Em uma cultura que, por muitas vezes, suaviza ou até mesmo dilui as próprias raízes, somada a uma cena que ainda enfrenta uma significativa disparidade de gênero, ter uma representante que entrelaça inclusão e autenticidade, colocando ambos os valores em voga, é um feito a ser prestigiado. Clementaum, a alcunha de Gabriela Clemente, é a prova cabal de que a originalidade é um caminho de reconhecimento.
Natural de São José dos Pinhais, no Paraná, a DJ e produtora começou a se interessar pelas profissões e teve sua visão em relação à música eletrônica moldada quando acompanhou uma apresentação do DJ e produtor Skrillex — uma inspiração certeira já que, assim como Clementaum, o artista traz uma abordagem disruptiva em suas criações. Para ela, a autenticidade é a chave e isso se conecta à curiosidade e à determinação. Autodidata, aprendeu a discotecar assistindo aulas no YouTube e recebendo dicas de amigos. Encontrou o Vogue Beat como um dos pontos focais do seu projeto, o que a fez se aproximar da cultura Ballroom.
Não contente em apenas ocupar um espaço, Clementaum também fez questão de criá-lo, iniciando projetos de produção cultural como a Passaçaum, que no início de maio terá uma nova roupagem, funcionando como label. Ao lado dos DJs e produtores LAZA e RKills, transformará a Passaçaum em um centro de manifestação cultural de artistas independentes, com enfoque na comunidade LGBTQIAPN+, através de lançamentos de singles, EPs, álbuns e a criação de ambientes democráticos itinerantes por meio da realização de festas esporádicas.
Sinônimo de energia, referências latinas e extravagância, tanto em sua marca pessoal quanto em suas produções musicais, Clementaum adentrou o mundo da produção musical, trazendo remixes e edits com referências de Funk, Techno, Vogue Beat, pautando as extensões da música eletrônica popular brasileira.
Após um tempo, que podemos até considerar curto em comparação à velocidade de crescimento de artistas latino-americanos — quando crescem —, sua originalidade e consistência em enfatizar as próprias raízes transformaram a artista em um dos nomes mais comentados da cultura eletrônica underground. Uma das singularidades que justificam seu posto é sempre lembrar de onde veio para saber para onde vai.
Fruto de um processo criativo consistente, alcançou espaços como Whole Festival, Club Raum e o lendário Boiler Room, no Primavera Sound Barcelona — uma apresentação considerada como um dos pontos altos do festival pela WGSN. Além disso, conta com uma residência na rádio inglesa Rinse FM e foi eleita DJ do Ano 2024 pelo Women’s Music Event Awards (WME), evento organizado pela Billboard.
La mayor! Clementaum tem colocado a música eletrônica popular brasileira em evidência, na correnteza de um incrível movimento que traz a valorização de artistas nacionais mundo afora, a exemplo dos produtores RHR e Badsista. Em uma conversa que tivemos há alguns anos, ela afirmou a seguinte frase: “Um dos meus desejos em relação à cena envolve a valorização dos artistas, principalmente os artistas independentes, periféricos e partes de outras minorias, pois nós sabemos que ali estão as raízes, seja do House, do Techno, do Funk ou de outros estilos.”
Executora das próprias vontades, tem ajudado a abrir os braços do mundo para um abraço à nossa cultura eletrônica. Ela é capaz até de captar olhares que estavam desviados internamente, causando bons impactos e nos lembrando que a valorização não precisa ser importada.