Impressiona como alguns artistas são capazes de falar e realmente criar corpo através da música. O carioca Dani Souto é um raro exemplo disso. Conhecido por sua pesquisa musical afiada e pelo seu jeitão boa praça de ser, Dani se tornou um ícone entre os DJs quando o assunto é repertório. Não satisfeito com isso, ele também posicionou-se como referência dentro de um estilo diferente, rico em referências e interessantíssimo de se ouvir e dançar.

Essa abordagem musical fica mais clara ao analisarmos seus sets publicados (sempre muito versáteis) e a programação da Discoteca Odara, projeto que Souto coordena ao lado de um time de amigos em Curitiba. Nomes como Piramida, Moscoman, Fantastic Man, Thomas Von Party e Palms Trax já passaram pela pista da festa que cresce cada vez mais na capital paranaense.

Com experiência de sobra para compartilhar conhecimentos e vivências das mais interessantes por várias horas em uma conversa numa mesa de bar, Dani faz com que qualquer entrevista via e-mail se torne dinâmica e convidativa para um segundo papo – dessa vez quem sabe em um boteco qualquer realmente. Enquanto essa oportunidade não chega, confira o bate-papo que tivemos com o DJ e agitador cultural:

1 – Olá, Dani! Tudo bem? Obrigado por nos atender. Sua carreira é bastante conectada com a cultura do vinil e por conta disso nós queremos saber: como você observa e avalia essa “repopularização” do vinil a nível internacional nos últimos anos?

Alo Povo, eu que agradeço radiante pelo convite! Ah… é sempre um barato você ver a “repopularização” de algo que esta diretamente ligado a sua memória afetiva e aos anos principais de sua vida. As gerações novas tendo contato com isso, pessoas como eu tendo a oportunidade de encontrar aquele disco especial, que você provavelmente tenha se desfeito ou a oportunidade de você se deparar com reprensagens ótimas de discos que você amava, teve no passado, mas com uma prensagem péssima, como aconteceu umas semanas atras com uma musica da Shavonne, chamada So Tell Me Tell Me, single que ouvia e dançava, lá em meados dos anos 80 nos bailes e discotecas da zona norte do Rio e que recebeu um repress excelente da maravilhosa Emotional. Uma coisa que não foi legal que aconteceu em paralelo a essa repopularizaçao, foi os preços inflacionados, de resto, é só lazer!

2 – Qual foi seu primeiro disco? O que mais te encanta na discotecagem com vinil?

Os primeiro de todos foi Arca de Noé de Vinicius de Moraes e o compacto de Voa Canarinho do Junior. Tiveram, é claro, outros mais relevantes logo na sequência, mas estes foram os primeiros. 

Falando de discotecagem, o que mais me encanta é a mecânica, a plástica, o ato de tocar com disco. No vinil você sente, coloca a mão ali saca? É desafiador, é a gênese, é seminal saber discotecar com discos de fato, é o standard. Porém, não acho que seja o finalidade da discotecagem… é na minha opinião um meio. Passar a sua mensagem, original e com uma boa seleção é o que realmente vai te fazer especial. 

Para quem, honestamente opta pelo disco, será sempre algo que transcende a discotecagem. É um relacionamento pessoal e mágico que você desenvolve com a mídia: capa, encarte, tato, mecânica. Da minha infância e adolescência até hoje, ir na loja, caçar, descobrir ou achar algo que te fisga, a ansiedade em chegar logo em casa, e por fim, o ritual de escutar uma obra de cabo a rabo, ler cada letrinha minúscula… porra!! Até aquele código de prensagem no próprio vinil. Tudo isso te impulsiona. Acredito que pra muitos venha a acontecer dessa forma. 

3 – A música é, frequentemente, atrelada a movimentos sociais e políticos. Como você enxerga essa situação? Na sua visão, artistas podem/devem se posicionar politicamente através de seus projetos?

Pra mim a música, enquanto arte, sempre refletiu posicionamento e sempre refletiu o espirito do tempo contido no nosso processo histórico. Música enquanto arte, sempre carregara esse brilho. Sou admirador incondicional de todo posicionamento, honesto, visceral e que venha das entranhas, de dentro, reagindo a realidade em que vivemos. Infelizmente, na minha opinião, a música é tratada como pura e simples mercadoria, atende a algo que não é visceral, o que tira dela o status de arte. Tenta-se cada vez mais desatrelar o posicionamento da arte, porém eu acho que cada vez mais, principalmente no momento sócio politico que vivemos em toda a humanidade, é necessário a musica posicionada sócio-politicamente.

4 – Quais são as principais diferenças que você sente desde a época que começou a discotecar, até os tempos atuais?

Com certeza os avanços tecnológicos, equipamentos, acesso a informação (absurdamente mais fácil) são as diferenças que ficam mais na cara. Além da profissionalização, que hoje realmente você pode viver para fazer isso, o que antigamente não passava de uma paixão. Outras diferenças aparecem cada vez mais ao longo do tempo, como ficar acordado até tarde (ou não dormir) e carregar peso de discos – o que me fez cada vez mais optar por formatos mais “leves”ou carregar apenas o necessário. Enfim, na quarta década de vida essas coisas começam a não ser tão fáceis como eram 20 anos atrás. [risos]  

5 – Você é natural do Rio, mora em Curitiba e possui uma relação forte com a cena de São Paulo. Como cada um desses polos moldou a sua personalidade enquanto DJ? Outras cidades e/ou regiões tiveram impacto semelhante nesse processo?

Nascer suburbano no Rio de Janeiro, no fim da década de 70 e ter vivido os anos 80 com tudo foi seminal na minha identidade. O Rio nos anos 80 nunca foi muito segmentado para um adolescente do “túnel rebouças pra lá”. Eu frequentava desde bailes do Boêmios do Irajá, Discoteca do Clube Municipal, Tijuca, América e Mackenzie, até show de punk e heavy metal no Caverna. Mais na frente apareceu o tal de Dr Smith, aí fudeu! Você estudava em escola pública, andava de skate querendo ser o Lúcio Flávio, surfava querendo ser o Dada Figueiredo, queria ser temido que nem aquele tal de Roles Gracie que tu ouvia falar lá da zona sul, era cabeludo com aquela camiseta do Dead Kennedys que frequentava o baile dos malandros de cabelo molinha e batidão de São Jorge. Era tudo junto! Tocava instrumento, cantava, escrevia letra e música, gostava de colocar os sons pra rapaziada nas festas também. Como tinha bastante disco e sacava bastante, via aquelas equipes de som e achava o máximo. Até que no começo dos anos 90 fui na Dr. Smith com meus irmãos mais velhos e pela primeira vez tive contato com a cultura do DJ, até então pra mim o papo era equipe de som. Agora eu tava lá e nego falando: Porram esse ai é o Felipe Venâncio! Geral ia lá s[o pra ver o house que o cara tocava. Aí descobri que tinha um DJ tocando no banheiro fui la e pimba! O malandro que tocava no banheiro era o Mauricio Lopes! Então cresci e amadureci pra musica nesse sururu aí. Sempre mantive minha presença apaixonada e ativa no Rio ao longo dos anos e no ultimo ano venho me dedicando novamente a cidade, a convite do meu grande amigo Doe Jorge, na curadoria artística do movimento de rua chamado O/NDA, algo que eu visto muito a camisa e acredito bastante.

Anos depois, eu já era produtor, DJ e já tinha o Glocal (meu projeto antigo), lançando musica fora do país. Por conta da demanda e da vontade de me jogar no acaso, me mudei pra São Paulo. Em São Paulo, o grande ouro que vivi por la, é de ter sido de cara apresentado a cena mais undergrond, gay e pioneira da cidade, o que me fez ter aulas valorosas sobre como a coisa aconteceu de fato por lã e pela mão dos próprios pioneiros. Sempre transitei por todos os mundos, sem preconceito, respeitando o diferente, de maneira solidaria e universal. Nos últimos 3 anos trabalhei na secretaria de serviços, da gestão do ex prefeito Haddad e aprendi muito a cerca de uma nova relação da população com a cidade e cultura com espaço publico. Enfim, foi uma boa bagagem. 

Agora há 10 meses em Curitiba, tá sendo legal me relacionar com mais uma nova realidade e outras geracões. Curitiba tem uma vocação bacana para as artes e bastante coisa acontecendo. Criei meu selo/festa chamado Discoteca ODARA e tento somar toda minha vivência ao lado dos meus parceiros. O papel agora mudou, já que sou aquele cara mais velho, porra louca, contando um monte de histórias loucas para uma rapaziada jovem cheia de vida, que também me conta um monte de coisa doida, mó barato! Aprendo pencas!

A imagem pode conter: 1 pessoa, no palco

6 – Qual foi o norte que te guiou na gravação desse set para Troally? Qual ideia você pretende transmitir através dessas batidas?

Cara, as forças ocultas que sempre me guiam na hora de fazer uma seleta dessas, me empurram sempre pra dar a volta ao mundo: velharias, novidades, artistas que sou fã, artistas que sou amigo e acredito muito,  povo de todo canto do mundo. Enfim ,é meio que por ai.

7 – Para finalizar, uma pergunta pessoal. Nós enxergamos a música como uma forma de conexão entre as pessoas. E para você, qual a razão da existência dela na vida humana?

Linguagem… linguagem pra comunicação, expressão , entendimento e esclarecimento. Uma das maiores expressões de cada povo e cultura.

A música conecta as pessoas!