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A música conecta

Alataj entrevista Cesare vs Disorder

Em 2015, quase nos primórdios do Alataj, nós já notávamos que havia algo de diferente e especial no perfil de Cesare Marchese, artista ítalo-polonês conhecido na cena por seu projeto Cesare vs Disorder, nome que ecoa de forma influente tanto na cena eletrônica nacional quanto internacional. Um dos pontos que chamavam atenção era sua vivência pelo mundo, já que ele nasceu em Sicília, na Itália, morou em Milão onde formou-se como Sound Engineer, conheceu toda a Europa, decidiu então mudar-se para Londres, onde solidificou sua carreira como DJ, depois foi para Berlim, em 2010. Por fim, escolheu o Brasil como seu território oficial há alguns anos, se mantendo até os dias de hoje.

E se fronteiras nunca foram um problema para Cesare ao longo da vida, não seria a música que iria impor tais barreiras no caminho, o que ele demonstra claramente com seu primeiro álbum, Antidote, mais um brilhante capítulo em sua trajetória de sucesso. Lançado pela própria gravadora, a Serialism Records, o disco explora diversas facetas da dance music e consolida um artista visionário em constante evolução. Sua capacidade de se reinventar e abraçar a diversidade sonora mostra que ele está atento às novidades, mas ao mesmo tempo conectado com as raízes musicais que ajudaram a formar o artista que é hoje.

Aproveitando este importante marco, buscamos entender um pouco mais de cada detalhe presente nas 13 faixas deste notável trabalho — lançado também em vinil — que tenta resumir um pouco dos seus mais de 20 anos de esforços incansáveis no estúdio, período onde foi exposto a uma variedade de gêneros que vão desde hip hop, indie rock, reggae e drum’n’bass, até modern jazz, bossa nova, dub e, claro, a música eletrônica.

Alataj: Cesare, obrigado por nos atender novamente! Lançar um álbum é sempre um momento muito especial para qualquer artista. Por que, no seu caso, ele só chegou agora, quase 20 anos depois desde que você decidiu mergulhar neste universo?

Cesare vs Disorder: E aí pessoal, obrigado por me receberem novamente! Na verdade, minha primeira experiência com música foi há muito tempo atrás. Eu tinha 6 anos quando comecei a estudar violão, embora, como já disse algumas vezes em diferentes entrevistas, eu não fosse exatamente um grande talento. Depois disso, toquei piano por alguns anos, um pouco de baixo, algumas baterias ao vivo aleatórias e percussões aqui e ali, antes de começar a atuar como DJ por volta de 1997. Em 2001, concluí um curso de pós-graduação em engenharia de som em Milão, e foi durante esse período que comecei a produzir música antes de me mudar para Londres. Desde então, nunca lancei um álbum, história verdadeira, embora tenha produzido alguns álbuns que nunca foram lançados porque senti que ainda não estava pronto.

Nesse meio-tempo, no entanto, lancei minhas músicas em mais de 100 discos de vinil, em muitos selos underground legais como Vakant, Rawax, Pleasure Zone, Nervmusic, D-EDGE, Stock5, Dumb Unit, Thema, Blkmarket, Resopal, minha própria Serialism Records e muitos outros. Também trabalhei com algumas gravadoras importantes como Ninja Tune/Big Dada, Cocoon, Transmat, Crosstown Rebels, BPitch Control e Bedrock. Em outras palavras, foi um bom treinamento antes do meu álbum de estreia.

Em Antidote é possível ouvirmos um pouco de todas as suas principais referências, certo? A ideia foi fazer um álbum que de fato mostrasse esses recortes sonoros que você absorveu ao longo dos anos? 

Exatamente. Um pouco de Breakbeat e Garage, um pouco de House e Techno, um toque de Hip Hop, Electronica, Dub e Nu Jazz, e tudo isso unido por uma abordagem Rock’n’roll e texturas futurísticas minimalistas.

Este álbum tem algum momento específico do dia (ou da vida) para ser apreciado? Ao nosso ver, ele funciona melhor com uma taça de vinho ao invés de um drink com vodka… qual a harmonização ideal para Antidote, na sua concepção? 

Para ser honesto, espero que seja uma obra que possa ser apreciada em diferentes lugares e épocas; algumas músicas foram tocadas em todo o mundo e receberam o apoio de alguns dos meus colegas DJs mais estimados em diferentes gêneros, enquanto outras, as mais downtempo, foram tocadas até na BBC Radio no Reino Unido, entre outros lugares.

Atualmente, sinto que ele pode ser dividido em seções e apreciado em diferentes momentos e lugares, desde um clube a um festival com um grande sistema de som, até o conforto do seu sofá com uma taça de bom vinho (italiano), com certeza!

Entre as 13 faixas originais, 6 delas trazem colaborações com outros artistas. Você poderia nos falar brevemente sobre a escolha de cada um deles? 

Claro, vamos lá!

Mike Ladd | Mike é uma lenda; ele é considerado um guru na cena do jazz hip hop, vindo de Boston e agora baseado em Paris. Ele trabalhou e lançou músicas com gravadoras como Ninja Tune/Big Dada, passando o !K7, e agora também cria trilhas sonoras para filmes, além de se apresentar continuamente em todo o mundo. Eu o conheci em Berlim em 2012, quando um bom amigo com quem compartilhava o estúdio, Walker Barnard, nos apresentou. Começamos a colaborar e criamos algumas músicas incríveis, todas flutuando entre hip hop e música eletrônica, incluindo “Oh Lord”, que entrou no meu álbum. Com outra música que fez parte da trilha sonora de um curta-metragem que co-produzi, ganhamos o prêmio de “Melhor Trilha Sonora” em um Festival de Cinema de Hollywood há alguns anos.

Cristi Cons | Eu e Cristi entramos em contato quando ele fez um remix de uma das minhas músicas no selo Vakant de Berlim (agora fechado), em 2012. Nos tornamos amigos aos poucos e ele lançou um disco no meu selo, fortalecendo nossa amizade e colaboração. Desde então, toquei com ele em muitas cidades ao redor do mundo, o trouxe para o Brasil algumas vezes e continuamos colaborando e sendo bons amigos. Com certeza, temos mais colaborações planejadas e uma relação de longa data pela frente. Ele é verdadeiramente um artista incrível.

Rockey Washington | Já colaborei com Rockey algumas vezes, incluindo em meu selo há alguns anos com “We Are the Sound”, uma música que produzi anos atrás com meu grupo alias “Azimute”. Ele é um MC da velha guarda muito respeitado, baseado em Los Angeles, que abriu shows e se inspirou em artistas como Snoop Dog ou Pharrell. É sempre um prazer trabalhar com ele, ele certamente sabe como incendiar a pista de dança, e “B Urself” é um exemplo disso. Uma peça original onde basicamente trabalhamos no conceito de se expressar através da música e da dança, de ser você mesmo, não importa de onde você vem ou para onde está indo, sem seguir as tendências ou a moda, ou sentir a necessidade de fazer parte de algo.

MC Dreaminah | Conheci Aminah Raysor há alguns anos, acho que foi em 2016 quando estava tocando no festival Strawberry, em Chengdou. Ela morava na China há algum tempo e era a vocalista de uma banda de House ao vivo. Ela chamou minha atenção imediatamente com sua vibe soulful old school e sua energia incrível. Nos demos bem instantaneamente e nos tornamos amigos. Desde então, produzimos algumas músicas com sua voz, uma das quais eu produzi com André Buljat e será lançada em uma compilação de 4 discos de vinil no selo Serialism, celebrando 16 anos do selo, nos próximos meses.

Weg, San Proper | Com o Luca, também conhecido como Weg, e San, temos uma longa história. Luca agora faz parte da gestão, A&R e é parceiro do meu selo Serialism, e somos amigos há mais de uma década. Ele é um produtor e DJ habilidoso, além de ser um verdadeiro irmão para mim. A música é resultado de uma afterparty de 2 dias em minha casa/estúdio em Berlim em 2013, quando San Proper foi convidado para um de nossos eventos na famosa IPSE. Depois de uma festa incrível, ele ficou com Luca e comigo e alguns amigos por alguns dias, e não podíamos deixar de fazer algumas músicas juntos usando sua voz única. O projeto se perdeu em algum HD antigo e só o recuperei alguns anos depois, pensando que, com um pouco de retrabalho, se encaixaria perfeitamente em meu álbum de estreia.

Joe Le Groove | Joe Sarratt esteve ao meu redor por mais de 10 anos, também nos conhecemos quando eu morava em Londres e nos encontramos na cena do leste de Londres, onde ambos costumávamos tocar e sair. Ele é americano, mas mora no Reino Unido há 20 anos. Ele também foi meu manager por anos e agora é meu parceiro em minha nova aventura, uma agência de licenciamento de música para tv, filmes, rádio e etc, que acabamos de abrir entre São Paulo e Londres. Ele é um artista especial, um produtor talentoso, mas também um vocalista versátil que colaborou com gravadoras como Desolat ou Defected, e com artistas como tINI ou Steve Lawler.

E quais são os planos a seguir com a Serialism Records? Como acontece o trabalho de curadoria da label? Você toma decisões sozinho ou Quenum também auxilia nos processos? 

Após o lançamento do meu álbum, temos um projeto incrivelmente empolgante que mal posso esperar para apresentar. É uma obra em 4 discos de vinil, dividida em 2 partes chamada “Nowhere Fast”, que celebra os 16 anos de existência do selo. Será produzida e distribuída por nossos queridos amigos da Yoyaku em Paris. A primeira parte consiste em 2 discos de vinil com uma abordagem mais analógica, com house, breaks e ritmos pesados, incluindo faixas de tINI, Rich NXT, Michael James, Shonky, eu mesmo, Andre Buljat com MC Dreaminah (que também está no meu álbum), Lorenzo Chiabotti, Weg, Jichael Mackson e Vlad Arapasu. A segunda parte é mais minimalista e conta com contribuições de Maher Daniel, Cristi Cons, SpaceTravel, Sublee, Loquace, Denis Kaznacheev, eu mesmo, Akiko Kiyama e um remix de Dan Andrei de uma das minhas músicas que foi lançada recentemente pela Rawax, “Leo”. Mal posso esperar para lançar este projeto, levei mais de 2 anos para reuni-lo.

Normalmente, sou eu quem traz grandes nomes, pois tenho conexões sólidas e amizades construídas ao longo de mais de 20 anos ao redor do mundo. No entanto, na verdade, trabalho com uma equipe distribuída pelo mundo. Como disse acima, o Luca, meu parceiro há algum tempo, está baseado em Berlim e gerencia parte do selo, ao mesmo tempo que me ajuda com o A&R, trazendo constantemente novos talentos e conexões para a mesa.

Hoje você se tornou residente do D-EDGE e criou laços bem fortes com a cena local. Quais outros fatores positivos esses anos por aqui te trouxeram? 

Durante a pandemia, me encontrei com Renato Ratier depois de muito tempo, e decidimos que eu faria parte de sua equipe quando as coisas voltassem ao normal, como residente do clube e como parte da agência de bookings. E aqui estamos, 2 anos depois, orgulhoso de fazer parte da família e grato a ele e à equipe por cuidarem tão bem de mim, divulgando meu nome por todo o Brasil e além. A casa noturna está entre as melhores do mundo e, para mim, é uma fonte contínua de inspiração, dando-me a oportunidade de me expressar sem limites e criar um público local que agora é mais sólido do que nunca. Além disso, adicionamos algumas datas mágicas no Surreal e algumas outras em todo o Brasil, representando a marca, e meu nome começou a ressoar cada vez mais pelo país.

O Brasil é minha casa há 8 anos, tenho um filho nascido aqui, e minha vida está aqui. Eu poderia falar para sempre descrevendo o que este país e seu povo fizeram por mim, não apenas em minha carreira, mas também em minha vida pessoal. Eu amo estar aqui e estou aqui para ficar!

Quando você respondeu nossa pergunta clássica na primeira entrevista, sobre o que a música eletrônica representa em sua vida, você disse que era um “estilo de vida, uma droga e o seu melhor vício”. Essa afirmação ainda se mantém? Obrigado novamente!

Absolutamente sim. Vamos dizer que minha visão da indústria mudou radicalmente, assim como a cena em si, e à medida que estou envelhecendo, minhas prioridades mudaram um pouco. Agora, vejo cada vez mais isso como um negócio além de um estilo de vida, mas a paixão que tenho pela música em si nunca mudará.

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