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A música conecta

Faixa a Faixa | Forró Red Light – Nó Central

Por Ágatha Prado em Faixa a faixa 28.04.2022

Forró Red Light é uma das maiores provas que o intercâmbio musical pode construir novos universos, a partir de combinações culturais pré-existentes que formam uma amálgama criativa genuinamente brasileira. Comandado por Ramiro Galas e Geninho Nacanoa, o projeto brasiliense resgata meticulosamente, com todo o cuidado merecido, um dos patrimônios musicais mais consagrados do nordeste brasileiro: o forró. E claro, a assinatura do Forró Red Light se mostra ainda mais interessante já que o duo se interconecta com as esferas da música eletrônica, assim como outros ritmos que fazem parte das cores da musicalidade regional. 

A dupla que já emplacou sucessos pela Massa Records com Mirai No, Gop Tun com Tropeiros Trópicos, e com o debut Regional Digital Lumiado, estrela agora um novo álbum recheado de mesclas ainda mais ousadas. Nó Central é um full-lenght de 11 faixas, e foi realizado com recursos do Fundo de Apoio à Cultura do Distrito Federal, trazendo um pouco da cultura musical do Cerrado, com Xote, Dancehall, Reggae, Frevo, cultura popular e música eletrônica. O álbum também conta com participações especiais de artistas consagrados de diversos estilos e gerações de Brasília, formando um recorte temporal da música da capital. Acompanhe os detalhes de cada uma das faixas de Nó Central, que representam a música contemporânea do Nordeste com os parentes do Centro-Oeste.

Arroxonov com limão (feat. Duo Alvenaria) | Essa parceria com o Duo Alvenaria saiu ligeiro! No primeiro encontro, Ely Janoville, multi-instrumentista e rabequeiro, já puxou esse belo tema e todo fundo falou “É isso!”. Duas horas depois, as guias de rabeca e as de pandeiro, tocado por Mariano Toniatti, já estavam gravadas. Ramiro desenrolou o esqueleto da base ali na hora e Geninho já registrou a voz. Daí pra frente foi só lapidar essa pedra!

Na Mata Cantou (feat. Haono) | O grupo Haono, expoente do Movimento Cerrado dos anos 90 em Brasília, é nosso parceiro antigo. Geninho é ex-integrante e o entrosamento já vem pronto. A gente recebeu a faixa bem encaminhada, com as vozes, flautas, rabecas e percussões. Os instrumentos e as percussões gravadas nessa faixa são artesanais, feitos por Leo Kaju e Junai, a partir do reaproveitamento e reciclagem de materiais. Nos restou dar aquele toque redlight pra finalizar!

Adeus, Menininha (feat. Chinelo de Couro) | Com essa ficamos quebrando a cabeça sobre como seria. O grupo Chinelo de Couro, formado por mulheres, só tem musicista de alto nível, e não queríamos deixar de registar isso. Foi então que elas sugeriram o remix de “Adeus, menininha”, de domínio público, do cancioneiro popular, fincando o pé ainda mais na tradição. Recebemos as faixas da gravação da versão delas, lançada em seu último disco “Cantos Brasileiros”, com muita honra e seguimos com total liberdade para fazer essa releitura de uma música tão enraizada na cultura popular.

Quero Ver (feat. Batidão Sonoro) | Aí temos outra música que fluiu com bastante naturalidade! Nos primeiros encontros, focamos em definir a pegada do beat, chegando a essa mistura de frevo, forró e dancehall. Aí Dj Bolla e MC Chikkin, representantes do coletivo Batidão Sonoro, farol da cultura jamaicana na capital, consolidaram a rima nesse flow que juntou Jamaica, Cerrado e Caatinga!

Festa de Iemanjá (feat. Dudu Maia) | Essa também foi remix! Só a visita ao estúdio de Dudu Maia, já teria sido incrível. Compositor, multi-instrumentista e produtor musical de mão cheia, tivemos sorte de achá-lo no Brasil. Quando ele entregou as faixas da música Festa de Iemanjá, perfeitamente gravadas, pra gente sentar a mão, foi demais! Coube a nós receber e segurar a responsa! Virou um baião lento, reverente à entidade tema da canção, mas com um leve toque da nossa música mundana. 

Castelo de Areia (feat. Dona Gracinha) | Que honra foi gravar uma música inédita dessa lenda viva da música. Com quase 80 anos de idade, Dona Gracinha é a história da cultura popular e da resistência do povo nordestino. Afiada e bem precisa no dia da gravação, Gracinha só ouviu nossa base percussiva e falou logo: “Só o ooouro”. 30 minutos depois o take perfeito de sanfona e cavaco, tocado por Tiago Vieira, seu sobrinho, estavam registrados. Aí foi só redlightear a coisa toda, colocá-la novamente nas frequências do rádio juntinho com a gente.

Samples de Terceiro Mundo (feat. Sistema Criolina) | Rodrigo Barata, do coletivo Criolina, banda Muntchako, DJ, realizador cultural e antena musical de Brasília, trouxe um pequeno apanhado de vinis de seu acervo gigante, e numa curta sessão de audição, ficou claro: “Vamos samplear isso aqui”! O disco era “Il Popolo Al Potere – Canti Rivoluzionari DellAngola”, uma prensagem italiana com registros de músicas revolucionárias do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA)! Foi daí que saíram os samplers de terceiro mundo dessa música! Foi aí que a gente entrou com beat meio baião, meio reggaeton e o toque final!

Lindo Canto (feat. Martinha do Coco) | A ciranda “Lindo Canto” foi um presente que ganhamos da Martinha do Coco, expoente da cultura brasileira na nossa capital. Direto do Paranoá, cidade satélite de Brasília, vem essa voz que canta e representa as raízes culturais e as mulheres negras da nossa população brasiliense. Nessa ciranda, cantada por ela mesma e com percussões de Carlos Frazão, ouvimos o seu canto doce e marcante, dedicado ao mar e à natureza! Essa é uma música inédita que vem ao mundo pela primeira vez, fruto dessa parceria com o Forró Red Light.

Marcus Garvey e Lampião (feat. Jahcareggae) | A banda Jahcareggae é mais uma semente da cultura jamaicana no DF! Uma família dedicada musicalmente às vertentes do reggae há mais de 20 anos em Brasília, tinham que entrar nesse bonde. A base veio primeiro, bem redlight, com baterias 808 e timbres marcantes do dub. Fomos do baião ao ragga, com uma passagem pelo xote; do flow da Jamaica ao aboio sertanejo. A letra faz a fusão de referências de nomes de grande relevância para a cultura dos rastafari e a nordestina. As vozes de Gabriel Jahbe, Geninho Nacanoa e Rafa King Zulu (que também toca escaleta) dão a ideia do quanto cabe nessa nossa panela.

A Mando Dela (feat. Renato Matos) | Renato Matos, um dos gigantes da cidade, é uma figura de criatividade infinita. Com uma fagulha, o paiol pega fogo! E assim foi… A partir de uma brincadeira com as palavras, surgiu o refrão, que foi arrematado feito Boi Bandido num leilão. A pegada arrastada de xote com dub deu o tom que precisava para azeitar toda a história. A voz lendária e viva de Renato Matos está aqui fundida, mais uma vez, ao forrobodó system do Red Light!  

Pra Pra Tu (feat. Batukenjé) | A música surgiu a partir da letra de Geninho que exalta o Batukenjé, grupo de tambores de rua da cidade de Brasília, no melhor estilo Bloco Afro. Com presença marcante, literalmente, por onde passa, o estilo do grupo estimulou a criação de um som meio rua, meio experimental… Um samba-reggae, lounge-xoteado… Os tambores do bloco se juntam à poesia e às cordas, finalizando nossa viagem pela música e pelo cerrado do DF em grande estilo, com tambores e melodias que batem certo no peito.

A música conecta.

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