É um tanto quanto impressionante, mas real: Johannes Heil deu seus primeiros passos no techno aos 14 anos de idade. Heiko Laux foi o responsável por reconhecer o espirito aventureiro deste jovem alemão e então o acolheu em suas asas para ser parte do label U-Turn. Apenas dois anos depois do lançamento do primeiro single pela marca capitaneada por Laux, Johannes estava criando seu próprio selo.

Com a JH-Records, ficou evidente que a velocidade em que os negócios se desenvolviam na carreira desse talentoso DJ e produtor alemão, não era uma mera coincidência. Apoiado por alguns dos nomes mais importantes do techno alemão, Heil obteve no techno a fonte ideal para suas experimentações. Batidas cruas e intensas eram categoricamente combinadas com paisagens sonoras hipnóticas e inovadoras. Paranoid Dancer, um de seus grandes sucesso, comprova nossa teoria.

Como DJ, Johannes evoluiu de forma signficativa após sua residência no Omen em Frankfurt. Lá Heil conheceu a lenda Sven Vath, com quem mais tarde colaboraria em Dein Schweiss. Inegavelmente, Heil possui um perfil artístico complexo: fora dos padrões convencionais, sua reflexão pessoal se manifesta em música, como um tipo de linguagem perfeita para que ele possa expressar sua visão sobre o mundo.

Visão essa que teremos a oportunidade de acompanhar de pertinho no Brasil durante os próximos dias, quando finalmente Johannes faz seu debut no Brasil em dois eventos da Tantsa: dia 24 em São Paulo e dia 27 no Kaballah Summer em Floripa. Antes disso, Chico Cornejo conversou com ele:

Alataj: Demorou para esta sua visita ao Brasil ocorrer e você já deve ter ouvido inúmeras histórias de colegas e amigos (especialmente se contarmos que quase todo o roster da Kanzleramt já esteve aqui), como se sente de finalmente estar a caminho?

Johannes Heil: A única coisa que sinto agora é a ansiedade pelo começo da viagem, a próxima provavelmente será a dor nos meus glúteos por ficar sentado num avião por tantas horas, daí posso me sentir grato por aterrissar, extasiado com a paisagem local, exausto, daí veremos…

Desde o início, você parece ter favorecido e dominado um formato que a dance music demorou bastante para aperfeiçoar e mesmo se adaptar: o álbum. Qual sua relação com esta forma específica de narrativa musical?

Escrever um álbum é apenas como desenhar numa tela muito maior comparada à que você tem em mãos quando trabalha em um single, há mais liberdade de iluminar uma certa vibe de diversas perspectivas. Eu gosto muito disso.

O seu mais recente, à primeira vista, parece bastante uniforme e monotemático (como é usual na sua abordagem na nomenclatura de obras), mas fica longe disso quando o ouvimos de fato. Qual o conceito ou princípio que conecta cada Gospel?

Não houve um conceito por trás, na verdade não houve um objetivo traçado ou esforço dedicado à criação de um álbum. O que aconteceu foi que uma enorme quantidade de trabalhos apareceram como membros da mesma família, o que as une é o amor pelo pai. Para entender a lógica por trás do fato de que eu escolhi nomear alguns discos com apenas um nome ou nenhum, você deve considerar que nomes e imagens jamais podem sequer chegar perto daquilo que alguém pode experimentar ou perceber enquanto ouve música. Eles, ao invés, tendem a criar a tendência de limitar o escopo total de possibilidades perceptivas. Então o que faço é dar ao ouvinte a maior liberdade possível.

Seu catálogo de lançamentos se espraia por uma variedade de alcunhas, mas isso parece ter cessado ultimamente – menos o trabalho sob o nome Cryptik. Houve algum motivo particular para essa mudança?

Não, ao menos que eu saiba!

Tocar ao vivo sempre foi uma constante em sua carreira e nos últimos anos se tornou uma forma de performance popular entre artistas, certamente em decorrência de novas tecnologias mais acessíveis e portáteis. Como você vê sua contribuição e seu lugar em meio a todas essas mudanças? Certamente seu set up mudou bastante no decorrer dos anos, mas você tem algum modo preferido de mostrar seu trabalho?

Como dizem, ainda estou no centro perfeito de um tornado, me sinto assim. Formas giram ao meu redor enquanto um cerne absolutamente intocado permanece ali. As ferramentas que uso para tocar a música se adaptam a minhas necessidades e o conjunto delas mudou tanto nos últimos vinte ano… mas faço o que tenho de fazer e sempre do jeito mais contemporâneo que puder.

Ademais, a cena alemã se transformou profundamente nesse período, Tremor se foi e o Berghain surgiu, o som mesmo mudou dramaticamente. Como foi para você se manter constantemente na dianteira da maior parte dessas transições? Por vezes chegou a ser assustador?

Houve uma época em que era praticamente impossível sobreviver num sentido financeiro fazendo o que sai de mim naturalmente. Foi ali que a onda do minimal e do tech house solaparam o status quo questionável de uma forma estupidificada de Techno que se costumava chamar Schranz. Daquele momento em diante que a maioria dos clubbers começou a crer que a narrativa do techno não era mais tão legal e que 125 BPMs era o padrão de andamento. Tudo tinha de ser um pouco dócil e agradável, eu me agarrei àquilo. Mas, olhando para trás, foi muito purificante e trouxe à tona uma energia renovada para um techno decente.

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E quanto ao estúdio e seu processo criativo, eles também sofreram mudanças? Você tem algum equipamento que tenha permanecido com você através dos anos?

Claro. Os primeiros discos foram feitos com um sample Ensoniq, uma pequenina mesa Samson, uma unidade de efeitos Boss baratinha e um computador Atari ST1040 como o sequenciador principal. A partir deste setup eu expandi um estúdio que estava prestes a se despedaçar. Trabalhei com consoles analógicos parrudos, consoles digitais, inteiramente dentro da caixa, o que fosse. Vendi parte, comprei outras coisas, mas uma grande parte dos meus instrumentos favoritos nunca me deixou, como a Roland SH101, por exemplo.

Agora nos referindo a lições. Claro que muitas foram aprendidas em duas décadas. Você gostaria de compartilhar aquelas que ache que irão ajudar a criançada que agora flerta com a ideia de entrar neste belo e selvagem mundo de fazer música eletrônica?

Faça o que ama e jamais se importe com o resto!

A música conecta as pessoas!