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Alataj entrevista François Vaxelaire [The Lot Radi...

Alataj entrevista François Vaxelaire [The Lot Radio]

Perguntas por Chico Cornejo

Desde a semana passada, as ondas sonoras da The Lot Radio chegaram ao Brasil através de dois projetos com proposta semelhante. Apoiados pela rede global de hotéis Selina, Rio de Janeiro e São Paulo hospedaram a iniciativa de François Vaxelaire através da Lapa55 Radio e Na Manteiga, respectivamente.

Last sunset on the Selina rooftop for this collaboration with Lapa55 Radio.Full stream: thelotradio.com & lapa55radio.com

Posted by The Lot Radio on Saturday, October 12, 2019

 

Há 4 anos, François deu vida a um pequeno terreno baldio em forma de triângulo no coração do Brooklyn, mais precisamente em Williamsburg. O jovem empreendedor belga apostou suas fichas em uma ideia de webradio, que até então era pouco ou quase nada comum – sim, difícil de acreditar que esse lance de DJs transmitidos frente a uma câmera é algo tão recente. 

O resultado é uma grade de conteúdo de alto gabarito, com participação assídua de importantes nomes da eletrônica internacional, como Four Tet e Nina Kraviz, e destaque para talentos locais que comandam programas regulares na programação da The Lot Radio. No embalo de sua passagem pelo Brasil, Chico Cornejo bateu um papo de primeiríssima com Vaxelaire, que agora se diz motivado a The Lot para o mundo:

Alataj: Você é um belga vivendo numa metrópole bastante diversa na qual escolheu montar uma webradio que bem rapidamente se tornou uma das principais plataformas mantendo a circulação de música de qualidade de forma constante num nível global. Você acha que teria rolado em algum outro lugar?

Francois Vaxelaire: Sim e não [risos]. Começamos faz uns quatro anos e fiquei surpreso, após viver por esse período em NYC e conhecendo tantos DJs e músicos, que eles não tinham uma rádio online para dividir com os outros seu amor e conhecimento musicais. Então decidi dedicar toda minha energia a criar uma plataforma sólida para que todos esses amantes da música tivessem um local, tanto online quanto offline, para se expressarem e se conhecerem.

Acho que podemos dizer que o projeto é um enorme sucesso e isso apenas mostra o quanto ele era necessário! Quando abrimos e começamos a procurar atrações em potencial, todos estavam muito empolgados com a ideia e disseram que tinha até demorado para termos algo assim na cidade.

Nova York sem dúvida nos dá acesso a uma imensidão de talentos e é muito prazeroso poder recebê-los aqui na The Lot. Dito isso, desde que abrimos temos visto muitas outras rádios online surgindo pelo mundo e fazendo um trabalho incrível em representar suas cenas locais. Eu mesmo estou sempre bem curioso em saber onde elas vão aparecer e, quem sabe, poder visitá-las como estamos fazendo agora com o Rio e São Paulo.

Já que puxamos o assunto inevitavelmente, além da rádio e de todas as tarefas associadas a ela, qual o lugar da música em sua vida? Você já havia trabalhado com isso antes?

Música é simplesmente uma das partes mais importantes da minha vida e sempre foi, desde criança. Uma imensa parcela dela foi dedicada a prazeres musicais, ir a um monte de shows com amigos na Bélgica, aprendendo a tocar sozinhos no meu porão e fazendo festas ali e acolá também.

Eu nunca havia trabalhado “profissionalmente” com música, mesmo porque a considero algo sagrado e nunca teria ido atrás de algo profissional nela. Está acima disso. Mas depois de tantos anos trampando em outras áreas, especialmente em fotografia e video, me senti vazio. Até descobrir que aquele pequenino pedaço triangular de terra na minha vizinhança em NY estava para alugar. Aí me joguei nessa oportunidade para criar a rádio que eu tinha em mente. E isso tem preenchido minha vida desde então.

Seja como o lar de uma cultura muito afeita à diversão ou como uma das mais fortes tradições musicais do globo, qual foi o lugar do Brasil na sua vida até aqui?

É divertido pensar que o Brasil tem uma história importante nela. Doze anos atrás eu viajei pelo país com meu par brasileiro à época por quase seis meses! Nós até planejamos ir morar em São Paulo, olha só. Mas a vida quis de outra maneira e acabei indo morar em NY depois de um ano em Moçambique.

Então é um enorme prazer poder voltar ao Rio e São Paulo, duas cidades que me fascinaram da primeira vez que as conheci.

O que você faz normalmente para encontrar inspiração? Mesmo se considerarmos que ela flui constantemente através das transmissões da rádio em formato aural, onde mais você a encontra?

Para ser sincero, creio que minha maior fonte de inspiração são as pessoas passando pela The Lot para tocar. Recebemos tantos talentos incríveis de tantos destinos e origens que é incrivelmente recompensador e interessante de poder testemunhar. A diversidade de NY é realmente impressionante. A cidade e as pessoas que acabamos conhecendo no decorrer de nosso existência é a maior inspiração.

A empreitada nasceu de um forte senso de comunidade e sempre tendo em mente seu lugar na vizinhança que abriga sua sede, mas como isso se dá no dia a dia?

Este deve ser o meu aspecto favorito do projeto como um todo e talvez o menos sabido, especialmente se você nos acessa apenas online. Mas nós somos a única com um local de verdade ao qual você pode vir e ficar curtindo, não importando quem seja: um transeunte, um turista, fã de um DJ específico, etc… Todos podem vir e curtir na The Lot. 

É na verdade o porquê de sermos 100% independentes: temos um quiosque que ocupa parte do mesmo contêiner que hospeda a rádio onde você pode comprar um café, uma cerveja, vinho, doces e isso financia o projeto inteiro. Então nós tornamos o que costumava ser um pequenino pedaço de terra ociosa, abandonado por quase quarenta anos em um centro vibrante nas redondezas no qual pessoas de muitos lugares pode se encontrar. Também criando oportunidades incríveis, já que DJs e músicos de cenas extremamente diversas que não teriam se cruzado de outra maneira possam agora colaborar e muito mais.

Ainda neste mesmo assunto, qual você sente que foi o impacto dessa sua cria na vizinhança propriamente dita e qual foi ele através de sua presença no panorama global de rádios online que vicejou na última década?

Realmente acho que criamos uma ilhazinha de criatividade e independência numa cidade que pode ser muito dura e gananciosa e as pessoas amam este lugar por isso. Ela parece de fato muito distinta de qualquer outro em NY. É muito única e toca as pessoas de um modo profundo. Acho que deve ser esse senso de liberdade que evoca.

Chegando agora a seu quarto ano de atividades, The Lot aumentou sua base de ouvintes consideravelmente e constantemente. Quanto disso foi fruto de um plano, se é que ele existiu?

Na real, sempre soube que seria uma boa ideia, porque a cidade não tinha nada assim rolando, mas não sabia se seria um sucesso pois comecei tudo do zero e num terreno que não deveria ter nada acontecendo nele! Basicamente não fazia ideia se estava acertando ou não. Apenas tinha um objetivo ideal na minha cabeça e tentei chegar o mais perto possível dele.

Foi muito mais difícil do que imaginava. Levei quase um ano para ter tudo aprovado com a prefeitura e obter todos os alvarás necessários. Então posso dizer com toda honestidade que tudo saiu muito melhor que qualquer plano que pudesse ter tido e estes quatro anos que passo tocando este projeto têm sido alguns dos mais lindos de minha vida 

Além de você, quem mais faz tudo acontecer diariamente?

O projeto todo é meio híbrido: você tem a rádio e o quiosque. De um lado, temos o que chamamos de “equipe principal”: quatro pessoas comigo incluso, que são parte dele desde o primeiro dia e que o ajudaram a crescer com conhecimento, energia e contatos. Estes são Pauline, Chris e Lloyd. Eu e Paulina tocamos a operação no dia a dia, fazemos a curadoria e supervisionamos tudo, Chris se concentra mais em nossos eventos e show, além de ser um curador “satélite” ao lado de Lloyd. 

Então a curadoria é feita conjuntamente? Como isto se dá?

Como falei acima, é um trabalho em equipe, além de toda a interação e recomendação de nossos DJs residentes. Eu diria que 80% da nossa grade é composta por eles, pessoas que têm um programa semanal, quinzenal ou mensal e mantemos 20% aberta para convidados internacionais/especiais. E isso é praticamente eu e Pauline indo atrás sem parar de gente que está passando por NY por qualquer motivo

Há alguns episódios que sejam seus favoritos no decorrer destes anos, independente do porquê?

Ah, muito difícil dizer! Mas minha primeira lembrança forte é de quando Antal, co-fundador da Rush Hour em Amsterdam, apareceu para tocar logo no início. Ele deveria fazer um set de trinta minutos e acabou ficando por quatro horas! Vê-lo tão feliz por tocar num pequeno projeto que havia iniciado há pouco me fez sentir muito bem.

Bom, agora The Lot Radio chegou ao Brasil para ocupar as operações de duas iniciativas bem semelhantes que temos por aqui e recebidos pelo Selina em ambos os locais que os eventos acontecem. Isto parece já ser bastante coisa, mas além disso o que mais está no seu horizonte e no da rádio?

Queremos muito repetir tudo isso! Viajar para lugares interessantes e colaborar com projetos locais, nos permitindo exibir diferentes cenas musicais e novos talentos. Já de volta a Nova York teremos um grande projeto surpresa que vai demandar muita energia, mas ainda é cedo para dizer. Vamos ver se tudo dá certo… cruzem os dedos!

A música conecta.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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