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Uma enciclopédia musical chamada Vakula!

Uma enciclopédia musical chamada Vakula!

O ucraniano Vakula é presença confirmada na programação noturna do Dekmantel São Paulo, que acontece no próximo fim de semana na terra da garoa. Sua identidade musical é ligada a um dinamismo que impressiona até mesmo os mais experientes nesse cenário e seu set no Dekmantel 2016 é um bom exemplo disso. Durante 90 minutos, Mikhaylo Vityk passeia com classe e muita elegância por diversos estilos, flertando com sons oriundos de diferentes partes do mundo e house/techno pra ninguém colocar uma vírgula de defeito. Ouça o set de Vakula na última edição do Dekmantel em Amsterdam:

Seu relacionamento com a crew Dekmantel já é antigo. A forma peculiar e autêntica como Vakula se apresenta garantiram a ele um lugar fixado no hall dos artistas que o festival holandês busca manter contato permanente. O público brasileiro pode esperar uma verdadeira imersão sonora durante sua passagem por São Paulo. Techno, dub techno, deep house, jazz, funk, disco e até mesmo rock se fundem para uma experiência única.

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O DJ e produtor também é conhecido por seu trabalho como frontman de dois selos importantes: Bandura e Leleka. Através dos labels, Mikhaylo encontrou um canal para liberar faixas de artistas com qual se sente musicalmente conectado e de quebra o mundo da dance music recebeu mais uma oportunidade de acompanhar a excelência profissional que o tem acompanhado nos últimos projetos. Conversamos com Vakula às vésperas de seu retorno ao Brasil e o resultado ficou bastante inspirador. Confira nas linhas a seguir:

1 – Olá, Vakula! Obrigado por nos atender. Sabemos que você possui um relacionamento muito especial com o Dekmantel há alguns anos. Fale um pouco sobre as experiências que adquiriu ao lado do coletivo.

Thomas Martojo e Casper Tielrooij são meus queridos amigos e parceiros, conhecê-los foi um acontecimento especial – isso foi por volta de 2009, quando eles acabavam de lançar sua gravadora. Primeiro eles me contataram online com palavras calorosas sobre a minha música e um convite para uma colaboração que eu aceitei. Desde então, lançamos quatro discos juntos, incluindo o material exclusivo sob meu pseudônimo menos conhecido, Vedomir. Eu e a equipe do Dekmantel estávamos crescendo juntos, fomos imaturos, mas promissores. Hoje eles têm seu império musical bem sucedido e eu tenho minha música e meu estúdio. Agimos como uma família, espero que isso não mude. Tocar em eventos do Dekmantel é sempre um prazer para mim, sou feliz e grato por todas as oportunidades e não são palavras promocionais.

2 – Eu li em algum lugar que seu avô serviu de influência para sua entrada na música. Como exatamente isso aconteceu?

Eu cresci em Konotop, Ucrânia, uma cidade provincial em silêncio conhecida pela sua natureza pitoresca, atmosfera mística e histórias locais ocultas descritas por escritores proeminentes da Ucrânia e da Rússia, como Nikolai Gogol e Grigory Kvitka-Osnovyanenko.

Quando lembro da minha infância, dentre as principais cenas que lembro, é o meu avô Alexander Kovshar sentado nas proximidades do cemitério local, em um lugar coberto com sombras dos bordos altos. Gracioso em seu traje tradicional ucraniano, ele estava cantando suas próprias canções líricas e tocando bandura, o instrumento musical de cordas históricas.

Ele era um verdadeiro kobzar – um poeta, músico e filósofo errante que segue o icônico herói cultural da Ucrânia e a figura histórica Taras Shevchenko. Por sua hipnotizante e comovente poesia e música, meu avô era conhecido em todo o país. Ele estava viajando, apresentando-se ao vivo, no rádio e na TV o tempo inteiro. Foi ele que me deu o entendimento visceral e amor pela música. Está nas minhas veias!

3 – Em sua identidade musical, é possível identificar referências ricas, como toques de Jazz e folclore, por exemplo. Historicamente, quais movimentos são seus grandes influenciadores? Por que?

Tenho uma coleção bastante impressionante de discos de todo o mundo e uma parte do meu coração pode ser encontrado em vários movimentos. Às vezes, algumas pessoas dizem o que eu produzo se assemelha ao dub techno Rhythm & Sound. Como Moritz Von Oswald é um dos músicos mais importantes para mim, eu aceito isso como elogio – e sim, ele foi uma grande influência. Também posso mencionar Steve Reich. Eu admiro seu som, como ele vem em perfeita harmonia com a natureza, este é um dos principais aspectos que estou tentando implementar em meu trabalho. Uma vez eu baixei a discografia completa de Reich e saí para uma caminhada na floresta, tirei um dos fones de ouvido, então escutei a paisagem sonora minimalista em uma orelha e os sons da natureza na outra. O efeito foi tão chocantemente belo que o passeio durou 5 horas.

4 – Bandura e Leleka são selos dirigidos por você, certo? Fale um pouco a respeito do trabalho desenvolvido por cada um e as diferenças que eles possuem em termos de curadoria artística.

Certo, ambas foram criadas por mi, e lanço principalmente minha música através delas. Bandura é sobre dub e música atmosférica. É a música que você pode trazer para o club e tocá-la. Vocês já sabem o que é Bandura e o seu papel na minha vida. Um novo lançamento sairá pela Bandura em breve, chama-se “B”, então não percam. Leleka é a minha saída mais experimental, para lançar músicas pensativas, um pouco vanguardistas e “musicais”. Meus álbuns A Voyage To Arcturus e Dedicated to Jim Morrison são exemplares filhos da Leleka. Leleka é a palavra ucraniana para a cegonha, um pássaro bonito associado com lotes de antigos rituais e contos.

5 – Como você enxerga o momento atual da cena eletrônica na Ucrânia? Sabemos que há bons artistas fazendo a diferença, mas o público, está realmente interessado na música conceitual?

Eu sou uma pessoa critica e exigente, não estou feliz com tudo que está acontecendo na cena local. Mas devo admitir que continua se desenvolvendo rapidamente. Não posso dizer que as massas realmente se interessem por música conceitual, mas é assim em todos os países e talvez isso seja bom, porque algumas coisas nunca devem se tornar mainstream. Na Ucrânia, temos muitas pessoas musicalmente e esteticamente educadas, o número cresce à medida que avançamos com a perturbadora ascendência da União Soviética, e temos cada vez mais ouvintes, com certeza. A verdade é que a Ucrânia está cheia de pessoas excepcionalmente talentosas – incluindo os artistas que vocês mencionaram, aqueles que fazem diferença. Mas alguns enfrentam diversos problemas ou são apenas preguiçosos ou seguem o caminho errado para que não levantem sua voz fora do país ou isso acontece lentamente. Minha situação é diferente, eu sou mais conhecido fora da minha pátria e eu realmente não mexo com os caras do movimento eletrônico local.

6 – O dinamismo é um ponto chave dos seus sets, sempre muito criativos e bem construídos. Na sua opinião, o que difere um bom DJ dos demais?

Concordo. O dinamismo é um dos pontos chave dos meus sets, estou feliz por vocês terem percebido. Eu diria: O DJ tem que conhecer perfeitamente sua ferramenta e sua principal ferramenta é o seu mixer. Além disso, ele tem que ser capaz de contar a história com sua seleção e desenvolvê-la dramaturgicamente em 2-3 horas. É isso aí.

7 – Qual a sua expectativa para o Dekmantel no Brasil? Você conhece algo a respeito da música brasileiro? São Paulo possui boas lojas de discos, acho que você vai gostar!

Vou ter um bom momento apresentando meu mundo musical em um ambiente ensolarado, amigável e totalmente indulgente, com alguns do melhores vagabundos do mundo [risos]. Sim, na última vez eu comprei muitos esplêndidos vinis brasileiros e isso realmente me atrai, mas estava tão na moda naquela época e eu não queria segui-la. Então eu comprei materiais de rock psicodélico brasileiro completamente desconhecido e toquei alguns deles na cabine do Red Light Radio, durante o festival Dekmantel.

Música de verdade, por gente que faz a diferença!


Alan Medeiros é publicitário, sócio-fundador do Alataj e nome por trás da Beats n’ Lights Management.

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