de carreira ele vive o auge de uma conquista com a sua primeira viagem para fora do país, através de uma turnê internacional que começou com o Panorama Bar encabeçando uma agenda extensa e segue com a segunda data para uma apresentação no Dekmantel, em Amsterdã – com transmissão ao vivo nesta sexta-feira, 05.08, às 10h no horário de Brasília, pelo Boiler Room.

Foto por Lucas Chagas

Sim, Omoloko sai do país pela primeira vez na vida, assim: com uma turnê internacional e com a primeira data no Panorama Bar, que ocorreu no último dia 27. E dizem diversas línguas clubbers pelo twitter que foi estrondo, com ele pegando uma pista com 10 pessoas e terminando ovacionado por uma pista cheia e uma fila para comprimentá-lo ao final, entre público e DJs famosos da cena berlinense. Dito isso, vocês podem começar a visualizar as diversas camadas que envolvem essa turnê e ainda mais a apresentação no Dekmantel, já que ela será transmitida ao vivo e segue em ‘pique’ Copa do Mundo com amigos e fãs se organizando em diversas cidades do país para observar o efeito Omoloko pelo mundo. Em BH, cidade que ele atualmente mora e construiu a sua carreira, com telão e tudo para transmissão no Bar do Fernando

Desde 2019, quando ele recebeu o convite pessoalmente dos seus produtores para se apresentar no Dekmantel – antes de vivenciarmos uma pandemia e antes de mil e um perrengues vividos, além dos que ele sempre viveu sendo quem é e vindo de onde veio -, este momento é aguardado por ele e por todos que o cercam. Omoloko não finge normalidade, pelo contrário, ele vibra, sofre, expõe todas as emoções e vulnerabilidades de uma pessoa real em suas redes sociais e narra a ansiedade que vive desde então.

É justamente essa personalidade que abordo aqui. E mais do que fazer um traçado da sua carreira, mais do que esmiuçar detalhes e datas, é o quão representativo é este momento e a persona tão especial que é João Vitor na música eletrônica nacional e, agora, mundial.

Omoloko sobe na cabine do Dekmantel 2022 levando além dos seus, aqueles que construíram com ele a 101Ø em meados de 2015, uma label que surge primeiramente com a necessidade básica de pagar o aluguel do apartamento que dá origem ao nome da festa, leva também junto uma infinidade de pessoas que vê nele a possibilidade de uma carreira, a possibilidade de sempre sonhar grande e a construção de um ser humano incrível que exalta a sua origem vinda dos pais, João Batista e Vitória —  trabalhadores da mineração, de origem humilde que viveram de forma quase nômade, mudando de cidade em cidade com ele e o irmão, o produtor Arthur Cobat, seu booker, seu braço direito e o seu maior fã. 

E eu, entro com a responsabilidade de escrever sobre este momento, após dez meses o acompanhando por diversas gigs pelo país e recebendo o título da pessoa que mais o viu tocar desde a retomada, assumindo por diversos momentos o bom papel de acompanhante de DJ. A primeira delas, indo até Belo Horizonte para viver, em outubro de 2021, um set que jamais esquecerei, com a 101Ø de volta após mais de um ano e meio parados, com uma edição de dois dias para 500 pessoas cada e, Omoloko finalizando com um set de liberar lágrimas sofridas que aquele momento nos trazia, além de diversas emoções, como a polícia na porta tentando entrar para acabar com a festa por conta de uma vizinha que não abandonou o telefone e não saiu da varanda nestes dois dias. Assim, eu adentro o seu universo, conheço BH, o time 101Ø formado por Sandra, Izabela e Bárbara Egídio (as mulheres Egídios), Matuca, Femmenino e Arthur Cobat, além de tantos outros frequentadores e residentes, como Ana e Miguel López, Soft Soup e Jota Januzzi

Foi ali também que comecei entender Omoloko, esse nerdão que vasculha músicas nas profundezas da internet, dos grupos secretos no Telegram, que repete aos quatro cantos que nasceu para isso e não saberia fazer outra coisa, que se exalta constantemente repetindo que é o melhor no que faz e que se não for ele fazendo isso, não será outro. 

E de fato, ele é uma entidade. Um profissional que muda o ambiente quando está presente, um DJ dedicado ao máximo no que faz e que em hipótese alguma se conforma com entregas rasas. Omoloko sempre, eu retifico: sempre entra na cabine com o objetivo definido de causar estrondos. Amenidades não são com ele. Superficialidade não é com ele. O ‘mais ou menos’ não faz parte da sua construção. Ele chega antes para conhecer o ambiente, conhecer as pessoas que trabalham ali, para ouvir e ver os sets e para observar a pista, e só então definir o que vai entregar, e como vai entregar. E, claro, antes disso, estuda muito em casa.

Foto por Pedro Pinho

Um exemplo claro do que estou falando e com uma ênfase divertida deste comportamento de quem vivencia o que faz ao máximo, foi o que vivemos juntos no incrível Festival Bruma em maio deste ano. No segundo dia de festival, o encontro perto das 17h com ele angustiado, desnorteado, desorientado e totalmente aflito após ter consumido um LSD no dia anterior e ainda não ver os efeitos desaparecem poucas horas antes da sua apresentação. Recomendo que ele apenas sente, medite, beba água e aguarde o horário de tocar.  É o que ele faz: senta, medita, fuma, fuma e aguarda completamente louco. 

Às 20h, ele entra para tocar de frente para um lago com um visual inacreditavelmente bonito, porém, pista vazia, as poucas pessoas que estão ali presentes estão deitadas em esteiras ainda se recuperando do dia anterior ou gastando o virote de um bom festival de House, inclusive eu. E música a música, ele vai construindo seu set, sagaz, atento, totalmente conectado às CDJs e ao mixer, vasculhando suas músicas, renderizando a sua capacidade mental e ganhando público. A pista vai se formando, pessoas se levantando, diversas chegando e ‘BOOM!’ o Bruma Festival é dele. Gritaria, gritaria e a seleção de ouro. Omoloko ali, no meio do mato, no meio do verde, na beira de um lago, constrói uma discoteca inteirinha com o chão de grama e nos ‘taca’ em uma pista com um set do mais puro suco sul africano. É Kwaito neles! Elegância, finesse e o amor à música eletrônica que ele é capaz de nos acometer. Assim como bem disse Femmenino ao apresentá-lo no Boiler Room da 101Ø de 2020: “This is not a DJ. This is a religion!” 

E com essa exclamação afirmativa que finalizo meu texto dizendo: estejam conectados com Omoloko, nesta apresentação tão significativa que veremos nesta sexta-feira ao vivo, ou em em qualquer outro momento que você o veja presente em um line up. Omoloko é DJ, ser humano para se cultivar, para acompanhar, para admirar e ovacionar, pois é, de fato, um dos maiores que temos. 

Acompanhe: Omoloko no Boiler Room Dekmantel 2022 | 05.08.2022, às 10h – Horário de Brasília.


A música conecta.