O ninho é aonde tudo começa e tudo termina. O primeiro álbum de BLANCAh traz um ciclo musical e espiritual com começo e fim nítidos, aonde o ouvinte (esteja esse na pista ou no quarto, no trem, no mundo) se deixa perder na viagem sonora que a produtora, música, DJ e artista cria. Mesmo dentro da liberdade e experimentação presente em Nest, há uma estrutura forte e um mapa bem delineado entre as 10 tracks originais passando uma sensação de segurança, para que se explore com mais confiança e realmente se deixe levar. É impressionante ver uma produtora evoluindo na forma que lida com seu som de maneira tão palpável, qualquer um que escute o debut album com atenção percebe o esforço colocado em cada track para que cada uma exista em um status independente, mas quando unidas, expressem a mesma narrativa. Um trabalho sem dúvidas complexo, mas um que Laus domina e encanta quem para para ouvir.

Quem já viu BLANCAh ao vivo sabe o que é se emocionar com a maneira experimental com a qual ela lida com sua música. Eu me lembro até hoje minha reação quando vi, pela primeira vez, ela pegar aquele microfone e cativar a pista inteira. Nest traz BLANCAh em seu formato mais experimental até hoje, fazendo uso dos elementos do techno e do deep house, sintetizadores e percussão intensos, e repetição de loops, contrastados com samples orientais, uma pegada tribal e ritualística, além dos vocais hipnotizantes que proferem poesia.

O álbum abre com “Nest”, a faixa título é tudo que se podia esperar como representação do álbum como um todo. A sensação de se acordar em um mondo novo, com o cantar dos pássaros e um som orgânico, leve, que se desenvolve sem pressa, perfeitamente acompanhado dos vocais de Patrícia. A medida que as faixas vão abrindo suas asas e alcançando voos cada vez mais altos, as batidas de BLANCAh evoluem como um pássaro em migração, de maneira perfeita e determinada. Minha faixa preferida é “Higher Ground”, aquele tipo de som que arrepia os pelinhos atrás do pescoço e faz uma onda de calor explodir no corpo. Outros destaques são “Harpia”, que cria um paralelo com a imagem de alguém dedilhando o instrumento acústico por meio de batidas minimal; “Learning to Fly” e “Learning to Fall”, pois trazem um contraste sonoro incrível que já é implícito pelo título; “Albatroz”, que é uma track com uma construção muito interessante que se traduzirá de maneira bem peculiar para a pista; e por fim, “Queda do Ninho”, que traz o primeiro vocal em português da produtora e faz um perfeito pouso final. O som de BLANCAh vem muito da alma, é natural, é cru e sincero.

O ninho – porto-seguro e também ponto de partida – faz parte da metáfora que se estende pelo trabalho de Laus. Não é surpreendente que os seres sem moradia fixa, maior liberdade e oportunidade de ver o mundo atraiam a mente criativa da mesma. Lançado pela label berlinense Steyoyoke, a qual BLANCAh vem colaborando há anos e partilha dos mesmos valores musicais etéreos, Nest é um álbum complicado de se traduzir para a pista. Porém, sem dúvidas convida os que acompanham Laus desde seus dois primeiros EPs e para os novos ouvintes, para uma jornada musical de uma artista que está na indústria há 16 anos e tomou seu tempo para realmente encontrar a maneira certa, para ela, é claro, e tão nítido nas produções, de, enfim, voar. A música conecta as pessoas! 

Ouça o álbum na íntegra abaixo: