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A música conecta

ADAME DJ: ampliando os limites da música eletrônica brasileira através do funk

Por Marllon Eduardo Gauche em Trend 10.07.2026

Muitos produtores musicais utilizam o funk como referência em suas músicas sem entender que ele já carrega, por si só, uma lógica de música eletrônica — mas este não é o caso de ADAME DJ. O produtor capixaba não tenta encaixar o funk dentro de uma padrão, ele trabalha com o que o gênero já tem, colocando suas características em contato com techno, trance, acid, glitch e hard de um jeito muito próprio. Em Músicas para Ouvir no After, álbum lançado no final de junho pela ONES and ZEROS, selo do renomado DJ e produtor alemão Boys Noize, isso aparece ao longo das 15 faixas, numa construção onde a música perde a obrigação de ser linear, limpa ou fácil demais de classificar.

Pedro Henrique Adame conta que as faixas foram aparecendo ao longo dos últimos três anos, enquanto ele vivia diferentes experiências, viagens e mudanças no próprio jeito de produzir. “A ideia central não surgiu em um dia, foi acontecendo enquanto eu ia vivendo nos afters da vida”, e isso fez com que o disco ganhasse um caráter bastante fiel e verdadeiro da atmosfera caótica que muitas vezes é encontrada num after. Várias faixas partem da confusão, do desgaste, do humor e da intensidade desses ambientes para pensar o som de dentro para fora.

Esse movimento também marca o encerramento da trilogia Rolê, projeto que ADAME vem desenvolvendo há cerca de cinco anos. Se a primeira parte — Músicas para Ouvir Antes do Rolê — tinha a função de puxar a energia para cima e o segundo EP — Rolê — buscava manter essa temperatura, Músicas para Ouvir no After veste outra roupagem. É o momento em que a festa já passou por vários estágios e a música não precisa mais responder a uma ideia tradicional de progressão. “Minha intenção foi puxar timbres de outros estilos e inseri-los no meu mundo”, explica. O resultado é um trabalho mais solto na forma, mas não descuidado, sempre com uma intenção por trás do caos proposital.

Natural de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, ADAME construiu uma assinatura ligada àquilo que sua própria bio define como uma espécie de Música Eletrônica Popular Brasileira, atravessando funk capixaba, bruxaria, ritmada, acid, techno, hard, afrobeat e outras linguagens. Antes de chegar a esse álbum, seu caminho já passava por projetos como E SE, série de sets no SoundCloud baseada em provocações pessoais sobre diferentes estilos, além de faixas como Agressiva, Acid Baile 1 e 2, Aquecimento do Adame e seu remix de Smooth Operator, que ajudam a mapear melhor sua forma de pensar música.

Essa inquietação aparece também nas referências que cercam o álbum, tanto que o próprio artista cita ter sido influenciado por faixas próximas do glitchcore para chegar nesse estilo de produção mais ousada, além da aproximação com techno e psy trance a partir de nomes como Randomer, Captain Hook e Hermeth. Ao mesmo tempo, o funk capixaba segue como um elemento central em várias músicas, fazendo parte da estrutura rítmica e da textura das obras, dando ao álbum a cara de um “funk mais etéreo e ao mesmo tempo mecânico, quase sempre distorcido, saturado”.

Talvez a frase que melhor sintetize o álbum venha do próprio artista: “Nem tudo que a gente faz precisa fazer sentido”. A diferença é que, no caso de ADAME, essa falta de sentido não aparece como desculpa para fazer qualquer coisa. Ele mesmo reconhece que até na hora de não fazer sentido busca algum tipo de direção. Isso fica claro na maneira como defende o funk como música eletrônica e experimental, capaz de provocar sensações próximas às que muita gente associa ao techno, ao psytrance ou a outras linguagens mais legitimadas dentro do circuito underground. “O funk pode trazer a mesma sensação e experiência que um techno ou um psy trance traz”, afirma.

Tudo isso ajuda a entender por que sua carreira tem atravessado cada vez mais fronteiras. ADAME já circulou por diferentes palcos do Brasil, passou por festivais como o Submundo 808, realizou turnês pela Europa e chamou atenção de Boys Noize, que passou a distribuir seus lançamentos pela ONES and ZEROS. Nos próximos dias, cumpre uma sequência de apresentações passando por São Paulo, Taubaté e São Bernardo do Campo, mas ele também já adiantou que irá fazer seu retorno à Europa ainda neste ano, dando continuidade à expansão internacional de sua carreira após a série de shows no Brasil.

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