Troally com Nikkatze

A cena eletrônica de São Paulo se tornou ponto de discussão e admiração global nos últimos anos e nada disso teria sido possível sem o empenho e o talento de nomes como Nikkatze. Parte de uma nova geração de artistas representantes da maior metrópole do país, Nicolli deu vida a BLUM e se firmou no calendário de eventos da cidade, tendo passado por boa parte das principais festas de lá.

Muito além disso, ela também ganhou presença e admiração fora das fronteiras geográficas de SP, invadindo o universo online e conquistando slots importantes em canais respeitados como a holandesa Red Light Radio e o tradicional canal brasileiro deepbeep. Estreando no Alataj, Nikkatze respondeu uma entrevista exclusiva e preparou um mix na classe, beirando os 100 BPM, para a coluna/podcast da Troally:

Alataj: Olá, Nikkatze! Tudo bem? Obrigado por nos atender. Podemos começar falando sobre este seu mix para série Troally: qual exatamente foi a linha de pensamento que guiou essa pesquisa?

Nikkatze: Tentei me expressar o máximo que pude, ser o mais Nikkatze possível. Não quis caminhar por um universo muito dark ou muito padrão, busquei melodias que sejam agradáveis para ouvir em casa, ritmos mais hipnóticos e com bons grooves.

Basta uma rápida audição no seu acervo de sets para entender a facilidade com que você transita de forma muito sútil entre diferentes estilos e propostas. Quais foram os principais desafios para conquistar essa identidade?

Eu sempre gostei de música, minha pretensão não era ser DJ ou trabalhar nessa área, mas eu gostava muito e sempre pesquisei, recebi diversas influências, e como todo processo criativo ele vai se transformando de acordo com sua experiência e pensamento. Eu sou muito abstrata e acredito que meus sets sejam a pura reflexão da minha personalidade, que é bem intensa e confusa. Meus sets acabam por ser bem cinematográficos, rola um pouco de drama e suspense, adoro brincar com isso. Para isso, preciso caminhar entre estilos diferentes, porém que se complementam, como quando você cozinha, a gente quando cozinha não usa um único tempero.

No mix é a mesma coisa, minha visão é que para um set ser verdadeiramente saboroso ele precisa ter mais do que um tipo de tempero, mas que se comuniquem harmonicamente. É aí que está o papel mais difícil, cada tempero tem seu momento para entrar na panela. O maior desafio é a disciplina, sem dúvidas, não posso parar nunca, preciso estar sempre me reciclando, estudando, ouvindo músicas diariamente, treinando e trabalhando em diversas possibilidades de mixagem, porque minhas músicas são bem malucas e complexas de mixar, e também são bem marcantes, não tenho a possibilidade de usar elas por muito tempo, mas como todas são bem bonitas, depois que passa um tempo acabo resgatando e compondo de outra maneira. Nunca é um trabalho fácil, acho que o mais fácil é quando estamos na pista tocando, uma espécie de prêmio pelas horas de estudo [risos].

Você é um artista com atuação importante neste movimento que ajudou a colocar São Paulo onde está agora. Quais momentos você indicaria como ‘históricos’ na jornada da cidade até aqui?

Sem dúvidas a Voodoohop foi a precursora de todo esse movimento, algo que nos ajudou a construir esse universo e conquistar direitos que hoje em dia em vista do cenário político estamos tendo que lutar de novo por eles. Acho que a DSVIANTE também desempenhou um papel muito legal em São Paulo representado as festas menores, estavam sempre fazendo festa de graça em locais super inusitados com pouquíssimos recursos.

Também não podemos esquecer da Mamba Negra que continuou o legado do papel político da Voodoohop com ainda mais força, entrando no cenário complexo do racismo, machismo e transfobia, iniciando uma verdadeira revolução a favor das minorias…

Agora acredito que a BLUM, minha festa, está tomando um espaço muito interessante no movimento independente, e poderia marcá-la como tendo feito uma revolução musical. Tínhamos uns bons anos na cena eletrônica onde tudo era techno, house e downtempo, acredito que o maior papel da BLUM, além de trazer a arte contemporânea afundo em suas ambientações e trabalhar com as questões de inclusão, também se destaca em trazer estilos novos completamente diferentes do que se ouve nas boates ou nas festas em geral.

BLUM [Foto por Sashka Gabelia]

Isso tem influenciado a pesquisa de muitos DJs e festas, o que está sendo ótimo para São Paulo, depois de voltar da minha tour na Europa, percebo que nossos DJs estão realmente atualizados e fazendo um trabalho impecável.

Também enxergo a Vampire Haus marcando a era das festas de graça, uma nova forma de se organizar, que garante estrutura e inclusividade.

A DANDO, também desempenhou um papel representativo fundamental no cenário LGBTQI, na minha opinião melhor festa sobre sexo gay em São Paulo, que além de ter uma excelente curadoria musical, é uma festa super divertida, que mesmo você que não busca sexo, pode ir a vontade e se sentir em casa.

Admiro DJs que são capazes de trazer para música todo o seu foco, esse parece ser o seu caso. Como é exatamente seu relacionamento com ela, do ponto de vista pessoal e profissional?

Como eu citei na questão número 2, minha questão pessoal com a música está completamente ligada ao profissional. Eu faço disso minha vida, então isso está sempre em primeiro lugar, claro que a BLUM vem junto, mas a música ainda mais, porque necessito trabalhar todos os dias nela. Diria que é uma relação bem abusiva, porque passo noites em claro, às vezes até esqueço de comer por estar mais preocupada com meu processo criativo do que com minha saúde, eu passo por momentos bem deprimidos quando estou com meu processo bloqueado e muitas vezes os fatores externos influenciam.

De um modo geral eu tento me afastar de relações românticas para que isso não me atrapalhe ou tire o foco, então passo boa parte do meu tempo sozinha, tanto uma coisa ou outra pode me deixar deprimida e desmotivada. Posso também experienciar semanas em que não quero ouvir nada de música, nessas semanas tendo a focar na casa, viajar, ou fazer outras coisas para descansar a cabeça e os ouvidos.

Embora espero que um dia não precisemos falar sobre isso, este ainda é um ponto importante. Para você, como é ser mulher dentro de uma indústria tão machista como a nossa? Quais conselhos você daria para aquelas que estão começando a gora?

Sim, ser mulher é difícil em qualquer lugar. O maior conselho que eu dou é focar em si mesmo, não ficar olhando para os lados, não ter medo de se expressar e sempre conferir o mixer antes do tocar, porque sempre tem uns babacas que mexem nas funções só para causar.

O que a BLUM trouxe de melhor para sua carreira como DJ? O que você acredita ser essencial para que essa relação festa/residente possa ser saudável e proveitosa para ambos os lados?

A BLUM me ajudou muito sem dúvidas, mas eu ajudei muito ela também [risos]. Eu sempre fui bem justa com a minha relação como DJ e produtora, nunca abusei do nome da festa para me promover, tanto que tem gente que não sabe que a Nicolli e a Nikkatze são a mesma pessoa. Demorei muito tempo para me colocar em bons horários no line up. Acho que depois de 2 anos e meio como DJ, eu me coloquei em algum horário de destaque, quando eu me senti realmente profissional para ter meu trabalho nesse horário de pista, que é uma grande responsabilidade. Até hoje geralmente coloco os artistas convidados, e vez outra toco no meio da festa, para poder dar oportunidade para outras pessoas também se destacarem.

Para finalizar, uma pergunta pessoal. O que a música representa em sua vida?

A música para mim é cura, ela me cura diariamente e vai continuar me curando, ela é aquela luzinha no final do túnel, sabe? Um abraço bem peludo e quente, como diria meu grande amigo e performer, Aly Oliveira.

A música conecta.


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n' Lights Management.

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