Textão | Robôs precisam respirar!

Talvez seja cordial antes de tudo eu me apresentar, já que essa é a primeira vez que apareço por aqui. Eu sou o Arthur Cobat, produtor e curador da festa 101Ø, em Belo Horizonte, além de jornalista há seis anos e um grande entusiasta de qualquer situação que a música esteja centrada. Quem me conhece já deve ter mergulhado algumas vezes nos milhares de parágrafos que geralmente posto em minha página do Facebook. O nome dessa coluna não é à toa, sou conhecido como o rei dos textões. Para mim, não tem coisa melhor do que ficar horas conversando com as pessoas e depois organizar tudo que ouvi em longas linhas textuais.

Um desses momentos aconteceu semana passada, quando estava conversando com o OMOLOKO (DJ residente da festa que produzo e meu irmão mais novo). Debatíamos sobre o destino da música eletrônica diante desta pandemia e por algumas horas questionamos, por exemplo, quais ferramentas e formatos seriam revolucionários para um momento tão introspectivo e incerto como esse que estamos vivendo. Um cenário que também acaba sendo extremamente instigante e que nos força constantemente a criar vias solutivas para manter os atuais canais de entretenimento atrativos.

Essa conversa nos levou até o Kraftwerk, aquele grupo alemão que popularizou toda base musical eletrônica na década de 70. O que se passava na cabeça do Florian Schneider e Ralf Hütter, fundadores da banda, quando deram os primeiros passos para a construção de um movimento que influenciaria a história da música para sempre?

Talvez essa pergunta nem eles saberiam responder, porque a criação de projetos grandiosos e revolucionários não depende só do artista e da sua arte, mas também das movimentações sociais que as cercam. Já parou para pensar nos motivos que levam diversos artistas a terem reconhecimento só depois da sua morte? Isso diz mais sobre o comportamento de uma sociedade do que da obra em si.

Começamos então a imaginar como seria um álbum do Kraftwerk se fosse lançado hoje, no meio de uma das maiores crises do showbusiness. Quais assuntos eles abordariam? E o principal: será que eles entregariam uma obra tão relevante como o engenhoso Autobahn, um dos álbuns mais aclamados da banda?

Na minha cabeça, imagino que seria um material lançado em um formato inédito – mesmo não fazendo ideia o que esse “inédito” signifique. O que moldei na mente quando ouço a palavra “Kraftwerk” são experiências que me tiram de qualquer zona de conforto criativa. OMOLOKO me retrucou dizendo que eu estava viajando, que os caras na verdade deveriam estar em casa, trancados, com medo do coronavírus. 

Uma semana depois abro o Instagram e me deparo com a notícia que o Florian Schneider havia falecido de câncer. Eu sabia que ele não fazia parte do Kraftwerk desde 2009, mas essa notícia enfraqueceu em mim qualquer esperança de revolução vinda de quem já fez revolução um dia. Não por incapacidade do artista, mas porque o tempo passa e as pessoas no final não são robôs, são humanos, enfraquecem, cansam e as células já não se renovam mais como antes. E tudo isso é completamente normal, obviamente.

A morte do Florian me fez questionar: de onde será que vai sair essa salvação que tanto buscamos? Onde estão os grandes ícones que nos influenciaram? Será que já estamos no meio de uma revolução, mas nos fechamos tanto a determinados nomes e formatos, que acabamos nos distanciando de coisas grandiosas? A minha resposta para essa última pergunta é “sim”. Nós chegamos em um momento onde a criação já não está mais no centro da revolução, mas sim, a organização

Artistas mais antigos estão produzindo cada vez menos, enquanto uma “geração Bandcamp passa na frente lançando incansáveis produções musicais, articulando movimentações coletivas cada dia mais diversas e, principalmente, movimentando seus projetos sem necessariamente se prender a qualquer modelo já utilizado antes na indústria. A artista travesti não espera mais pessoas cisgêneras criarem espaços para elas poderem mostrar seu trabalho; elas se organizam entre elas. Mulheres cansaram de servirem como cota em lineups predominantemente masculinos; elas agora organizam festas com uma linha de frente feminina. O coletivo de música eletrônica lá no Nordeste não vai deixar de existir porque ele está em Recife, Natal, Bahia, Maranhão, Ceará; eles fortalecerão seus espaços e identidades onde estão.  Não dá mais para ficar regando preciosismos culturais que estão cada dia mais distantes do que somos. E felizmente percebo que esse pensamento é potencialmente exercido por um público cada vez mais jovem. Público esse que foi bombardeado por muita informação, tecnologia, acessos e autoconhecimento ao longo da última década.

Já vimos que, quando se é nativo de um país abaixo da Linha do Equador, a busca pela relevância artística é um caminho que sempre vai trilhar rumo aos maiores colonizadores da nossa história (Europa e EUA). E quando você reflete sobre onde estão os “Florian Schneiders” da atualidade, você os encontra em perfis cada vez mais jovens e em países que souberam fortalecer a cultura local. Sugiro você assistir na Netflix a série chamada “Explicando” o episódio sobre o movimento K-pop, e como lá na Coréia do Sul eles se organizam para serem autossuficientes quando o assunto é a cultura musical.

Nós vamos passar em breve por uma das maiores recessões econômicas do Brasil. Vai ser cada dia mais caro e inacessível alcançar esses tais espaços tão almejados pela classe artística – como o nome no lineup de festival gringo ou um set gravado para a rádio europeia hypada. E isso não quer dizer que você seja inferior a qualquer outro artista que esteja ocupando estes locais (que em suma maioria, são pessoas locais “de lá”). O grande problema está no fato de que nós habitamos um planeta gigante, mas queremos estar em um local que é menor do que o nosso próprio país. 

No começo do texto falei que talvez os fundadores do Kraftwerk não tivessem dimensão do que eles estavam criando. Porém, um grande elemento da obra da banda é que eles davam atenção especial às histórias próximas a eles. Talvez a última vez que a cena musical brasileira ganhou destaque no mundo foi justamente quando ela olhou para dentro do seu cotidiano e nasceu o Funk carioca. Não existe em nenhum lugar do mundo baile Funk mais autêntico do que no Brasil. Isso é revolução.

A cena eletrônica brasileira e latino-americana precisa mais do que nunca olhar para suas histórias locais. Talvez, assim como o Kraftwerk, nós ainda não temos a dimensão do quão revolucionário isso pode ser, porque nossos planos estão mirando em um espaço que não é efetivamente nosso. Está na hora de organizar tudo que a gente já tem em mãos. Nós já temos todas as ferramentas e mentes criativas bem do nosso lado.  Afinal, até quando o nosso valor artístico vai ser pautado na taxa cambial do dia? E, se você parar para pensar, talvez a cena eletrônica brasileira nunca parou para se organizar em uma escala local da mesma forma como o Hip Hop, Funk carioca, Sertanejo, Forró, etc. Você não vai em nenhum festival desses gêneros e esbarra com um lineup composto por 90% de nomes estrangeiros. Será que a nossa música eletrônica vai estar sempre no lugar de cota, tanto aqui, quanto lá fora? Deixo vocês pensando até o nosso próximo encontro.

Desculpe se você chegou até esse parágrafo órfão de uma solução para a crise que estamos passando no momento. Mas é que esse texto fala sobre o futuro muito próximo e que é urgente! E ser futurista não é sobre querer ser um robô, porque essa sociedade de man-machine a gente já viu que definitivamente não é sustentável para a nossa sobrevivência…nem os próprios robôs sobrevivem a ela.

R.I.P Florian Schneider (Düsseldorf, 7 de abril de 1947 – Düsseldorf, 30 de abril de 2020).

A música conecta.