A Mixordia começou a ser idealizada ainda durante a pandemia, num momento de incertezas sobre o futuro dos eventos e sobre como, ou mesmo se, eles voltariam a acontecer. Na contramão de muitos projetos que cresceram com o retorno das pistas, um grupo de pessoas sempre presente nas festas de música eletrônica underground de São Paulo começou a se perguntar se ainda seria possível criar encontros intimistas, com curadoria autêntica e artistas pouco conhecidos no Brasil, sem abrir mão de estrutura e qualidade.
Daquele período nasceram inquietações que seguem guiando o projeto: por que as festas se tornaram tão parecidas? Por que tantas migraram para o formato de festival? Por que projetos menores não resistem? E por que tanto talento segue invisível, sem espaço para se manifestar? A Mixordia surgiu como resposta a essas perguntas. O próprio nome, mixórdia (palavra em português que define uma mistura confusa de coisas variadas) foi escolhido como um manifesto. Uma espécie de bagunça organizada, disposta a desafiar rótulos e recusar fórmulas. Uma resposta bem-humorada à pergunta que todo DJ já ouviu pelo menos uma vez na vida: “Que tipo de som você toca?”
A curadoria foi, desde o início, o eixo da proposta. Em vez de se apoiar em nomes de grande alcance ou no hype do momento, o coletivo construiu sua reputação em torno de artistas com consistência, profundidade e uma relação genuína com a pista. Os lineups combinam diferentes gerações, sonoridades e vivências. A ideia é simples: construir uma relação com quem frequenta a festa, baseada não na fama de quem está no lineup, mas na certeza de que, independentemente dos nomes, haverá uma experiência verdadeira, pensada com cuidado.
Desde 2023, já passaram pelas cabines da Mixordia nomes internacionais como Magda, Vera, Onur Özer, The Ghost, Giammarco Orsini, Matthias e Bobby, artistas da cena nacional como Rafael Onid, Flo Massé, Javiera Mayer, Ney Faustini, DJ Magal, DJ Mau Mau, Pil Marques, Gartzzea, Insanity, Trajano, Villaça, além dos residentes Tati Pimont, Galvin, Cailloo, Velucci e Nigro. Mais do que bons DJs, a Mixordia valoriza quem se dedica à pesquisa, ao refinamento técnico e à construção de narrativas sonoras com coesão. Pessoas capazes de ler e conduzir a pista, criando atmosferas envolventes.

Além disso, uma das ações mais emblemáticas da festa é o convite, feito logo na entrada, para que cada pessoa cole um adesivo na câmera do celular. Inspirado em práticas de clubs europeus, o gesto funciona como um pequeno ritual de desligamento da contemplação passiva, da ansiedade da auto exibição, do vício do registro e da validação externa. A Mixordia acredita que, aos poucos, isso pode ajudar a transformar o comportamento nas pistas brasileiras. Torná-las mais dançantes, menos julgadoras. Mais presentes. Uma tentativa de resgatar o poder da música eletrônica como cultura e não apenas como entretenimento.
O projeto nasce da consciência de quem o constrói. Seus idealizadores reconhecem os próprios privilégios e tratam isso como parte do processo. Por isso, há um cuidado constante em escutar, aprender e cultivar espaços que sejam, de fato, mais abertos, diversos e generosos. E isso é feito de diversas formas através de ações concretas. Todos os eventos possuem listas free para trans e não-binárias, o staff, do bar à segurança, também é diverso, com pelo menos 50% do time sendo mulheres ou pessoas trans, e há um esforço para passar essas mensagens através da comunicação, tornando o ambiente da festa inclusivo desde o pré-evento.
O coletivo sabe também que, no Brasil, as oportunidades de acesso e desenvolvimento não são as mesmas para todas as pessoas, mas o coletivo não se esquiva dessa realidade. Pelo contrário, assume a responsabilidade de seguir ampliando o diálogo com maturidade, apostando na construção de pontes mais largas, caminhos mais compartilhados e pistas onde mais vozes possam se expressar com liberdade. Por isso estão sempre em busca de parcerias com outras festas e iniciativas, buscando expandir a rede de colaboração e somar para todos os lados.
A ideia de diversidade sempre foi um dos pontos de partida do projeto. Uma pista só cumpre seu papel quando parte de uma premissa clara: ser segura, plural e verdadeiramente acolhedora. Isso não exige concessões estéticas, nem deve comprometer a profundidade musical. A beleza está justamente na soma das diferenças, quando há verdade e aderência com o que está sendo proposto.
A visão artística da Mixordia tem reverberado além do país. Em fevereiro de 2024, o coletivo realizou a primeira edição de uma festa da Trommel na América Latina. Fundado em Londres, a plataforma é uma das referências mais respeitadas da cena europeia, reconhecido por sua curadoria e visão editorial. A escolha da Mixordia como parceira para a ocasião também foi um gesto de reconhecimento e sintonia.
Em novembro do mesmo ano, a Mixordia sediou a celebração dos 25 anos da fabric, um dos clubes mais importantes da história da música eletrônica. A identificação entre os projetos foi imediata: respeito pela música, atenção meticulosa aos detalhes, uma pista engajada e uma atmosfera de comunidade real. Durante a noite, muitos dos envolvidos na equipe do clube londrino expressaram o quanto enxergavam algo especial acontecendo ali, algo que merecia continuidade.

Essa rede de conexões foi viabilizada por pessoas que acreditam no potencial da cena brasileira e dedicam tempo para construir pontes. A produtora e curadora da ToiToi, Isis Salvaterra — brasileira radicada em Londres — teve papel fundamental ao facilitar os encontros entre a Mixordia, a Trommel e a fabric. Um lembrete de que relações verdadeiras, baseadas em respeito e visão compartilhada, seguem sendo o que move a cultura.
“Trabalhar com os meninos da Mixordia é um grande prazer. Pela primeira vez eu encontro, em uma geração nova, os princípios necessários para fazer arte quando se trata de Dance Music. São muitos aspectos que vão além de simplesmente fazer um evento, vai muito, mas muito além. Criar conceitos, curadoria, soundsystem e set up técnico (muito importante pra mim), paixão pelo o que fazemos, respeito, humildade, cuidado não só com os artistas mas com o seu público também, dentre muitos outros. O vinil é o nosso médium por esta razão. Para criar uma experiência espiritual e coletiva muitos aspectos tem que estar sendo trabalhados e eles têm todos, por esse motivo escolhi eles para as colaborações da fabric e da trommel”, explicou Isis.
Aquela noite com a fabric foi especial. Artistas e público compartilharam a sensação de estarem vivendo algo realmente singular. Para quem tocava, o som parecia mais vivo. Bobby, residente da fabric e curador do Houghton Festival, resumiu de forma simples: era uma daquelas noites em que tocar discos realmente soava melhor do que tocar música digital.
Isso não acontece por acaso. Muitos DJs convidados — assim como os residentes da Mixordia — tocam com vinil. Num país onde a estrutura quase nunca favorece esse formato, o coletivo se compromete a criar um ambiente propício para isso. Não é fetiche, purismo, saudosismo, ou chamariz para vender ingressos. É uma escolha, uma linguagem.
Tocar discos exige sensibilidade, atenção e preparo, não só de quem está na cabine, mas de toda a estrutura ao redor. É uma prática que demanda precisão técnica, escuta apurada e um ambiente seguro e confortável. Por isso, o cuidado com o som e com o espaço sempre foi prioridade. Garantir as condições ideais para que o vinil soe como deve soar é parte do compromisso do coletivo com a experiência que se propõe a oferecer.
A estrutura é um pilar importantíssimo. A Mixordia questiona a crença de que o underground precisa ser perrengue ou operar no improviso. Oferecer qualidade e conforto, por outro lado, não é sinônimo de ostentação. É um sinal de respeito. A proposta é garantir uma experiência sensorial completa, onde o som e o espaço estejam à altura da direção artística.
Esse respeito pela música, inclusive, vai além de preferências pessoais ou do formato em que ela é apresentada. Não se trata apenas de tocar vinil, nem de ouvir o que já é familiar ou confortável. Trata-se de manter a escuta aberta, sem julgamento. Reconhecer o valor em diferentes expressões, acolher o inesperado e permitir que o som desafie, surpreenda e transforme.
Desde o início, a Mixordia adotou uma abordagem cuidadosa e orgânica em seu desenvolvimento, baseado em vínculos e alinhamento de valores. O coletivo evita lógicas de expansão acelerada e prioriza o desenvolvimento em conjunto com seu público, artistas e parceiros. Cada edição é tratada como um espaço de experimentação coletiva, resultado da colaboração entre diferentes agentes da cena.
Mais do que promover eventos, a iniciativa busca consolidar uma rede com identidade própria e princípios em comum. Tanto que, na última edição, quando a polícia exigiu a redução do volume às três da manhã, o público permaneceu inteiro. Ninguém foi embora. A pista seguiu firme, dançando até o fim, sustentando o que havia sido construído ao longo da noite.

Com mais duas datas previstas até o fim do ano, em outubro e novembro, o projeto segue seu percurso de maneira orgânica. Para isso, busca alianças com artistas, coletivos e clubes. De pequenos projetos independentes a instituições consolidadas, como o D-EDGE, onde já realizou alguns showcases. O que a move é o desejo de tornar experiências transformadoras mais acessíveis e frequentes na vida de quem ama essa música.
Em pouco tempo, a Mixordia conquistou um lugar relevante na cena brasileira. Mas não quer ser um projeto que desaparece após alguns anos de boa atuação. O objetivo é permanecer. Colaborar com a construção de uma cena mais articulada e profissional. Há uma abundância de artistas incríveis sem espaço e o coletivo enxerga essas pessoas. E, mesmo que não consiga acolher a todos com os poucos eventos que organiza por ano, acredita que, se a cena for mais generosa e coordenada, será possível ajudar, e ser ajudado, a construir algo mais justo, real e duradouro.
No fim das contas, tudo se resume a isso: amor pela música, respeito pelas pessoas e pela pista. Uma mixórdia que, em sua desordem, encontrou uma harmonia própria e cada vez mais necessária na cena atual para construir um futuro melhor.