Reinaldo Quintino cresceu sem atalhos. Antes de Reizko existir, veio o corre, a base feita na raça, a pesquisa como única forma de alcançar algo maior. A paixão pela discotecagem foi um reflexo da inquietação de quem nunca se contentou com pouco — e que precisou ir fundo nos discos, nos fóruns, e nos garimpos da cidade para construir um repertório que hoje o diferencia da grande maioria. É exatamente por isso que, quando Reizko assume o comando da pista, ele apresenta não apenas sua música cuidadosamente selecionada, mas também a memória de onde veio e o respeito por quem está na batalha.
A música entrou na sua vida como uma ferramenta de transformação — um caminho que ele construiu com pesquisa, insistência e muita resiliência. “No começo, a gente sempre passa por diversas situações de muito esforço, barreiras financeiras…”, conta. Mas foi justamente essa trajetória que moldou seu olhar para a cena, sua curadoria e sua forma de se relacionar com a pista. Hoje, seja atrás dos decks, seja na produção de eventos, Reinaldo ocupa espaços importantes e também abre caminhos para outros artistas.
A Goma Room é um reflexo disso. O que começou como um movimento na Baixada Santista cresceu e hoje tem um impacto real na cena de São Paulo. “Sempre escuto das pessoas que frequentam a festa que na Goma você sempre se surpreende com os sets que são tocados”, revela. A ideia foi criar um espaço onde a pesquisa musical fosse levada a sério, onde DJs e público pudessem se conectar através de uma experiência sonora rica em detalhes. E isso vem sendo feito com maestria, já que por lá passaram DJs como Stingray 313, Kush Jones, Z@P, Bianca Oblivion e Que Sakamoto — além de HearThuG confirmado na próxima edição, nesta sexta (04) — nomes que ajudaram a solidificar a festa como referência na cena, , sem se apropriar de modismos e criando um ambiente onde a cultura underground prevalece.

Em paralelo, Reizko vem construindo uma identidade sonora que foge de rótulos. “No começo, as pessoas ligavam meu som ao que ouviam ali naquele momento. Hoje, após anos de cabine, o preparo está afinado para todos os desafios”, diz. Do House ao Techno, do Progressive House 90’s ao Electro, cada set é um convite para enxergar a música além do óbvio e carrega o cuidado de quem entende que um bom DJ precisa surpreender. “O esforço te torna talentoso. Você só progride se trabalha para elevar o que já sabe fazer”, e talvez seja essa a maior diferença entre ele e tantos outros: o compromisso com a surpresa, com o frescor, com a experiência que vai além do entretenimento.
Essa mesma mentalidade deu origem ao Âmago, projeto que rapidamente ganhou relevância no circuito underground e serviu como um ponto de apoio para eventos menores. “A gente realmente gira uma engrenagem de oportunidades”, comenta. O espaço físico no Largo da Misericórdia se encerrou em fevereiro, mas deu início a um outro projeto: o lançamento do Âmago DJs, formado por Reizko, Ireijo, Vasconcellos e Tripmod, mantendo viva a essência que uniu os artistas inicialmente.
Voltando o foco ao Reizko, hoje circula por espaços que antes pareciam distantes. Já tocou na festa de réveillon da Cardume, Carlos Capslock, Tijolo Records, Sangra Muta, Mvuka, Veludo Festival e Universo Paralello, nos próximos meses passa por Manaus, Porto Alegre, Minas Gerais e Rio de Janeiro, e para selar tem sua primeira tour internacional confirmada para o ano que vem. Além disso, um novo espaço para o Âmago e um ano repleto de atrações internacionais na Goma Room estão confirmados.
Mas se tem algo que ele nunca perdeu é a consciência do que foi necessário para chegar até aqui. A cena que o formou continua sendo seu norte, e cada nova conquista é também uma forma de devolver ao underground aquilo que ele mesmo recebeu. “A evolução está nisso: você sempre enxerga de onde veio, nunca se esquece disso e agradece onde está hoje. Quero que minha história e tudo que pude colaborar com a cena local possa servir de incentivo para muitos que buscam o mesmo, seria a minha maior felicidade”, finaliza.