Doriva é mais que um DJ. Pesquisador declarado, está em busca de novas timbragens e sonoridades. Atualmente, ele integra o casting da D AGENCY, uma das principais agências de DJs do Brasil, além disso possui residência no Terraza de Florianópolis e no núcleo detroitbr. Para a 32ª edição da Troally, fomos descobrir através de uma interessante entrevista, um pouco mais da carreira desse respeitado artista que nos presentou com um set exclusivo também. Música de verdade por gente que faz a diferença.

1. Olá, Doriva. Muito obrigado por falar conosco. Você cita Thomas Franzmann, Ricardo Villalobos e Raresh como suas principais influências. Foi através deles sua iniciação na música eletrônica?

Oi pessoal do Troally, não, eu fui conhece-los muito tempo depois. A minha paixão por minimalismo sempre foi algo constante e crescente. Hoje depois de quase 10 anos pesquisando e tocando eu “estacionei” minhas referências em cima deles, mas eu comecei ouvir minimal com o Gui Boratto, na época do lançamento do álbum pela Kompakt, o Chromophobia. Aquilo soava diferente para mim, quando eu vi o Gui no Warung em outubro de 2008 eu definitivamente descobri que eu amava aquele som sem mesmo saber o nome que ele tinha ou o gênero, aqueles barulhinhos me fascinavam, a falta de elementos sempre me fez pensar mais do que o excesso deles. Alguma coisa veio com a Minus depois, mas a ideia de música destoou depois de um tempo.

2 – A música historicamente cumpre um importante papel social e transformador mas também é um negócio, uma atividade lucrativa que movimenta milhões ano após ano. Na sua visão, como instituições e artistas devem equilibrar o lado inspirador e financeiro, para no final fazer a diferença na vida das pessoas?

Pergunta difícil, seria o mesmo que perguntar para um dono de uma galeria de arte, como ele faz para vender os quadros. Música eletrônica é diferente de outros gêneros, porque não se vende somente uma vertente ou algo do tipo, como o Rock. Tem núcleos que fazem festas somente de techno e outras somente de deep house, mas para os clubes é uma tarefa complicada ser assim. Nosso público no Brasil ainda é pequeno e não podemos nos dar ao desfrute de fazermos festas específicas para cada gênero, falo isso como residente do Terraza. O que eu vejo é que todos tem trabalhado com uma certa maleabilidade, tentando pegar um pouco de cada turma e somando num todo. E o que acaba ocorrendo é essa rixa infantil do meu som é melhor que o seu e blá blá blá, mas o que é normal quando se mistura públicos de sonoridades diferentes. Mas a forma que eu imagino que deveria ser feita já está sendo feita. Noites com artistas um pouco mais conhecidos, e noites com artistas menos conhecidos que dão um “up” em qualidade. Mas mesmo com crise e dólar super caro, os artistas estão vindo e somando nos lines do Brasil e espero que continue, porque além de contribuir para o crescimento de qualidade do público, melhora nossa visão como artistas também, me incluo nisso.

3 – Em sua conta no soundcloud, também há material de downtempo. Como é a sua relação com diferentes estilos da música eletrônica? Como você absorve a arte em geral na sua música?

Trip-hop é uma das minhas paixões. É uma essência muito bem conceituada de uma parte da música eletrônica que não vemos nas pistas de dança aqui. Basicamente é um som para se ouvir em casa, ou ser trilha de algum filme ou programa de TV etc. Mas tirando a categorização do gênero, é música eletrônica feita para ser alcançada a timbres e experimentações diferentes, porque o foco dela é menos o “kick” e a dança e mais a musicalidade. Eu gosto de tudo que é diferente, eu gosto de sair de casa para ouvir e ver coisas diferentes. Qualquer movimento artístico me inspira, quando é feito de verdade, sem modismo e no fim o que mais me impulsiona mesmo são pessoas, como eu, que querem sempre ver lá na frente, pessoas que estão sempre esperando o novo mesmo que o “atual” seja ótimo, sempre pode ser mais. Nós de alguma forma somos formas de arte, interagindo umas com as outras e nos absorvendo a todo momento.

4 – De um modo geral, a cultura de pista no Brasil vive um momento brilhante. Basta olhar para nossa agenda esse ano e ver todos os nomes que já passaram por aqui e outros que ainda chegarão esse ano. Como clubber, assistir qual apresentação é seu grande sonho de consumo?

Eu já realizei alguns sonhos, Quinto Sol com Zip, Margaret Dygas e Ricardo, vi o Ricardo 2x no Warung, vi o Troy Pierce no Warung no showcase da Items & Things, toquei com o San Proper aqui no Terraza em Floripa, vi o Cobblestone Jazz, projeto do Mathew Jonson. Faltaria um long set do arpiar aqui no Brasil, Rhadoo, Raresh e Pedro estão voando lá fora, tocando em vários festivais. Algumas coisas mais vanguardistas, como o Moderat e o Darkside do Nico Jaar. Mas teremos Sónar em São Paulo esse ano e o line deve vir com várias coisas boas que eu sempre quis ver.

5 – Para finalizar, conte um pouquinho para a Troally como é sua relação com o núcleo detroitbr – no qual você é residente – e também com a D AGENCY.

As primeiras edições do after foram no mesmo local onde começou o detroitbr, mas era outro nome. O local acabou por receber muitas pessoas que saiam de diversas festas e se reuniam ali. Eu sempre estive inserido, não lembro exatamente como e quando isso começou como marca, quando vi as coisas já estavam acontecendo, fico muito feliz em fazer parte, é um núcleo independente muito legal, com várias pessoas que tem muito interesse em fazer as coisas acontecerem, o conteúdo artístico é sempre excelente e sempre buscando novos expoentes para a cena. Sobre o D.Agency, eu fui convidado pelo Renato Ratier na primeira leva de artistas em 2011, entrei para compor parte da agência que representa a festa Mothership, junto com o Ney Faustini o Renee Mussi entre outros artistas, hoje a agência conta com 55 artistas nacionais e grande parte dos bookings internacionais que vemos no sul também são de responsabilidade da agência.