Se pudéssemos resumir em apenas uma palavra o fim de semana passado, intensidade seria a escolhida. Passamos pouco mais de 24 horas em São Paulo e vivemos de corpo e alma a cidade paulista. O foco principal da trip foi a primeira edição do festival holandês DGTL, mas para entender por completa essa experiência, é necessário falar um pouquinho além do evento.

Durante o dia, dedicamos boa parte do nosso tempo para conhecer mais a fundo o centro da maior cidade brasileira. O contraste de cores e cenários provocado pelas galerias, prédios antigos, pessoas das mais diversas identidades e muito comércio é, ao mesmo tempo, chocante e encantador. Ao lado do nosso amigo Eduardo Ramos, partimos para a Galeria Boulevard, famosa por ser a casa de algumas das melhores lojas de discos do Brasil. Encontramos algumas preciosidades na Chico e Zico e nos divertimos com as histórias de Celso, na Celsom Discos. Ao fim da tarde, curtimos um belo por do sol na Vila Mariana antes de voltar para o hotel.

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Em nosso QG tiramos um rápido cochilo, comemos uma tradicional pizza paulistana e rumamos ao Jardim Santa Cecília, em Barueri. A distância nos impressionou, mas claramente não foi um empecilho na parte de mobilidade do evento, já que táxis e Ubers pareciam bem informados quanto ao festival. Com o passar dos quilômetros, a selva de pedra vai perdendo força com o chegar da região periférica e quando você menos espera – BOOM – uma fábrica abandonada e bastante iluminada mostra suas caras. O acesso pelo guichê de imprensa foi bastante rápido, assim como pelo portal normal dos ingressos, onde não havia filas e tudo fluía normalmente.

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Dentro do evento, as instalações de arte formaram o nosso primeiro momento de impacto visual. Em uma área entre os três palcos, uma bela composição de painéis de LED arquitetada por Multi Randoph era capaz de causar uma viagem quase que sensorial. Para entender exatamente o que acontecia ali, só chegando bem partinho. O túnel mágico que dava acesso ao palco Generator foi, de fato, um espaço para ótimos e inesquecíveis cliques. Sua complexa simplicidade formava uma espécie de retrato do som desenvolvido no stage ao qual ele deva acesso.

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Por lá, pouco ficamos, mas podemos acompanhar um surpreendente e chocante novo live de Zopelar, que se mostra maduro e confiante às vésperas de uma tour na Europa. Carl Craig abusando dos hits e mexendo bastante com a pista. Derrick May introduzindo com chutes precisos a atmosfera original de Detroit – que muito condiz com a proposta do Festival. E por fim, Vril e Speedy J pisando fundo no acelerador e tornando a experiência sonora em algo físico.

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No Modular, algumas das atrações mais esperadas pelo público estavam presentes. Após sets de Carol Mattos e Eli Iwasa, Patrice Baumel surpreendeu tocando, na maior parte de seu set, uma linha diferente das recentes produções e remixes que o tem consagrado. Menos melódico e mais reto, ele captou bem a proposta do festival e nos instantes finais, categoricamente baixou a guarda para a entrada de Apparat. Sascha Ring é uma das três partes do trio Moderat e em São Paulo entregou um dos sets mais surpreendentes. Com muita coragem e bagagem, deu uma bela amostra de seu repertório e tocou boas faixas do house ao techno, passando pelo breakbeat em momentos de destaque, quase sempre variando intensidade.

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Recondite e Mind Against criaram boas apresentações dentro da linha que os credencia como um dos melhores artistas em ação. Boa intensidade, pressão de pista e ótimo repertório podem ser apontados como características habituais desses projetos, mas sempre é válido lembrar e dar bons créditos a eles, especialmente para o live alemão da Innervisions. Por falar na gravadora capitaneada por Dixon, a tarefa de fechar a pista caiu no colo de dois artistas do selo. O alemão Kristian Beyer representou o duo Âme com seu DJ set híbrido e repleto de influências que parecem vir do futuro. Já o brasileiro Davis jogou em casa e com a autoridade de um mestre de obras que conhece cada centímetro de sua construção, fez o que precisa ser feito: tornou o amanhecer do palco Modular algo inesquecível.

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Na parte externa, um palco que mais parecia ser outra festa quando comparado aos dois stages posicionados na parte coberta. O Frequency começou com o gopper Gui Scott, evoluiu até o live super elogiado da banda baulistana Teto Preto e caiu nas graças de Ney Faustini, que com classe de sobra fez o que quis em seu case de house para deixar o público de boca aberta antes da entrada de Lakuti. Dali em diante um verdadeiro atropelo. A britânica preparou o terreno para o que foi na nossa visão, o set do festival. Tama Sumo foi magistral em termos de construção, repertório e mixagem. Domínimo de pista na essência da expressão.

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Márcio Vermelho seguiu o baile com a tranquilidade de quem – também – joga em casa. Ele mostrou uma vez mais por quê é considerado um dos melhores e mais versáteis DJs do Brasil e soube captar bem a atmosfera deixada por Sumo, sem desrespeitar o que viria a seguir. Ryan Elliott é residente do Beghain e com a missão de fechar o festival certamente sentou a mão para não correr riscos, certo? Não. Não acompanhamos o set do DJ americano erradicado em Berlim, mas por inúmeros vídeos e relatos de amigos presentes, não temos medo de dizer que Ryan mostrou o que é ser um DJ de verdade. Ele se juntou a outros nomes do evento que tiveram uma ótima leitura de pista e em um palco aberto, com a luz do dia ganhando o dancefloor e muito techno nos outros dois stages, tocou uma linha de som mais leve, classuda e houseada. Teve techno também, mas os grandes momentos que reverberaram no pós evento eram de faixas excelentes de house. Isso apenas comprova sua autoridade no assunto discotecagem.

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No que diz respeito a estrutura, os organizadores da edição brasileira souberam muito bem captar a áurea do festival. O grande destaque dos palcos era a mistura crua de tecnologia e traços originais da locação, sempre com soundsystem redondo e bem syncado com a iluminação. Bares e banheiros não suportaram 100% a carga de público em alguns momentos, mas não houve nada próximo do caos em instangte algum. Uma edição consistente de um festival que demonstra potencial para vir e cravar residência aqui no Brasil. Ano que vem tem mais e nós já estamos muito felizes por isso.

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A música conecta as pessoas!