Textão | Branco também fala sobre racismo?

Os dias têm sido bem voláteis desde o nosso último encontro nesta coluna. É interessante observar a forma como as pessoas e as estruturas sociais têm se comportado diante de uma pandemia que nos enche de incertezas, inseguranças e inquietações. Acho que chegamos em uma fase onde a inércia começa a ser substituída pela vontade de agir (de forma segura) e não ficar dependentes de perspectivas vindas de pessoas e instituições que, definitivamente, não ligam muito para todas as histórias que existem por trás dos números.

Pois bem, esse mês o texto dessa coluna sai com um pequeno atraso do combinado, mas não posso deixar de falar sobre como a minha cabeça ficou inquieta nos últimos 20 dias ao observar a rapidez com que os fatos aconteceram em nosso dia-a-dia. Esse foi um dos motivos de ter mudado tantas vezes o tema desse texto, que inicialmente deveria falar com vocês sobre a nossa alienação e resistência na criação de novos ídolos. Mas aí aconteceu todo aquele caso do George Floyd nos EUA e de uma hora para outra – mesmo essa pauta sendo cotidiana –  meus amigos pretos (e toda a mídia) começaram a compartilhar suas vivências sobre racismo e como isso afeta suas vidas de forma extremamente opressora. 

Antes de tudo, queria pontuar que eu sou um cara branco, então fiquei bastante inseguro em abordar esse assunto por aqui, afinal, eu não quero pegar o lugar de fala de ninguém. Pensei em ceder o espaço para algum amigo preto falar no meu lugar, mas aí me peguei refletindo: “branco não pode falar sobre racismo”? CALMA, não é sobre isso que você está pensando. Não é sobre a Mallu Magalhães falar “branco também pode tocar samba”. Não é sobre EU falar o que é racismo ou não – eu não sei!. A minha intenção aqui na verdade é te perguntar: você, pessoa branca que está lendo esse texto, aborda e ouve na sua rodinha de amigos brancos pautas raciais ou apenas observa seus amigos pretos falando de racismo e, nas oportunidades que tem, se esquiva delas? Você pesquisa, lê e assiste materiais sobre racismo? Quantos artistas pretos tocaram na sua festa? E no seu podcast no Soundcloud, já convidou quantos para lançar um set por lá? Quantas pessoas pretas estão NA PISTA da sua festa CURTINDO? E no seu staff? Como estão distribuídas as pessoas pretas nessa estrutura? Estão em locais onde podem definir curadoria, coordenar o financeiro etc, ou estão apenas nas equipes de segurança, bar e portaria?

Existe um coletivo aqui em BH chamado AYÓ, que visa fortalecer a representatividade preta na cena eletrônica. Também acompanho duas mulheres incríveis no Instagram que me ajudaram com seus vídeos a conseguir escrever esse texto, a @transpreta e a @dosanjoslazara. Durante uma live no Instagram do coletivo AYÓ resolvi perguntar o que eles achavam da ideia de EU, uma pessoa branca, abordar sobre esse assunto aqui nessa coluna. A opinião foi unânime: pessoas brancas PRECISAM começar a falar, pesquisar e entender o racismo como um problema inventado por nós BRANCOS. Pessoas pretas estão lutando diariamente para sobreviver a um sistema racista e não são nossos professores particulares para ficarem descontruindo racismo toda vez que esse assunto ganha os trendtopics. Então, use sua Internet e suas redes para ir além de uma hashtag falando que #VidasPretasImportam e uma foto preta no feed – não é sobre roubar protagismo, tá?!

Eu não estou falando nada que você já não tenha ouvido de alguma pessoa preta. Mas ainda acho muito necessário levantar todas essas questões novamente nesse texto. No coletivo que faço parte, o 101Ø, já me deparei com diversas situações onde foi muito mais fácil para eu conversar com policiais e conseguir a liberação de uma festa do que para as minhas sócias que são pretas. Se você pensar que no tratamento para com produtores de baile funks e duelos de MC’s, que são em maioria pretos, não existe praticamente nenhum diálogo, só opressão, a gente consegue perceber através desse comportamento que existem poucos produtores pretos na cena eletrônica. Porque o Estado e a PM são racistas e, quando a gente fala que música eletrônica é música da periferia e preta, é porque um dia ela já foi “marginalizada” quando tinha como linha de frente pessoas pretas. 

A música eletrônica, principalmente o House e o Techno, tem suas raízes fincadas na comunidade preta, LGBTQI+, periférica e militante. E essa informação deveria ser uma associação automática quando falamos sobre e-music. 

Já se passaram mais de 30 anos desde que a UR (Underground Resistence) foi criada lá em Detroit pelo Robert Hood, Jeff Mills e Mike Banks e tinha o objetivo de incentivar jovens pretos periféricos a fortalecerem suas identidades culturais e políticas com o apoio da… música eletrônica. Também podemos citar os mais de 50 anos desde a Revolta de Stonewall, liderada pela transexual preta e ativista Marsha P. Johnson. Absolutamente todos esses exemplos nos levam até a base da criação das festas de música eletrônica que temos hoje. 

Tudo muito bonito, histórico e revolucionário o que eu citei anteriormente. Mas existe uma grande questão que é bem problemática diante de todos esses contextos:  a música eletrônica foi embraquecida e essa é uma pauta urgente e que é um problema de todo mundo. É preciso que a gente fale, promova, remunere artistas e pessoas pretas e que tenhamos consciência de que o fato que nos leva a não ver essas pessoas em nossas pistas ou lineups é um problema chamado racismo. E esse problema é estrutural, governamental, social e branco.

Se você parar para pensar no meu questionamento do texto passado sobre valorização de artistas locais e a nossa “hiper-idolatria” a labels, festivais e movimentos eurocêntricos, talvez isso também nos faça refletir sobre um dos motivos desse embraquecimento da e-music. Quantos DJ’s e núcleos afro você conhece? Quais festivais de música de países como a Nigéria, Uganda, Malawi, Quênia – ou até aqui no Brasil – você tem vontade de conhecer? Não sabe? Então pesquisem e fortaleça-o. 

Vou encerrar esse texto deixando algumas dicas de artistas pretos que admiro. Exerçam esse papel de pesquisador também, não joguem pautas pretas só em cima do seu amigo preto. Eles já têm assuntos demais criados por nós brancos para lidar. Esse final de semana ouvi uma fala da Badsista super interessante e gostaria de terminar citando-a: “Quando você achar que as coisas estão boas, repense, porque elas não estão”. 

Valentina Luz

Barbara

Pianki

O Pala

PodeSerDesligado

Guillerrrmo

Escarbe

Kenya

KOKOKO!

Kampire

Carista

Festival: Nyege Neyge (Uganda)

Mapuche

Laryss

LIBRA

A música conecta.