Tudo começou com uma visita. Bauhouse (Agustin Giangaspero) passou uns dias no Rio de Janeiro e acabou na casa de simo not simon (Antonio Simonetti), onde uma conversa despretensiosa ganhou forma. “Eu comentei que tinha uma proposta, mas que preferia falar pessoalmente”, conta simo. Ali nasceu a Clover Club, selo que os dois viram como outlet criativo e forma de construir a comunidade de house que sentiam falta no Brasil — inspirada em soul, disco, french house, funk e produções dos 2000, mas com um pé no agora.
O nome veio de um mergulho em referências: o Clover Club, coquetel clássico do século XX, com sua cor rosa, textura aveludada e equilíbrio entre doce, cítrico e seco. “O próprio drink chamou atenção como metáfora para o som e a proposta da gravadora: algo clássico e aveludado, mas com um toque mais cru e fora do comum”, explica simo. A estética art nouveau da logo veio naturalmente, trazendo leveza e um humor “cheeky” que permeia o projeto.
Dois anos depois, o catálogo reflete essa visão. “Nos posicionamos como uma gravadora de house music que busca lançar músicas atemporais. O catálogo é algo que importa muito. Queremos ouvir as faixas em 20 anos e ainda falar que são boas”, e por isso, a curadoria é bastante pessoal, feita exclusivamente por eles. Priorizam faixas com paixão e intenção, onde produtores desafiam limites: cantam suas próprias vozes, gravam samples reais ou usam instrumentos ao vivo. “Quando um som é feito com amor, é original e genuíno, conseguimos sentir isso — e é exatamente o que nos faz nos conectar com a música desde o início”, diz Bauhouse.
O turning point veio com I Can Finally Know, primeiro “hit” que explodiu e hoje já soma mais de 1,5 milhão de streams só no Spotify. O release colocou a gravadora em destaque na cena, mostrando que uma label daqui também é capaz de alcançar um público mais amplo. Hoje, através de várias de suas tracks, a gravadora soma suportes de Folamour, Groove Armada, Jamie Jones, Joseph Capriati, Mousse T., Fouk, Claptone, Sam Divine e Paco Osuna, e é cada vez mais comum receber demos de artistas nacionais e globais.
Outros marcos seguem a mesma linha: I Should’ve Known, com remixes de Coppola e MKJAY (incluindo uma versão de drum & bass), mostrou a versatilidade da label. 19th Floor Jam, que chegou no último mês de março, marcou a primeira colaboração dos sócios, equilibrando pop para o dia a dia com raízes clubber. Tem ainda House Music For Lovers e Baile Trip, que tecem influências de blues, rock, disco e funk br em uma versão de house cheia de feeling.
“Temos uma família de artistas talentosos que ainda é pequena, mas que queremos expandir com muito cuidado”, reforça Bauhouse. Quem lança vira parte da “família Clover” e recebe apoio para crescer — um safe space em jornadas solitárias de DJs e produtores. “Se alguém foi escolhido para lançar com a gente, é porque não apenas acreditamos na música, mas também valorizamos a pessoa por trás dela e queremos o seu crescimento”. Nos bastidores, contam também com Thiago Ildefonso cuidando da identidade visual desde o início e a Braslive atuando como um parceiro-chave na parte promocional.
Outra frente que merece atenção são as pop-ups intimistas que acontecem entre Rio e São Paulo e que tiveram sold outs, reunindo a comunidade para vivenciar o universo do selo. “As festas de showcase da gravadora tem sido muito importantes para nós, pois reúnem nossa comunidade em um só lugar, permitindo que as pessoas se conectem com a gente e entre si”, diz Bauhouse. São espaços de troca, imersão e leveza, com planos de expansão pelo Brasil.
A leitura que temos é que a Clover é uma ponte: underground e acessível, tem pegada clubber mas também conversa com o cotidiano, está entre o Brasil e o mundo — com fãs no Japão e Europa. “Não é sobre lançar hit atrás de hit, e sim sobre construir uma narrativa consistente, que faça sentido no longo prazo e conecte com as pessoas”. Mesmo com um catálogo ainda jovem, muitas das faixas já demonstram atemporalidade e isso é algo que deve ser valorizado num cenário como o que temos atualmente.


