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A música conecta

Alataj entrevista KENYA20HZ

Por Isabela Junqueira em Entrevistas 02.06.2023

O que chancela algo, alguém ou mais especificamente, um artista, ao nível excepcional? Quais características tecem esse manto que forma o “único”? Perguntas difíceis e subjetivas, mas que ficam evidentes quando a bola da vez é KENYA20HZ. Dona de um perfil que se conecta nos mínimos detalhes, a potência de Kennya se formou nas entrelinhas, mas brilhou em uma figura que soube interligar tudo isso para criar uma artista que transborda arte. 

Jornalista, seletora, produtora, investigadora cultural — já tendo colaborado com o Resident Advisor em um artigo que mergulhou na história do Funk carioca, trazendo à superfície 10 faixas que resumem essa jornada —, apresentadora e, não bastando, ela ainda é sonoplasta em formação. Artista com A maiúsculo mesmo. A verdade é que a coerência destacou sim o perfil artístico de KENYA20HZ, mas a vontade em ir sempre além conduziu a carioca à caminhos tão certeiros que hoje, sem dúvidas, além de uma das artistas mais potentes que emergem da nova geração da música eletrônica brasileira, ela é também uma das mais representativas, injetando força à música eletrônica preta.

E isso não é apenas a redatora que vos redige quem afirma, mas sim, um público massivo que ela já conquistou, os principais núcleos alternativos do país (como arheião, Carlos Capslock, Mamba Negra, Selvagem, entre muitos outros) e os grandes eventos que ela já passou, como Time Warp. Os próximos meses da artista também favorecem a afirmação, já que ela passará pelos palcos do Rock The Mountain 2023, Hï Ibiza e The Town. KENYA também fará uma turnê pela Europa que começa em julho, mas o que motiva a nossa conversa é o anúncio de sua integração ao tão esperado lineup de retorno do Tomorrowland ao Brasil — acontecimento esse que ela classifica como um sonho realizado.

Dando “check” em uma vontade antiga, com vocês, nossa entrevista com a “braba”, a bruxona, a gigantesca… KENYA20HZ:

Olá Kennya, muito obrigada por topar falar conosco, é um prazer imenso e uma vontade antiga receber você aqui no Alataj. Parabéns pelo momento de tantas conquistas. Você é uma referência imensa da música eletrônica negra e é muito potente te ver ocupando esses lugares. Como foi o processo de nutrição dessa persona artística tão poderosa que é a KENYA20HZ?

Kennya (KENYA20HZ): Obrigada pelas palavras, Isabela.

Quando você diz processo de nutrição, a primeira coisa que vem à minha mente sobre construir essa persona, é como cuidar de um bebê, bebês crescem e de repente a alimentação deles já não é mais a mesma. 

As referências que me nutriram no passado, fazem parte da minha estrutura, da minha base, mas conforme essa persona foi amadurecendo, foi preciso buscar e aprender novas formas de existir que me trouxesse uma satisfação, mesmo que temporária, mas essencial no fornecimento da energia necessária pra continuar alimentando essa persona a cada dia, esse processo não se finda.

São 8 anos de jornada e eu vejo com clareza um perfil pessoal e profissional que se conectam nos mínimos detalhes. Além de DJ e produtora musical, você é jornalista, apresentadora e investigadora cultural, e particularmente acredito que todo esse background contribui com exatidão para essa excelência musical que você entrega seja em festas ou projetos alternativos ou em eventos mais hypados. Como você explica essa característica de “camaleoa”, Kennya?

São muitos estímulos sensoriais e inconscientes que me impactam todos os dias, desde muito cedo, então percebo o meu trabalho agora, como uma ferramenta que eu uso pra conseguir transcrever todas essas percepções em forma de arte e pesquisa.

Eu acho que eu consigo transitar por esses extremos, do dark ao pop (kkk), do underground ao comercial, por que eu consigo genuinamente me conectar com um pouco de tudo isso, eu enxergo um pouco de mim em todas essas experiências e as pessoas percebem isso, você não inventa esse tipo de coisa. 

Aquilo que perseguimos e a maneira como fazemos isso, talvez seja o que nos torna únicos.

Há quase um ano atrás você impactou muita gente com o seu Boiler Room, em um set que abraça incontáveis nuances da música eletrônica (e aí vale lembrar que o espectro é imenso), mas muito bem interligado. Lembro do sentimento constante de surpresa quando vi e o quanto você prende a atenção do ouvinte, seja pela técnica na mixagem ou pelas bombas que você solta. O que você acredita ser fundamental nessa entrega de uma experiência tão surreal em pista?

O Boiler Room foi algo interessante pra mim, acho que é um sonho de muitos DJs e produtores, poder participar desse projeto.

E quando eu fui chamada, eu tive somente algumas semanas pra pensar na melhor setlist da minha vida, que mostrasse tudo que eu represento sonoramente e eu cheguei a pensar que eu tinha um plano perfeito. 

Mas quando cheguei lá na hora, eu não segui nada do que havia planejado, eu só queria amplificar aquela sensação e tudo aquilo era sentido e compreendido de um modo simultâneo tanto pra mim, como pra quem estava naquele dia e vai poder ouvir no futuro também. Então, acredito que a parte mais importante seja a busca por essa conexão com o momento presente.

Inclusive, existe algum limite para a sua pesquisa musical? E o que interliga ela?

Não. O Grave.

Você já passou pelos principais eventos alternativos de norte a sul do país e agora vem e caminha para uma sequência de eventos poderosos, como vimos no último anúncio do lineup do Tomorrowland Brasil nesta semana, e a reação super positiva do público ao ver seu nome. No seu anúncio no Instagram, você comentou que tocar no festival é um sonho que você vai realizar. Diante desse contexto, o que o público pode esperar de você na conquista de mais esse espaço?

Eu não quero dar spoiler, mas já posso adiantar que eu irei tocar em um horário que eu amo e o palco que o Tomorrowland escolheu pra mim, é algo que só confirmou o que eu já sonhava pra esse momento: vai ser pesado e totalmente conectado com o estilo sonoro que eu venho pesquisando e produzindo cada vez mais e tenho apresentado em shows como o Festival Carlos Capslock e Time Warp.

O Tomorrowland é um festival com um público muito variado e consequentemente existe a chance de ter contato com ouvintes completamente diferentes, furando incontáveis bolhas. Como você interpreta essa movimentação de expor seu trabalho em um dos maiores festivais de música da América do Sul?

Essa é a parte que eu mais gosto. Eu encaro isso como o real trabalho de base (kkk). Poder mostrar pra diferentes ouvintes, pra públicos não muito acostumados a determinados estilos e subgêneros musicais como se abrir pra novas sonoridades.

E pra conseguir fazer isso, existe uma técnica certa, eu não acredito nessa de apenas impor a minha linguagem de uma forma agressiva, a ideia mais brutal pode ser passada da forma menos violenta.

A versatilidade com certeza é um ponto alto da sua abordagem musical e a coerência traz uma força inquestionável. Mas como você explicaria a sua música para alguém que nunca teve contato com ela?

Eu busco o equilíbrio rítmico ideal que resulte em algo que seja pra dançar, mas também que sirva pra meditar onde eu mesclo o melódico ao ruidoso, o ancestral ao futurístico, o complexo ao minimalista, é um ritual de paradoxos sonoros. É divertido, confia.

Você sempre serve looks que além de expressarem sua personalidade, expressam suas referências. Como essa construção estética visual acontece?

Eu realmente enxergo as coisas de uma forma interligada e eu tenho um fascínio tímido pela moda.

Muitas vezes eu penso na minha performance musical como a continuidade de uma peça ou adereço que foi pensado como a fantasia de um personagem e as coisas se conectam de uma forma que é muito importante sentir que aquilo tem um sentido, tem uma mensagem. Eu sou muito grata de ter pessoas que me ajudam a construir esse projeto visual e que entendem as subjetividades das minhas decisões pra cada show.

Além do Tomorrowland, você tem aí na previsão The Town, Hï Ibiza em julho, turnê pela Europa vindo aí… muito chique! Como estão as expectativas para esses próximos passos?

Muito chique, também acho, kkk. Estou muito animada com toda certeza, sinto que o meu trabalho finalmente alcançou uma plataforma onde cada vez mais pessoas podem ouvir as mais diversas facetas da minha pesquisa, espero ter um ótimo momento e levar uma experiência única a cada lugar por onde eu passar. 

Esse ano ainda tem vários shows pra acontecer, e todos eles com a sua própria identidade. No show do The Town, eu irei me apresentar de uma forma inédita no projeto autoral Chaos Sonora com 2 instrumentistas no palco em formato de banda, e também vai rolar apresentação em algumas rádios e festivais estrangeiros até o final do ano, então como diz meu amigo L_cio : PRE-PA-RA. 

É impossível não aproveitar a oportunidade para perguntar [risos]… tem lançamento musical vindo por aí?

Com certeza, o que eu posso dizer pra todas as pessoas que me acompanham, é que eu realmente quero preparar algo bem especial e que reflita grande parte das minhas referências. 

Pra esse ano eu recebi alguns convites pra participar de álbuns e remixes, como da Juçara Marcal (Delta Estácio Blues), uma coletânea da Brasil Discos, focada em Música Afro e Candomblé (Baile dos Orixás), além de convites de curadoria em festivais nacionais.

São várias coisas rolando ao mesmo tempo, mas minha visão é lançar 2 projetos que estão em andamento, cada um com a sua identidade e um especificamente focada no meu trabalho com Roteiro e Audiovisual. 

Já caminhando pro final do nosso papo, é impossível não perguntar! Conta para nós sobre a sua relação com as baixas frequências e como isso te influenciou a ponto de batizar o seu projeto?

Essa relação vem da forma como eu percebo o som e consequentemente o seu comportamento sobre tudo aquilo que é físico, sendo capaz até de se manifestar no metafísico.

Desde que eu comecei a frequentar festas que eram focadas em gêneros mais underground como Dubstep e Forest sempre me interessei muito na capacidade sinestésica da música em literalmente poder fazer você sentir as ondas sonoras saindo de um bom sistema de som, e especificamente as baixas frequências possuem um limite onde elas podem ser percebidas e quanto mais chegamos perto desse limiar, podemos sentir o som em todo o nosso corpo.

Quando eu compreendi esse efeito que pra quem está ouvindo pode parecer até mágica, mas é apenas ciência [risos], entendi que essa seria uma das linguagens com a qual eu viria a construir a minha comunicação.

Por fim, a nossa pergunta que é um rito de passagem do Alataj. O que a música representa na sua vida?

A possibilidade de transcender a minha materialidade, de me conectar com um número infinito de pessoas através do tempo e poder expressar todos os meus sentimentos através do som.

A música é um grande mistério na minha vida, e eu estou aqui pra poder desvendar.

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