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O brasileiro Lucas Freire leva o seu techno veloz ...

O brasileiro Lucas Freire leva o seu techno veloz pelo mundo e volta para sua maior tour na América do Sul cheio de novidades

Por: Gabriela Loschi

Ele foi residente dos principais clubs de São Paulo nos anos 2000, como A Loka e Lov.e. Levava as pistas paulistanas ao fervor máximo com seu techno cheio de texturas duras, retas e BPMs acelerados. Mas se, naquela época, ele já possuía uma impressionante técnica de mixagem – muito elogiada por artistas e público – e sua energia em cima do palco incendiava o dance floor, foram seus dotes empresariais que materializaram sua paixão pela batida 4×4 em espaços físicos: Fundou o club Play em Campinas e, posteriormente, o Kraft, mais importante club de cultura underground do interior de São Paulo, que hoje deu espaço ao Club 88 (também em Campinas), além de fundar uma das festas mais icônicas daquele momento, a Techcardia. Pode-se dizer que ele esteve diretamente ligado à expansão da cultura eletrônica pelo Brasil e que, graças aos seus esforços, Campinas abraçou o techno tão intensamente.

Há quase uma década Lucas Freire se mudou para Barcelona, a fim de se concentrar mais em seu lado artístico e musical. Sua discotecagem é garantida em festivais e eventos essenciais como Awakenings, Nature One, Tresor, Fabric e Monegros Desert Festival. Administra o Devotion Records diretamente da Espanha e lança artistas do calibre de Spartaque, Drumcomplex & Roel Salemink, Spiros Kaloumenos, Ben Long.

Sobre Brasil, cena mundial, as vertentes do techno, a procura por artistas brasileiros para seu label e muita música, conversamos com este artista que chega aqui para sua maior tour já realizada na América do Sul – possível graças ao crescimento do techno na região -, iniciando na pista subterrânea da Vault hoje, em São Paulo e passando por Campinas, Curitiba, Rio de Janeiro e Colômbia.

1 – Oi Lucas! Você é um dos grandes responsáveis por trazer o techno ao interior de São Paulo, fundando clubs e festas importantes na década passada. Quais os principais motivos que o levaram a deixar o Brasil e se mudar para Barcelona?

Vários fatores influenciaram essa minha decisão. Um deles foi o fato de eu ter muita vontade de estudar engenharia de áudio. Durante algumas tours por lá, fui conversando com produtores e me interessando cada vez mais, sentindo a necessidade de ampliar meus conhecimentos nessa área. Outro fator importante foi que, desde 2004, quando fiz minha primeira tour europeia, o volume de trabalho na Europa não parou de crescer. Tanto que partir para o mercado europeu foi natural. Outro fator importante foi a cidade que escolhi. Barcelona é incrível, com um excelente aeroporto internacional, me apaixonei de forma muito intensa pela cidade. Além disso tudo, nesse período encerrei um ciclo de trabalho importante com o fechamento do club Kraft em Campinas. Deixei minha parte da empresa a um amigo que felizmente segue trabalhando e ajudando a expandir e preservar o que começamos a construir lá atrás. Fiz as malas e decidi mudar de ares para poder me concentrar mais no meu lado artístico e musical!

2 – Você mudou pra Barcelona há praticamente uma década. Quando você retorna ao Brasil hoje em dia, o que você sente de diferente na cena, de quando você começou, lá atrás? Na sua opinião, em que precisamos melhorar e aonde estamos acertando?

Acho natural e importante existirem diferenças. A cena eletrônica se profissionalizou e cresceu muito no Brasil, que hoje tem um grande número de clubs, festivais e festas. É muito importante que o setor siga crescendo e se profissionalizando da maneira que vem acontecendo! A cena interna se fortaleceu, com uma grande quantidade de artistas nacionais fortes e alguns começando a ter uma ótima projeção internacional. O que eu sinto falta por aqui é um pouco mais de variedade dentro desse grande mercado. Porém, de uns anos pra cá, tenho visto esse aspecto melhorar. Existem novas iniciativas com propostas “diferentes” ao público. Tem gente trabalhando muito bem no Brasil e o legal disso tudo é que o publico vem crescendo e se interessando cada vez mais pelo techno e por toda a variedade de BPMs, texturas e sonoridades que o estilo oferece. Esse crescimento é o começo ou recomeço de uma etapa importante que o techno terá no pais!!

3 – Em Barcelona, como foi a sua caminhada? Conte um pouco pra gente sobre os seus erros, acertos, conquistas e dificuldades nessa trajetória de se estabelecer em um mercado internacional.

Quando eu me mudei pra Europa, o techno vivia um momento complicado. O estilo tinha perdido muita força e mercado. O que chamamos de techno mais normal não chegou a desaparecer, mas reduziu de maneira drástica. As alternativas nesse período foram ou baixar BPMs e a intensidade e ir pro mínimal, que nessa época vivia seus anos dourados, mas que sinceramente nunca foi um estilo que me agradou, ou subir BPMs e intensidade e ir pro hard techno, que é algo que sempre gostei. Naturalmente eu escolhi ir para as vertentes mais duras e rápidas. Tive a sorte que nesse período que o hard techno estava muito bem. Havia uma grande variedade de bons produtores, DJs e muitos clubs e festivais apostavam no estilo. Através de um trabalho incansável e constante, que abrangia diversos aspectos (produtor, DJ, dono de selo) fui conseguindo me destacar dentro dessa cena até conseguir ser um dos principais artistas do gênero em nível mundial. De uns anos pra cá, e com o techno voltando a ganhar força, eu senti a necessidade de ter mais contato e estar mais ativo dentro do estilo, então decidi criar um a.k.a. e um selo dedicados exclusivamente ao estilo.

Uma das maiores dificuldades que tenho hoje em dia é conseguir conciliar e realizar um trabalho de alto nível com todos esses projetos: Manter a posição que conquistei com tanto esforço dentro do hard techno, seguir o alto nível do Audiocode, selo especializado em hard techno, conquistar meu espaço dentro do techno, e mostrar um trabalho sério com o Devotion Records, selo especializado em techno. É uma nova etapa que pra mim não está sendo muito fácil, mas que está me motivando e desafiando muito. To super feliz com isso tudo!

4 – Há quanto tempo você começou a produzir? Tem se divertido no estúdio, ou prefere discotecar?

Eu produzo há uns 15 anos e claro que me divirto com o trabalho de estúdio! Sempre estou aprendendo coisas novas e descobrindo novos desafios, e isso é muito legal. Porém, eu não posso negar que me considero muito melhor DJ do que produtor. E como artista também sinto que consigo me definir e me completar muito mais discotecando do que produzindo! São sentimentos diferentes para momentos diferentes e sinceramente eu acho que no meu caso, ambas as coisas são muito importantes, pra que eu me sinta mais completo e realizado artisticamente.

5 – Você fundou um label há pouco tempo e já tem lançado importantes nomes. Como é administrar um selo de techno da Espanha, quais estão sendo os maiores aprendizados e dificuldades?

Na verdade nossa ideia – e digo nossa porque o Devotion Records é meu em parceria com a também DJane brasileira Dot Chandler a.k.a. Fernanda Martins, é não focar em um segmento especifico do techno. Sem dúvidas temos uma sonoridade que caracteriza o selo, mas sempre seremos muito ecléticos e abertos às diversas possibilidades que o techno proporciona. Administrar um selo não é tarefa muito fácil. Conseguir música de qualidade constantemente é um grande desafio. Se destacar dentro de uma cena tão potente e variada como é a cena Techno, requer um nível de trabalho e dedicação muito elevados. São vários aspectos que, somados, fazem com que administrar um selo seja um trabalho bem complexo. Estar na Espanha nos ajuda a estar bem atentos e informados sobre o que vem acontecendo dentro do estilo. A Espanha tem uma cena techno potente e ativa. Todo mundo toca ali no quintal de casa, sem falar nos inúmeros artistas que escolheram o pais para se afincar e hoje em dia moram lá.

6 – Você sente que o mercado de um modo geral está aceitando mais o techno e essas batidas bem retas e diretas? Como você vê a movimentação global do movimento o qual você está inserido?

Na minha opinião o techno nunca foi tão grande a nível mundial. Essa aceitação de batidas mais retas que você cita na pergunta, na minha opinião, nada mais é do que um indicativo do quão grande e diversificado é o estilo hoje em dia. O techno cresceu tanto que hoje alberga mini cenas dentro da sua cena. Dentro do global do estilo existem mercados potentíssimos e mais específicos. Tem o pessoal do techno mais introspectivo e melódico. Tem o pessoal do techno mais groove. Tem o pessoal do techno mais repetitivo e obscuro. Existe gente que prefere não se especializar tanto e explorar a variedade do estilo. Sejam promotores que trabalham com todas essas vertentes, artistas que gostam de misturar de tudo no seus sets e produzir sem barreiras, ou selos que abertos e variados. E existe também quem preferiu se especializar e que em certos casos até virou referência em determinado estilo ou vertente. Eu vejo ambas as coisas muito importantes pro techno, porque sinto que o que faz a cena permanecer saudável é exatamente essa variedade e diversidade!

7 -Você está lançando ou procurando artistas brasileiros para lançar no Devotion, certo? Como está sendo essa busca, o que você está achando das produções nacionais?

Estou super feliz em ver a quantidade de gente por aqui produzindo e mais feliz ainda em ver como os produtores brasileiros estão alcançando um nível altíssimo de trabalho. No Devotion Records, além de mim e da Dot Chandler, ja assinamos com Drunky Daniels, Dante Pippi, Black Roof, Victor Enzo e Against the time. No nosso selo, não nos importamos se o artista é um super top ou se ainda não tem nenhum release. Garimpamos boa música e ficamos tão felizes em assinar um produtor já consagrado quanto em lançar o primeiro EP de alguém. Sinceramente espero que seja apenas o inicio de muitos trabalhos com produtores brasileiros!

8 – O que você gosta de ouvir quando não está trabalhando?

Tudo tem seu momento. Tem muita musica boa por ai. Jazz, Rock, Clássica, Hip Hop, Eletrônica… na verdade sou super eclético. Só não tenho muita paciência e nem ouvido pra musica muito comercial.

9 – E, por fim, deixe suas principais dicas para os party-people atrás de ouvir um bom techno em Barcelona. Obrigada, Lucas.

Barcelona tem muita oferta do bom techno… Desde pequenos a super clubs e tudo isso somado a potentes festivais. A cidade não para e cada semana tem um monte de coisa acontecendo. O ideal é estar atento à programação da cidade e escolher a festa ou artista que te anime mais.


Equipe de reação do portal Alataj, focada em levar conteúdo cultural ao público antenado na música eletrônica.

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