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A música conecta

DJ Glen: uma identidade pouco óbvia dentro do house

Por Marllon Eduardo Gauche em Timeline 15.05.2026

Antes de se consolidar como um dos nomes brasileiros mais conectados ao circuito internacional do house e do tech house, DJ Glen construiu sua relação com a música a partir da prática mais direta possível: tocando. Nascido em Americana, no interior de São Paulo, Glen Faedo começou cedo, ainda na adolescência, passando por festas, CDs gravados manualmente, equipamentos improvisados e uma rotina que ajudou a formar um verdadeiro DJ, na essência. Esses capítulos iniciais, muito ligados ao repertório, à pesquisa e à condução de energia, se tornaram uma das bases mais importantes da sua identidade.

Sua entrada na cena eletrônica veio pelo contato com as raves, com o vinil e com uma cultura de liberdade que moldou sua visão artística. Durante anos, Glen circulou entre referências de techno, electro, house e tech house, sem se limitar a uma estética única. Essa amplitude aparece tanto nos seus sets quanto nas suas produções, que frequentemente combinam pressão de pista, humor, grooves tortos, baixos marcantes e uma abordagem pouco óbvia para o formato club. É uma discografia feita por alguém que entende a pista por dentro, mas que nunca pareceu interessado em seguir apenas o caminho mais previsível.

A partir dos anos 2010, esse trabalho começou a ganhar contornos mais amplos. Faixas como Boogie Mafioso ajudaram a levar seu nome para fora do Brasil e abriram caminho para uma sequência de lançamentos em selos como Dirtybird, Cajual, CUFF, My Favorite Robot, Bunny Tiger, NastyFunk e Relief Records. Ao lado disso, colaborações com nomes como Bruno Furlan, Illusionize e Vintage Culture reforçaram sua presença em diferentes frentes da música eletrônica.

A relação com a Dirtybird, em especial, ocupa um capítulo importante nessa trajetória. Glen se aproximou da comunidade do selo californiano em um momento em que sua sonoridade já dialogava naturalmente com aquele universo: linhas de baixo expressivas, grooves cheios de personalidade e uma energia que conversa bem com o lado mais descontraído e físico da pista. Com lançamentos como Get Dirty, Move Your Bone e Another Planet, este em parceria com Bruno Furlan, ele se tornou um dos brasileiros mais identificados com essa ponte entre a cena nacional e o ambiente californiano do house underground.

Nos últimos anos, Glen manteve essa trajetória em movimento, alternando lançamentos por selos internacionais, projetos ao lado de Nana Torres (sua esposa), passagens por grandes plataformas e outras collabs de peso. Agora, esse percurso ganha mais um capítulo com Saturn Storm, nova faixa em parceria com Illusionize e Nana Torres. Inspirada pelo deep house do início dos anos 2010, a track mergulha no Indie Dance com sintetizadores analógicos, pressão de pista e uma atmosfera sem vocal que aposta na força do drop e na conexão direta com o público.

Para entender como DJ Glen chegou até aqui, revisitamos 12 faixas que ajudam a contar sua evolução no estúdio, dos primeiros lançamentos aos trabalhos mais recentes.

DJ Glen – Bone System [Kassette Records, 2011]

Bone System é um dos registros mais antigos e relevantes da discografia de DJ Glen, inclusive com prensagem em vinil 12”. A faixa ajuda a mostrar um Glen ainda mais próximo de uma estética tech house/minimal europeia, conectada ao tipo de som que circulava bastante no underground da época. 

DJ Glen – Boogie Mafioso [Groove Division, 2012]

Lançada em 2012 pela Groove Division, dentro da coletânea Side B, Boogie Mafioso se tornou uma espécie de faixa-chave para entender a aproximação de Glen com a comunidade Dirtybird. Foi justamente essa música que chamou a atenção de Claude VonStroke no BPM Festival, no México, em 2012, e acabou virando um “clássico informal” da Dirtybird, mesmo sem ter sido lançada oficialmente pelo selo.

DJ Glen – Move Your Feet [NastyFunk Records, 2012]

Também de 2012, “Move Your Feet” saiu pela NastyFunk Records e ajuda a mostrar outro lado importante do início da trajetória de Glen: o diálogo com o house de baixo forte, groove funcional e apelo direto de pista. O release teve remixes de nomes como Matt Fear, Click | Click, Junior C. e Erik Christiansen, o que já indicava uma circulação interessante dentro do ecossistema europeu de house/tech house daquele período.

Click | Click & DJ Glen – Girls Girls Girls [Cajual Records, 2013]

Girls Girls Girls, parceria com o produtor alemão Click | Click, apareceu pela Cajual Records, gravadora histórica de Chicago ligada a Cajmere/Green Velvet. O próprio texto da Cajual no SoundCloud explica que a colaboração nasceu durante uma tour de Click | Click pelo Brasil em 2013, resultando em duas faixas de house minimalista, com basslines fortes, vocais funkeados e melodias diretas.

DJ Glen – Get Dirty [Dirtybird, 2015]

Este é o primeiro registro de DJ Glen dentro do universo Dirtybird, faixa que saiu em 2015 na compilação DIRTYBIRD BBQ – Grill$on’s Revenge. Musicalmente, ela já conversa com a linguagem que o tornaria muito associado ao selo: baixo expressivo, groove físico, humor e uma energia menos polida. É uma faixa essencial para marcar a entrada dele na família Dirtybird.

DJ Glen & Nana Torres feat. SerGy – The Mirror [CUFF, 2016]

Lançado pela CUFF, o EP recebeu remixes de Amine Edge & DANCE, Tim Baresko e Elomak, além de versões assinadas pelo próprio Glen. É um release que mostra a conexão dele com o circuito europeu do house mais bassline-driven e também fortalece essa leitura de Glen como artista que circula entre Brasil, França, Reino Unido e Estados Unidos.

Illusionize & DJ Glen – Oscillator [Armada Deep, 2018]

Lançada em 2018, Oscillator reuniu dois nomes brasileiros com forte leitura de pista e recebeu a chancela da gigantesca Armada. A faixa ganhou ainda uma nova versão em 2024, Oscillator (Jack Is Back), com Chuck Roberts, o que reforça sua sobrevida dentro da discografia dos dois. 

DJ Glen & Bruno Furlan – Another Planet [Dirtybird, 2019]

Provavelmente o maior marco internacional da discografia de Glen. Lançada pela Dirtybird, Another Planet consolidou a parceria com Bruno Furlan e virou uma das faixas brasileiras mais emblemáticas dentro da história do selo. Claude VonStroke chegou a apontá-la como sua faixa favorita de 2018 e que ela se tornou parte da história oficial da Dirtybird, aparecendo inclusive na compilação comemorativa de 20 anos da label. Em 2023, ainda ganhou um novo VIP Mix pelas mãos de Furlan.

Illusionize & DJ Glen — First Time [SPRS/Spinnin’ Records, 2019]

Depois de já ter construído uma trajetória sólida no circuito mais underground, DJ Glen se aproximou de uma plataforma de alcance mais amplo ao lançar First Time pela SPRS, braço da Spinnin’ Records. Em parceria com Illusionize, a faixa ganhou uma roupagem mais radiofônica e, por conta dessa combinação, fez um sucesso gigantesco nas pistas e plataformas de streaming, ultrapassando 19mi de plays só no Spotify.

DJ Glen, GetCosy feat. Nana Torres – Stop, Don’t Stop [Relief Records, 2023]

Um dos capítulos mais curiosos e autorais da fase recente. Stop, Don’t Stop saiu pela Relief Records, label de Chicago comandada por Green Velvet, com uma versão/edit do próprio Green Velvet e outro mix com duração de 14 minutos. É uma faixa mais experimental dentro da discografia de Glen, mas com um peso simbólico gigantesco.

Vintage Culture & DJ Glen — Brava [Vintage Culture, 2024]

Brava marcou a primeira colaboração oficial entre DJ Glen e Vintage Culture, integrando a segunda parte da compilação Vintage Culture & Friends, Vol. 6. O lançamento saiu pelo selo independente de Vintage e colocou Glen ao lado de um dos artistas brasileiros de maior projeção global, em uma faixa que abriu espaço para uma leitura mais experimental dentro do universo melódico e clubber que Vintage vinha desenvolvendo naquele momento.

DJ Glen & Drop Dealer — Unwalk [Abstract RecStore, 2026]

Lançada na última sexta (08), no mesmo dia que Saturn Storm, Unwalk chega como parte da compilação Abstract, Vol. 1, projeto ligado à celebração de 10 anos do Abstract Festival, onde Glen acabou de se apresentar. A faixa funciona como um retrato da permanência de Glen no circuito brasileiro, um lançamento que mostra que sua história continua sendo escrita também a partir das pistas do país.

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