Alataj entrevista John Talabot

Repetindo o feito do ano passado, o Dekmantel retorna ao Brasil no segundo semestre para apresentar uma série de showcases em diferentes cidades do país. Em 2017 o foco esteve compartilhado com outros países da América do Sul e apenas Sampa e Rio receberam o festival holandês em seu formato showcase. Esse ano a história está sendo diferente com novas festas brasileiras na rota.

Ao todo, 5 cidades receberão o tour: São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, Porto Alegre e Itajaí – as últimas três citadas em caráter inédito. Nomes do calibre de John Talabot, Dekmantel Soundsystem, Bufiman e Matrixxman se juntam aos talentos locais e convidados especiais de cada região para uma experiência imersiva no conceito DKMTNL.

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Inegavelmente, um dos destaques do lineup anunciado é a presença do DJ e produtor espanhol John Talabot, que retorna ao Brasil após uma passagem absolutamente marcante na primeira edição do Dekmantel Festival em São Paulo. Na ocasião, John fez o último DJ set do Main Stage, justamente antes do live de Nicolas Jaar. Sua presença está confirmada junto a Gop Tun na Fabriketa em São Paulo e no Warung em Itajaí.

Para entender o quão diferenciado é o perfil artístico de John Talabot é necessário uma análise mais profunda em torno de sua carreira. Após uma série de lançamentos com o alter ego  d.a.r.y.l, ele lançou seus primeiros trabalhos sob atual alcunha em 2009 – Talabot é um nome oriundo de uma escola que ele frequentou durante a infância em Barcelona.

Em Janeiro de 2012. JT lançou FIN, seu álbum de estreia (e único até então) pela Permanent Vacation e com o release conquistou um absoluto sucesso na mídia especializada. Apesar de não ter outros full lenghts em sua biografia, Talabot lançou uma série de de singles e remixes que voltaram a captar a atenção da cena internacional, especialmente por conta de seus trabalhos ao lado da banda The XX e, novamente, junto a Permanent Vacation.

Paralelamente a sua carreira como DJ e produtor, John mantém acesa a chama de seu selo Hivern, oficialmente lançado em 2018. Nomes como Pional, Marvin & Guy, Margot e o próprio John Talabot são peças importantes nos releases da gravadora, que além de entregar releases consistes passeia pela Europa com eventos que ajudaram a estabelecer a marca como referência dentro do circuito europeu.

Em 2013 ele assinou um capítulo da tradicional série DJ-Kicks escolhendo faixas de nomes como Young Marco, Axel Boman, Pional, Moodymann, Motor City Drum Ensemble e outros. 3 anos mais tarde, em 2016, Riverola colaborou com a Chanel através de sua música Voices, que serviu como base para uma trilha da grife francesa.

Nos últimos anos, Talabot se manteve estabelecido como DJ de carreira internacional, com passagens por alguns dos clubs e festivais mais importantes do mundo. Desde 2017 ele mantém um projeto chamado Talaboman em parceria com Axel Boman, com quem já lançou um álbum completo. Este é apenas um dos projetos paralelos do espanhol, que também colabora com Mark Piñol em Quentim, com Pional em Lost Scripts e com outros membros da gravadora em Parle.

Mais recentemente, em janeiro deste ano, Talabot estreou seu próprio programa mensal na estação online NTS Radio. Music for Days Like This comprova a profundidade de sua pesquisa musical e nos deixa ainda mais animado para reencontrá-lo em Outubro. A nosso convite, John Talabot respondeu de forma categórica e muito inteligente algumas perguntas que compõe esse bate-papo tão desejado (e pouco comum) abaixo. Vale lembrar que nessa sexta ele passa por São Paulo e no sábado pela Praia Brava de Itajaí. Chega mais: 

Alataj: Olá, John! Tudo bem? Percebo que você é um DJ de perfil discreto e que se mantém longe desse atual glamour que a dance music proporciona. Pra você isso é uma questão de escolha ou você apenas deixa as coisas fluírem naturalmente?

Sou uma pessoa discreta que não trabalha com empresa de PR ou publicista algum. Procuro manter tudo entre meu grupo de amigos e mais tranquilo (mas não muito), tentando dirigir minhas energia ao fazer música, tocar e criar projetos paralelos distintos que me mantenham empolgado. É um bom equilíbrio que me dá liberdade e paz, coisas que valorizo muito. Não me sinto muito identificado com a música dançante de hoje e me sinto bastante envergonhado às vezes com essa emotividade fajuta traduzida em 140 caracteres de postagens do Twitter ou Facebook, então não ligo se glamour não seja parte do meu Instagram. Para falar a verdade, é ótimo para mim.

Seu set na primeira edição do Dekmantel Festival São Paulo foi uma das coisas mais impressionantes que eu já ouvi na minha vida, com toda certeza. Quais são suas melhores lembranças em torno dessa noite? O que você identificou de especial no público brasileiro durante essa passagem?

Eu me recordo que comecei durante o dia e terminei à noite. Fiquei bastante impressionado com a atmosfera daquele palco principal e lembro que Fatima Yamaha havia finalizado com seu grande sucesso, o que me fez notar que não tinha muito com que começar. Não lembro de ter tocado muito pesado, rápido ou algo assim. Só queria criar uma vibe e um clima. É o que gosto em DJ sets.

Desde 2009 você mantém uma consistência interessante de lançamentos como John Talabot. Como funciona seu workflow no estúdio? Você é do tipo que trabalha com ideias prontas ou deixa espaço aberto para as experimentações acontecerem?

Gosto de ambos, isso é parte do equilíbrio que almejo. Aprecio ter a liberdade de criar coisas diferentes, música para pista, para fora dela, novos projetos ou experimentos, o que seja… Meus interesses e gostos são diversos e amplos, não posso me furtar dessa situação. As pessoas te rotulam e colocam num cesto marcado e então sabem o que você faz para poderem ouvir aquilo que elas esperam que venha daquela caixinha à qual você foi assinalado. Mas se você carrega muitos marcadores, as pessoas se confundem começam a te rejeitar. Contudo, eu aprendi a curtir alguma rejeição e entender que não posso agradar a todo mundo. Isto também se aplica a DJ sets. Creio que não tenha me repetido ainda este ano, tudo continua sofrendo mutações, se transformando. Tudo pode mudar para melhor ou pior num set, isso depende de muitos aspectos, alguns deles não estão sob o controle do DJ, mas agora estou preparado para ludibriar as pessoas, o que também é recompensador e dá um certo alívio. Expectativas são nocivas e sinto que o público traz muito delas, o que acaba fechando portas para a experimentação ou a surpresa.

Talaboman é um sucesso absoluto de crítica. Como exatamente surgiu a oportunidade de trabalhar com Axel Boman? O que há de melhor e pior no processo criativo em dupla?

Talaboman tem sido um projeto muito legal que persiste, temos alguns EPs prontos para este ano e é algo que mantém a mim e Axel tão empolgados quanto felizes em compartilhar. Gosto de viajar e estar no estúdio com ele, esta é a melhor parte, mas tampouco consigo pensar em alguma ruim. Dividir um processo criativo é estimulante porque cada um de nós tem o seu próprio – me anino com a possibilidade de discutir e tomar decisões arriscadas e selvagens também. Não há nada de ruim acerca deste projeto.

Em Outubro você retorna ao Brasil para uma série de compromissos com o Dekmantel. As coisas junto ao time holandês parecem bem familiares, certo? O que você destacaria em torno disso?

Sinto-me confortável com o Dekmantel porque eu gosto da pegada deles com relação à música no interior de uma vasta gama de ideias e interesses. Como disse, surpresas são boas e acho que eles ainda tentam surpreender o público ao mesmo tempo em que se esforçam para manter sua base de colaboradores e amigos próxima e sempre interessante. Eles lançam coisas boas como selo, desenvolvem projetos artísticos e concertos, procuram criar sua própria ideia do que deve ser uma escalação, sendo justos, igualitários e profissionais. Eles são uma equipe de produção fera que sempre se pauta na qualidade para fazer tudo que faz.

Como você se relaciona com o background que cresceu em Barcelona? A própria cidade tem uma longa tradição de purveying boa música eletrônica. Isso era um fardo ou um trunfo para você como artista?

Esta pergunta me foi feita tantas vezes e ainda hoje não sei o que dizer. Não entendo o quê Barcelona possa ter me dado mas acho que isso me inspira pelo fato de que ainda vivo lá e isso já é algo estimulante, por bem ou por mal. No que se refere à música, não creio que tenhamos uma tradição tão interessante assim de música eletrônica barceloneta. Temos artistas muito interessantes, bandas legais, produtores, mas a cena nunca foi forte ou unida. Sempre foi algo de distintas pessoa com uma abordagem legal e respeito pelos outros. Sinto que ela ainda procura sua personalidade musical na eletrônica. Porém, há uma carência de espaços criativos para a juventude, clubs, noites, etc. A cidade se esqueceu de que a música eletrônica e a dança são parte da rede cultural de uma metrópole e uma expressão artística também. Isso nunca deve ser esquecido.

Quais são suas principais referências fora da música eletrônica? Em algum momento a música brasileira ou latina já te influenciou?

Quando era bem jovem, comecei a trabalhar para uma companhia que distribuía alguns catálogos de gravadoras na Espanha. Assim que cheguei lá eles haviam começado a trabalhar com a Luaka Bop [nota do editor: selo de David Byrne que privilegia obscuridades exóticas de todo mundo] como parte de uma rede maior chamada Cooperative. Em algum momento eles começaram a mandar para nós todas essas reprensagens de discos de Tom Zé e Os Mutantes pelos quais me apaixonei. Esse é o tipo de música brasileira pelo qual sempre estive mais interessado.

Sabemos da sua relação especial com a Permanent Vacation. De que forma a gravadora e staff contribuíram para o seu amadurecimento como DJ?

Minha maturação como DJ não teve muito a ver coma Permanent Vacation, talvez minha exposição como artista, já que foi o selo que lançou meu álbum. Ainda assim, eles não tiveram muita interação com meu gosto e modo de tocar, os quais adquiri fazendo sets de warm up para inúmeros artistas em clubs de Barcelona.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

Em certo momento ela representou minha paixão, daí se tornou meu trabalho para então se tornar uma relação de amor e ódio já que comecei a relacioná-la a muitas viagens e ficar exausto de tanto tocar em finais de semana. Ademais, eu sou uma pessoa que leva tocar muito a sério e, em algum ponto, se tornou sério demais. Mas agora foi transformada numa relação mais natural, percebendo a música como um hobby divertido que me permite viajar e curtir tocando música. Também, assim que conseguir finalizar meu novo álbum e me concentrar em meu show, vou parar de tocar por alguns anos para me dedicar a esse projeto que também é muito bom para mim. As coisas continuam mudando, se desenvolvendo e eu gosto dessa flutuação, porque senão eu me sinto preso numa lugar sem saída.

A MÚSICA CONECTA.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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