Alataj entrevista Dani Souto

Faraó da Discoteca Odara, festa que tem levado a Curitiba uma nova roupagem musical, Dani Souto certamente é uma das figuras mais excêntricas da eletrônica nacional neste momento. Bem distante daquele perfil superstar sério e intransponível que muitos artistas da nossa indústria tem adotado, Dani passa aquela imagem de gente como a gente e por isso tem guiado sua carreira em um caminho um tanto quanto diferente do “lugar comum”.

Seu perfil sonoro cosmopolita e permanentemente aberto a experimentações é um dos grandes destaques de sua jornada na música, anteriormente marcada por lançamentos em labels como Rebirth, Turbo, Kassette e Atlantic Records. Pluralidade, atemporalidade, exotismo e o groove são as diretrizes mãe de sua pesquisa musical, essencialmente cravadas em movimentos como Afro Latino, Turco, Árabe, Balearic e Disco Punk.

Nenhum texto alternativo automático disponível.

No próximo dia 16 de novembro, Dani Souto se junta ao Alataj para primeira edição da Tangerina Soundsystem, que acontece em Balneário Camboriú. No aquece para o evento, conversamos com Dani sobre seu perfil sonoro, valorização do talento nacional, experiência, residências e muito mais. Confira:

Alataj: Oi, Dani! Tudo joia? Em nosso primeiro bate-papo por aqui, em Agosto do ano passado, falamos bastante sobre o caráter cosmopolita de sua música. Na sua opinião, quais foram os acontecimentos chaves de sua vida e carreira que possibilitaram você chegar até esse perfil sonoro?

Dani Souto: Alô, meu povo! Tudo na moral por aqui. Tô de volta, vamos lá. Sobreviver ha 2 décadas e uns quebrados, com alguma relevância, na minha opinião é fruto de prestar muita atenção e de viver de corpo e alma, sem caô nenhum, o processo histórico que eu participei ao longo desse tempo. Ter amadurecido numa cidade e numa década em que não existia segmentação alguma pra quem era do “Túnel Rebouças pra lá”.

Pô tu se divertia felizão indo em baile black de quadra de clube no Irajá, festa de rua no Méier, show de metal em Bangu, rap na Cidade de Deus, samba na Vila Isabel, geral do Maracanã… conhecia e respeitava gente de tudo quanto era canto, sem preconceito, escutava de tudo e curtia numa boa de tudo, não tinha essa parada, “ahhh eu sou do house” ou “sou do techno”. Ouvi house de Chicago pela primeira vez em um baile de subúrbio, tocava Kraftwerk também, no Rio essa parada de club foi nos anos 90, mais tarde tu vai ficando mais malandro e ai vai curtir na zona sul, que ai já era um som mais afinado com aquela coisa mais dos bacanas, baile do Mourisco em Botafogo que já era uma encruzilhada, mais elegante, tocava house a pampa, tocava um funkão, tocava charme, new jack swing, uns balanço.

Depois me levaram na Dr SMITH, era club de musica eletrônica, la foi onde eu falei: “porra isso aqui é diferente, passou de nível”. Tu junta essa bagagem toda nas costas… porra acho maneirasso entender e carregar isso tudo. Ter sido meio nômade ao longo desses anos também foi importante, por que tu tem contato com varias realidades diferentes, não fica só na bolha. Tudo é maneiro, tudo tem seu charme e merece respeito e o mais maneiro é você conhecer e transar essa parada toda ai. Tu também não pode ficar parado no tempo, tem que estar aprendendo com a galera nova, trocando informação, ficar se reinventando, senão a onda leva e tu fica chato pra caralho reclamando da onda que tu não soube surfar.

Você é um artista bastante envolvido com iniciativas que promovem a valorização de talentos nacionais. Na sua visão, quão importante é esse tipo de empreitada para o crescimento sustentável da nossa indústria?

Cara, apesar dos pesares, Brasil é bom demais… o que fode é essa elite raivosa, que não larga o osso, que baba e não quer deixar os outros ser feliz. Nossa cultura é plural, multi étnica e tem gente de tudo que é tipo fazendo coisa boa. Quando você chega num patamar que tem voz pra ajudar, dar visibilidade, pô tem que ajudar, tem que ser solidário, ta geral na mesma fileira. Dar espaço pra quem manda bem, ou tem potencial, mulher e povo preto principalmente, homem branco já tem espaço pencas, tem que dar espaço pra quem nunca teve, tem que dar espaço pra quem tem talento, pra garotada, pro dinossauro que talvez tenham sido esquecido, ai tu vai e mostra: “ai oh! esse bagulho ai é das antigas fazia altas antigamente e vocês tem que conhecer”. O “novo” não pode se desconectar do passado, é um processo pra chegar onde chegamos. Não deixo de colocar os gringos onde eu to envolvido também não, mas além de escolher a dedo, tem que ser alguém que seja desafiador, pra chegar aqui, dar um choque e sacudir a porra toda, botar lenha na fogueira e galera daqui se sentir desafiada pra criar e fazer mais. Mas esse ano de 2019 que vai vir agora meu foco é 90% Brasil e juntar essa massa toda.

Cada vez mais se debate sobre o papel do DJ no dance floor. Na sua visão, qual a melhor definição em torno desse assunto?

Meu camarada, eu não sei a que pé anda esse “debate”, mas na minha opinião disk jockey é disk jockey. Disk jockey quando é “maestro”ninguém segura. Tu pega um cara tipo Renato Cohen, Marcio Vermelho, que se deixar toca 5 horas, da a volta ao mundo, toca de tudo, tem conteúdo, legitimidade, historia pra tocar, faz rir e faz chorar… isso é seminal pra se falar de pista de dança.

Agora, tem muito “DJ” água de salsicha por ai, uma turba deles, que não tem nada disso. Tu tem que ter vocação pra contar historia, o teu trabalho tem que ser eco do que você é, tem que ter legitimidade no que faz, não é só fazer por que ta na moda e ficar de peixe piloto dos outros. O DJ também tem que evoluir ao longo do tempo, produzir, fazer musica, fazer rolê também… tudo com a mesma legitimidade de quando seleciona a trilha que tu vai tocar, para aí alcançar a completude.

Com uma experiência que ultrapassa os 25 anos de pista, é possível afirmar que você já viveu muitos momentos inesquecíveis nessa jornada. Pessoalmente e profissionalmente, quais são as conquistas que fazem a profissão de DJ valer a pena?

Sem duvida, chegar a essa altura do campeonato, tendo alguma relevância, qualquer que ela seja, já é o ouro. Ter gente jovem ainda afim de trocar ideia, interessada, pô irmão quero mais nada, não quero dinheiro, alias nunca ganhei. Enfim não quero mais porra nenhuma, isso é o que me faz feliz.

Na posição de DJ residente da O/NDA e Discoteca Odara, quais foram os principais aprendizados que você obteve em contato com o público da festa?

Aprendi, que fazer festa por fazer, não é a minha. O bagulho tem que ter alma, tem que ser solidário, internacionalista, tem que lutar pelos outros, fazer pelos outros, juntar gente diferente, tem que falar com, escutar e entender a língua dos outros, principalmente quem é excluído das altas rodas, festas caras, do hedonismo que custa caro. Se é nesse role que eu tô, o que puder fazer, tenho que fazer.

Seu currículo é composto por colaborações com gravadoras importantes, como Rebirth, Turbo, Kassette e Atlantic Records. O que há de mais bacana nessa troca de experiências entre artista e selo?

O engraçado que todos esses selos ai que tu falou, tirando a Turbo, que acabei virando amigo do Thomas, meu relacionamento era somente profissional. Hoje em dia troco muito mais experiência e me divirto com a galera de selos menores. Isso é bacana, tu conhece coisa nova, vai lá manda mensagem, quer conhecer e saber quem é a pessoa por traz, cria uma relação de amizade e admiração pelo selo ou por quem cuida dele. Tudo tem sido baseado nesse tipo de relação hoje em dia pra mim, relações puras e simplesmente comerciais não são minha onda.

Para fechar! Quando você pensa em Tangerina Soundsystem, qual a primeira música que vem a sua cabeça?

A MÚSICA CONECTA. 


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

RELATED POST

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

INSTAGRAM
SIGA-NOS