Alataj entrevista Any Mello

Após construir uma carreira vitoriosa como VJ, Any Mello decidiu encarar um grande desafio em sua carreira transportando seus esforços para a posição de DJ e produtora. Decidida a explorar as facetas do techno, Any se mudou para Berlim e tem surpreendido sua base de fãs com a intensidade e maturidade de seu trabalho, mesmo com a recente jornada frente a área.

Apesar das mudanças recentes na carreira, algumas coisas continuam intactas, como por exemplo o carisma e a atenção que a artista mantém com a pista, colegas de profissão e outros players do mercado. Essa relação genuína se reforça a cada ano e mantém Any em uma posição de respeito e amizade frente ao público.

Gig: Carlos Capslock City: São Paulo Film: Daniella Rodrigues Track id: Rodhad feat Vril – Target Line (Original Mix)

Posted by Any Mello on Monday, July 2, 2018

Seus esforços no estúdio já vem apresentando alguns resultados impactantes, como por exemplo o recém lançado EP pela Nin92wo, Pluto. Neste release, Any entrega uma belíssima composição original que ainda apresenta releituras de Aninha e Victor Enzo. Às vésperas de seu retorno ao Brasil (Any toca ao lado de Victor Ruiz na Tribaltech e no El Fortin esse fim de semana), a convidamos para um bate-papo sobre alguns dos principais pontos de sua carreira. Confira abaixo o resultado:

Alataj: Oi, Any! Tudo bem? Obrigada por nos atender. Vamos direto ao ponto: o que exatamente fez você deixar uma carreira consolidada no VJing para apostar novas fichas na discotecagem e produção musical?

Oi Alan, eu que agradeço pela oportunidade de conversar com vocês! Muitos motivos me impulsionaram a seguir na música. Antes de ser VJ, eu já queria ser DJ. Uma coisa acabou levando a outra e como gosto de desafios e mudanças, corri logo fazer cursos de produção. No fim sinto muito falta dos visuais, mas confesso que após 5 anos ininterruptos trabalhando com o AV, me fizeram cansar um pouco da rotina de VJ. Poucas pessoas sabem, mas é um trabalho com muitos reveses e bem estressante. Consegui chegar num nível onde as coisas eram mais fáceis pra mim, mas antes disso enfrentei festas de 18 horas de duração com cachê muito baixo e pouquíssima valorização. Acredito que essa é uma profissão que merece mais atenção e sempre lutei para mostrar isso a todos.

Desde o fim do projeto audio visual com o Victor, quais foram os principais desafios e medos que você enfrentou em sua carreira?

Não posso dizer que tinha medo de problemas técnicos, porque a cota eu estourei no tempo do AV [risos]. Claro que uma nova profissão vem carregada de novos desafios e um dos meus maiores medos no começo foi o famigerado samba. Tinha medo de não conseguir ouvir e corrigir, mas cheguei à conclusão de que o ouvido é algo que se treina. Começar a produzir desenvolveu uma audição que eu não sabia que tinha. Se uma pessoa se torna cega hoje, ela precisará se adaptar a nova realidade dando atenção plena a outros sentidos. A gente tem essa capacidade de desenvolvimento sabe? É uma questão de foco.

Mas falando de desafio, o meu maior foi pessoal. Quando você chega num nível alto de sucesso, você se acostuma com algumas coisas e não se dá conta. Eu desci muitos degraus para começar em outro nicho e nos primeiros meses do fim do audiovisual, me dei conta de muitas coisas. Uma delas é que o amor e atenção que você recebe das pessoas, é passageiro. A gente se confunde num determinado momento de que as pessoas gostam da gente, mas na verdade elas gostam do que você proporciona à elas. Quando você deixa de fazer o que elas gostam, a atenção, o amor e admiração muitas vezes desaparecem. Isso é uma ilusão que leva muitos artistas a caírem em depressão profunda após o sucesso. Muitos não sabem lidar e separar as coisas, ter calma e entender que tudo é cíclico e que não somos seres especiais porque algum dia muitas pessoas nos aprovou.

Claro que existem fãs que sempre vão estar com você, te apoiando, pois a conexão é real e sou muito grata pelos que estão comigo nessa nova fase. Decidi falar sobre isso porque eu e o Victor fizemos parte de uma revolução na música eletrônica do Brasil, de um tempo onde brasileiro não ganhava bem e não era ovacionado. Eram poucas pessoas que conseguiam chegar lá, hoje muitos fazem muito sucesso. Porém, isso futuramente pode ser um problema difícil de ser enfrentado pra quem assim como eu, se identificou e se acostumou com a fama. Falando de um modo geral para todas as áreas da vida, precisamos entender que nós não somos as nossas experiências, pra quando elas passarem a gente não se perder, se pegando num ponto em que não sabemos quem somos.

Que jeito maravilhoso de comemorar meu aniversário! Maringá, olha, tenho que dar meus parabéns pra vocês! Nós fomos muito bem recebidos e vocês não pararam de dançar por nenhum minuto! Não vejo a hora de voltar… @iitsclass 🙏🏻

Posted by Any Mello on Sunday, April 22, 2018

Muitos amigos tem me passado ótimos feedbacks sobre suas produções. Conta pra gente como tem funcionado seu processo criativo? Quando exatamente você começou a produzir?

Que legal! Fico muito feliz em saber desses feedbacks. Comecei a produzir em 2016. Fiz um curso de Logic na DJ Ban e logo de cara, tive muita afinidade com ele (de alguma forma me remeteu os softwares que usava para produção de vídeo). Estudei também harmonia e teclado, porque não tinha noção musical nenhuma. Não sabia nada sobre escalas e como funcionavam, seus acordes e regras. Fiz também um curso de mixagem com o Andre Salata que me ensinou muitas coisas e recentemente, fiz um de síntese sonora com o Francisco Velázquez e foi simplesmente fantástico! Eu amei esse curso, foi meu favorito!

Sobre meu processo criativo, eu sento na frente do computador e fuço em synths. Pego meu teclado midi e vou apertando teclas, testando harmonias e timbres. A hora que algo me inspira, reservo e uso como referência para criar outras coisas, até achar que tenho elementos suficientes para fazer a construção total. Detesto procurar samples, isso me atrasa demais e não uso som de ninguém como referência. Gosto de pegar a coisa do “zero” e fazer do meu jeito. Muitas vezes a música começa de alguma frase que me surge na cabeça e vira um vocal. Gravo no celular e depois gravo no microfone do estúdio, construindo a partir disso. A track Involved que fiz com o Kalil e que foi lançada na Noir, começou dessa forma.

Pluto foi lançado recentemente pela Nin92wo, um dos principais labels de techno do país, com remixes de Victor Enzo e Aninha. O que esse lançamento representa pessoalmente pra você? Como as faixas tem soado na pista?

Esse lançamento representa muito pra mim, pois será o primeiro de uma música minha. Já lancei em labels internacionais, mas foram músicas que eu fiz parte com outros artistas. A Pluto é totalmente minha! Achei interessante chamar o Victor Enzo e a Aninha para fazerem parte disso, pois são artistas que admiro muito. Toco com frequência a do Victor Enzo e é sucesso na pista!

Testando esse remix f*** do Victor Enzo para a minha track PLUTO no Air ❤️

Posted by Any Mello on Tuesday, January 30, 2018

O Tessuto gosta da versão original e toca bastante ela, inclusive tocou no Dekmantel que teve aqui no Brasil. Sou muito grata pelo apoio que ele me dá e também sou muito grata pelo Alex Justino ter acreditado nesse EP, me dando a oportunidade de lançar na Nin92wo, que é uma label que desde quando era só VJ, já sabia que era séria e muito respeitada no nosso país.

Falar sobre referências as vezes pode soar um pouco repetitivo, mas é no minimo curioso quando se tem uma pessoa como você do outro lado. Quais artistas e movimentos tem representado a espinha dorsal de suas pesquisas para produção musical e discotecagem?

Admiro muitos artistas nessa cena, cada um com sua particularidade. Não posso negar que o Victor é uma grande referência pra mim. Considero ele um dos melhores mundialmente. A parte disso, gosto de procurar por movimentos undergrounds e independentes e ver quem está tocando nessas festas, tem muita coisa boa que sai dali. Mas indo nos nomes mais conhecidos e que me inspiram são: Slam, Pig&Dan, Dense & Pika, Len Faki, Charles Fenckler, Timmo, Thomas Schumacher, SAMA, Enrico Sangiuliano, Ilija Djokovic e Brennen Grey.

Recentemente você deixou São Paulo para uma nova jornada de vida na Alemanha. Como tem sido lidar com as emoções dessa mudança? Quais são seus grandes objetivos com ela?

Confesso que me sinto em casa, porque todo ano passei por temporadas aqui. Estou de certa forma habituada com o país. Meu maior objetivo do momento é conseguir me comunicar. Meu inglês é bem básico e sei muito pouco de alemão. Todo dia estudo num espaço que improvisei para produzir também, vida segue! Uma mudança assim vem carregada de grandes objetivos! Nesse ano tenho uma tour programada na Austrália e gigs no Líbano, Alemanha, Brasil e Argentina.

Quão importante e decisivo é ter uma pessoa como o Victor ao seu lado? Como vocês buscam se ajudar em relação as dores dessa carreira artística?

Ter o Victor ao meu lado é importante e decisivo em todos os aspectos da vida. Mas falando de trabalho, cada um ajuda o outro como pode, dando suporte nas áreas em que não damos conta sozinhos. No meu caso, qualquer dúvida que eu tenho em relação a produção é só perguntar pra ele. Porém tem muita coisa que ensino também, nos cursos que faço aprendo coisas que ele desconhece e assim vai. A parte boa dessa conversa é que temos o mesmo gosto musical, então só temos a acrescentar um ao outro.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música representa o poder da criação e cura que tenho na minha vida. Foi com ela que eu superei os maiores desafios que me foram dados. Quando imaginei o cenário perfeito em que gostaria de viver, estava ouvindo música. Foi com ela que coloquei uma mochila nas costas (com alguns poucos reais no bolso) e sai pro mundo com apenas 18 anos de idade. Foi através dela que eu cheguei em São Paulo e conheci o Victor e é por ela temos a oportunidade de trabalhar com o que amamos, conhecendo pessoas e culturas incríveis por todo o mundo. Eu acredito na música como parte de uma comunicação universal, de dimensões elevadas das quais não conseguimos nem se quer explicar. A música cura, alegra e eleva. Ter a oportunidade de viver por e através dela, é um dos maiores presentes que eu poderia ter ganho nessa vida! Agradeço muito pela oportunidade de falar um pouco sobre minha história com vocês! Obrigada pela entrevista Alataj e pra quem leu até aqui. Beijos!

A MÚSICA CONECTA. 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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