Alataj entrevista Henry Saiz

Quando os maiores críticos da dance music clamam por novidades e trabalhos fora da curva, certamente eles devem se curvar a cada nova entrega do DJ e produtor espanhol Henry Saiz. Seja discotecando em alto nível pelos principais clubs do mundo ou se apresentando ao lado de sua banda no formato live act, Henry firmou-se como um artista de vanguarda, sempre preparado para impressionar.

Seus releases por labels como Permanent Vacation, Last Night On Earth, Einmusika e Sincopat comprovam o valor de sua música no atual cenário eletrônica. Entretanto, nenhuma outra gravadora recebeu mais releases seus que sua própria Natura Sonoris, que também é casa de faixas de nomes do calibre de Hernan Cattaneo, Raxon, Brian Cid e Third Son.

Leia e conheça mais o americano Brian Cid, artista que já remixou diversas músicas de Henry Saiz.

No próximo fim de semana, Henry Saiz parte rumo à Amsterdam, onde tocará ao lado de nomes como Guy J, Roy Rosenfeld, Super FluGuy Mantzur e Jeremy Olander no wearelo&t festival, evento organizado pela Lost & Found de Guy J. Antes disso, Henry deu uma paradinha em sua intensa rotina para responder as perguntas abaixo, resultado de uma entrevista aguardada há muito tempo pela nossa equipe. Confira:

Alataj: Olá, Henry! Que grande honra é falar com você. É claro pra gente que você busca construir sua história na música eletrônica de forma muito original e autêntica. É possível dizer que ter seu próprio estilo foi a primeira das prioridades que você teve enquanto produtor?

Henry Saiz: Obrigado, pessoal! Bom, se você quer que sua arte se destaque, se você quer que as pessoas o conheçam, apreciem, lembrem e sigam sua arte, você precisa ter seu próprio estilo, principalmente em uma cena tão saturada. Você tem que atrair atenção com sua música e manter aquela atenção. Para isso, ter o próprio estilo ajudará muito. Não precisa seguir tendências e fingir ser alguém que você não é, criar músicas que você não sente… Se você é genuíno, sincero e coloca seu coração na sua música – esse já é o seu estilo próprio.

Seu último release, Digital Mirages, apresenta um Henry Saiz maduro e consciente enquanto produtor. O que você destacaria de mais especial no processo criativo deste release?

Com toda a sinceridade, acho que o EP todo já é um destaque. Acho que é o melhor lançamento de dance music que eu já produzi, mostra totalmente a minha essência e meu potencial como produtor de música eletrônica. É verdadeiro, pessoal, cheio de emoções, acho que muitas pessoas podem se identificar (pelos feedbacks que tenho recebido até agora). É aquele tipo de música que acho que faz você abraçar seus sentimentos ocultos, revelá-los a si mesmo e não ter mais medo deles, algo para lutar contra seus sentimentos, medos e sentidos internos.

Lançado no fim do ano passado pela Last Night On Earth, A Walk Through The Haze encanta por sua abordagem potente e ao mesmo tempo cadenciada. Qual a grande mensagem que você buscou passar através deste release?

Eu apenas quis levar os ouvintes a uma viagem. O tipo de viagem mais obscuro, imprevisível, com voltas inesperadas que você não se cansa. A viagem que você se perde sem procurar um significado, sem pensar demais no óbvio, apenas para curtir o passeio.

A Espanha possui uma das cenas de música eletrônica mais tradicionais e importantes do mundo. Como o país e seu público, especialmente, têm impactado sua carreira e forma de criar nos últimos anos?

Nos últimos 10 anos, provavelmente, questões não relacionadas à música afetaram de forma negativa a indústria da música eletrônica espanhola. A situação financeira do país, a repressão policial em casas noturnas causando o fechamento de vários locais menores, investimentos insuficientes em ações promissoras, apoio insuficiente para talentos locais – o que é uma loucura, porque há muitos músicos bons aqui, mas os promoters tendem a ir para os nomes maiores e estrangeiros, porque essa é uma opção mais segura. Isso estava fazendo com que os talentos locais fossem para outros lugares para desenvolver suas carreiras.

Mas vejo esperança nos últimos dois anos. Clubbers de todo o país começaram a procurar novos sons para descobrir seus gostos e preferências e assim forçar os promoters a expandirem seus bookings e lineups, mesmo que de forma lenta, isso está seguramente criando uma nova cena que antes de tudo aposta na qualidade e não apenas no nome “de peso” em si. Estou certo de que isso vai melhorar a partir daqui, já que há qualidade e a Espanha tem um potencial musical incrível. Nós, músicos espanhóis, apenas temos que continuar fazendo nosso trabalho para manter a cena evoluindo.

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Human, seu álbum assinado no formato de banda, está prestes a completar um ano. Qual o balanço que você faz deste trabalho até aqui? É possível dizer que nesta frente de atuação e criação você aflora seu lado mais revolucionário?

Um ano completo já, hein? Nós ainda não mostramos algumas coisas que vêm junto com o álbum, também estamos trabalhando em algumas músicas novas, então fiquem de olho! Eu não diria que é o lado mais revolucionário, é apenas um lado diferente que eu sempre tive, já que estou acostumado a estar em uma banda. Comecei meus esforços musicais em uma banda quando eu era adolescente, os membros da banda atual também faziam parte, então acabou sendo natural trazer esse formato de volta.

Qualquer músico está em constante evolução, sempre em busca de algo novo e interessante. É isso que foi para nós. Existem tantas possibilidades dentro da música eletrônica que você pode experimentar e com a banda, como um esforço coletivo, é possível explorar territórios além do conceito de clube, você pode viver novas aventuras sonoras que você não consegue como DJ.

Você é um artista que possui o privilégio de já ter sido remixado por grandes nomes da cena house/techno. Como é pra você ter sua música revisitada por outros produtores?

É sempre muito divertido e também muito interessante ver como outros músicos percebem sua música, como eles conseguem incorporar o som deles a ela, o que podem fazer com ela e como fazem isso. Eles entendem um lado técnico, às vezes também pode ser bastante inspirador.

Tom, harmonia e ritmo dizem muito sobre a emoção que a música pode causar no corpo e coração dos ouvintes, certo? Pra você, é mais importante fazer uma música que seja tecnicamente perfeita ou que toque a coração do maior número possível de pessoas?

Para ser sincero, um vem do outro e eu acho possível fazer ambos; para mim, é importante fazer as duas coisas. Quero dizer, um artista nunca lançará seu trabalho se não parecer completo. Tenho que estar 100% satisfeito para querer compartilhar com o mundo. Ao mesmo tempo, eu sempre disse que a música pode e deve ter uma mensagem, e essa é a sua beleza – a capacidade de tocar o coração das pessoas, ajudá-las a lidar com qualquer coisa. Então, para mim, ser “tecnicamente perfeito”, por padrão, implica atingir emocionalmente. A música verdadeira sempre vence, tento sempre escrever minhas músicas dessa forma.

Gigs, novidades, lançamentos: o que esperar do Henry Saiz para o restante de 2019?

Definitivamente um pouco de tudo: DJ sets animadores, assim como alguns shows com a banda muito legais, que mal esperamos para tocar. Muitas músicas novas, um lançamento da minha própria série de festas, Mirage… Tantos planos, muito trabalho em progresso, mal posso esperar para compartilhar tudo com vocês, fiquem ligados! 🙂

Para finalizar, uma pergunta pessoal: o que a música representa em sua vida?

Um espaço seguro. Um espaço em que você pode se perder dentro de si mesmo. Um espaço em que você pode ficar vazio e completo de uma só vez. Um espaço que ajuda a sentir sua solidão. Um espaço em que as pessoas que são diferentes em tudo se sentem unidas, compreendidas e não sozinhas.

A música conecta.

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Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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