Alataj entrevista Pezzner

A Get Physical Music, uma das gravadoras mais tradicionais do mercado Europeu, lançou recentemente mais um volume de sua compilação Body Language, que chega à edição de número 22. A coletânea estreou em 2005 e desde então já recebeu trabalhos com a curadoria de nomes como M.A.N.D.Y., DJ Hell, Modeselektor, DJ T. e Dixon; para estar edição, o selo convocou o americano Pezzner, artista que já possui um relacionamento de alguns anos com a GPM.

Pezzner é dono de um extenso catálogo de releases, lançou em 2010 seu primeiro álbum — que recebeu a assinatura da Freerange — e em seguida ganhou espaço em outras labels de renome. Seu perfil como DJ é muito versátil, é conhecedor da cena musical brasileira e admitiu na entrevista que gosta muito dos trabalhos de Phillipi & Rodrigo [Fatnotronic] e do Xaxim. Tivemos um bate-papo bem descontraído com ele que você confere a seguir:

Alataj: Olá, David! Tudo bem? Obrigado por nos atender. Você está assinando o 22º volume da compilação Body Language pela Get Physical, mas seu relacionamento com a gravadora já é antigo, certo? Como vocês se conectaram inicialmente?

Pezzner: Olá! Obrigado por me receber. É incrível estar em tão boa companhia na compilação Body Language 22, principalmente por ser um grande fã da gravadora. Comecei a enviar demos do meu trabalho entre 2013 e 2014. Naquela época, passava muito tempo trocando ideia com o label manager e conspirando sobre lançamentos futuros. Meu primeiro lançamento na Get Physical foi Barcelona Gets Physical, que incluiu minhas primeiras faixas lançadas na gravadora.

Receber um convite como este, além de uma honra, também deve ser uma grande responsabilidade. Como foi o trabalho de produção do disco? Quais os principais desafios ao longo do processo?

É uma grande honra! As compilações Body Language foram remixadas por alguns dos meus artistas preferidos, Dixon, DJ T, Modeselektor, DJ Hell e muitos outros. Em Body Language 22, a gravadora quis focar em faixas exclusivas. Portanto, a tarefa acabou sendo uma parceria, com a curadoria de uma coletânea original e coerente com o processo de A&R. 

Precisei chegar aos artistas para as contribuições, coletar o máximo de material possível e organizar tudo para criar um mix coerente. Outro desafio foi o mix em si, diferente dos mixes de DJ, esse não foi gravado ao vivo. Havia algumas músicas que eu escrevi e produzi diretamente no arquivo do projeto.

Body Language possui uma diversidade bem grande de artistas e estilos, trazer diferentes atmosferas para um mesmo trabalho era algo que você tinha em mente? 

Definitivamente. Se alguém já me viu tocar, sabe que não é meu estilo manter apenas um gênero no set. Não sou um DJ de Techno, mas eu vou tocar Techno. Não sou um DJ de Afro House, mas vou chegar lá. Fico feliz por tocar Vocal House, Electro e Dance Music que você não consegue categorizar. Meus sets geralmente trazem algo inesperado para a pista de dança ao lado de House e Techno que me parecem apropriados para o momento. Gosto de surpresas — aquelas transições que você não esperava, mas funcionam super bem.

Falando um pouco sobre sua carreira profissional… seus álbuns pela Freerange e Systematic Recordings foram trabalhos super importantes na sua evolução, certo? Pessoalmente e profissionalmente, o que representa ter seu trabalho reconhecido por gravadoras tão importantes?

Muito importante. Meus primeiros lançamentos foram na Freerange, lançar na gravadora não era apenas licenciar minhas músicas para eles. Naquela época, eu ia e vinha com Jimpster pedindo conselhos e sugestões artísticas, além de receber dicas de como direcionar meu som artisticamente e sonoramente para ter o som que eles queriam lançar. 

Foi um grande aprendizado para mim. Claro que no fim esses lançamentos foram minha introdução a cena da Dance Music. Freerange expôs meu primeiro lançamento a Laurent Garnier, que colocou uma das faixas no seu mix no Resident Advisor, e assim me expôs a centenas de outros DJs. Foi decisivo.

Li sua biografia e achei bastante divertida, mas notei que sua família estava bastante presente. Os laços de amor e carinho com sua mulher e sua filha te ajudam ou te inspiram de  alguma forma na hora de criar novas músicas?

Sempre. Minha esposa e filha são minhas maiores fãs, mas além disso, são minhas âncoras, minhas constantes. Sou uma pessoa bastante distraída e sempre tive dificuldade em ficar trabalhando. Tenho um grande problema em ficar hiper focado no trabalho e esquecer outras coisas importantes da vida. Minha esposa e filha me mantêm na linha e sempre lembram que há muito mais acontecendo no mundo do que na minha cabeça. Com elas eu fico em dia e meus dias são divididos entre a vida profissional, isso me mantém sã.

Eu acho que é tão importante quanto pegar um forte fluxo artístico no dia a dia. Como artista, é importante se afastar e absorver o ambiente. Absorver o amor, absorver a comida, absorver a arte, conseguir sobreviver e converter essas experiências em inspiração que eu posso colocar no meu trabalho.

No passado você já remixou faixas de Josh Wink e Groove Armada, mas constantemente assume a posição de remixer para outros artistas. É um tipo de trabalho que você  gosta e se sente confortável fazendo? Na sua visão, como um remix precisa ser produzido? 

Sim, remixar é interessante. Não faço com frequência, pois nesse momento é mais importante focar na minha própria arte. Porém, gosto muito de remixar faixas. Já fiz algumas centenas. O que acho mais fascinante sobre produzir remixes é quando recebo o stems de um produtor, é como uma pequena janela na mente artística dele.

Acho que é bastante revelador quando você abre a pasta de stems e vê como eles colocaram os arquivos para você. Pode ser um grande aprendizado. Às vezes pode ser um desafio. Você pode abri-la e perceber que tudo foi produzido por loops da biblioteca de sons, isso pode ser um pouco decepcionante. Definitivamente prefiro trabalhar com músicas que têm mais originalidade. Aquelas que são ricas em solos, ganchos, nuances e gravações de microfone.

Vejo os remixes como uma forma de recriar a história que foi contada pelo artista original, criando uma nova reviravolta que seja o mais diferente possível, mas ainda usando as partes principais. É como fazer uma transformação em uma pessoa e vê-la com roupas diferentes e um novo corte de cabelo.

Você possui algum contato com a cena musical do Brasil? Conhece ou acompanha algum artista da nossa cultura, mesmo que além da música eletrônica? Tocar por aqui está entre seus objetivos enquanto artista?

Há aproximadamente 15 anos, eu fui para o Rio e toquei em uma grande festa no Pão de Açúcar. Foi uma grande experiência. Para alguém que tira diretamente a influência dos ritmos brasileiros, você pensou que eu saberia mais sobre a cultura da música brasileira, porém, estranhamente, não fui exposto a ela. Gosto muito de Phillipi & Rodrigo e Xaxim. Sei que eles são do Brasil e gosto de suas músicas, mas sinto que o que me atrai mais para o Brasil são os clássicos de Seu Jorge, Gilberto Gil e Chico Buarque. 

+++ Who? Xaxim

+++ Review: Chico Buarque – Construção

Teve um edit que eu fiz de uma faixa que Ennio Morricone produziu com Chico Buarque para o álbum Per un pugno di samba, que eu adoro, ou apenas me coloque em frente a qualquer batucada, se quiser me ver desmaiado.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música é minha saída criativa e meu centro de equilíbrio para tudo. Projetei minha vida para girar em torno da música — a criação dela, e também gira em torno de mim. É difícil explicar, mas minha vida seria totalmente diferente sem a existência dela. Dediquei uma quantidade infinita de tempo para conseguir aprender e entender música do meu jeito. É legal ter um propósito.

A música conecta.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

RELATED POST

INSTAGRAM
SIGA-NOS