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A música conecta

15 to Understand | MAYA

Natural do Mato Grosso, MAYA representa uma nova geração de artistas brasileiras que têm construído suas trajetórias com um olhar global, mas sem deixar de lado suas raízes. Hoje ela divide sua base entre Portugal e o Brasil, e nos últimos 18 meses viu sua carreira ganhar uma nova guinada. Consolidou sua projeção internacional tocando em palcos como o World Club Dome (Frankfurt) e Terra Solis by Tomorrowland (Dubai), E1 em Londres, marcou presença também na Ibiza Sonica Radio, além de eventos exclusivos como festas privadas após os eventos da Fórmula 1 em Mônaco e Abu Dhabi.

O reconhecimento veio de forma ainda mais expressiva neste ano, quando foi selecionada para o Future Talent Awards no IMS Ibiza e ainda recebeu o exclusivo Nicole Moudaber Award. Nicole declarou publicamente sua admiração pela artista e o desejo de dividir cabine com ela no futuro. Na produção, a artista estreou pela Systematic Recordings com Uniqueness, faixa que integrou o álbum de 20 anos do selo e alcançou o Top 8 no chart de sua categoria do Beatport. No início de setembro, ela fará parte do catálogo da VIVa MUSiC, de Steve Lawler, lançando um EP em collab com Mário Franca, artista com passagem pela Bedrock.

Agora com uma base internacional sólida, Maya volta os olhos para a expansão de sua presença no Brasil e América do Sul. Nós aproveitamos seu bom momento para convidá-la ao 15 to understand, uma oportunidade para conhecer mais sobre essa talentosa artista brasileira:

Quando a música virou mais que um hobby para você?

Desde muito cedo a música sempre teve uma presença intensa na minha vida, quase como uma extensão de quem eu sou. Comecei a estudar teoria musical por volta dos 8 anos e foi aí que passei a explorar teclados, especialmente o órgão, de forma mais séria, até chegar a tocar em igreja por alguns anos. 

Mas foi mais tarde, com a música eletrônica, que percebi que aquilo não era apenas um passatempo, era um chamado, o meu propósito. A decisão de transformar isso em profissão veio de forma natural, como um processo de escuta interior. E em 2020 eu simplesmente segui o caminho sem hesitar.

Você se enxerga produzindo, tocando e viajando com a música até o fim de sua vida?

Com toda a certeza. A música me move, me transforma e é a minha maior motivação. Além disso, ainda tenho o privilégio de conhecer muitos lugares que de outra forma talvez jamais conheceria. Talvez ao longo dos anos o formato mude. Posso estar mais nos bastidores, compondo músicas ou desenvolvendo experiências imersivas, mas o vínculo com o som é eterno. O palco e o estúdio são territórios onde meu espírito encontra liberdade e me sinto como uma andorinha irrequieta que tem a necessidade de migrar de território de x em x tempo!

O que é mais importante quando se prepara para um show?

Leitura de ambiente e conexão com o público. Nunca levo um set pré-programado. Cada lugar tem uma energia própria, então meu processo começa observando, sentindo. Claro que existe uma curadoria e pesquisa prévia do que acredito que pode fazer sentido para aquele lugar e horário, mas o mais importante é estar presente e aberta para construir uma narrativa coerente com aquele momento. 

Gosto de me movimentar livremente durante o set e, às vezes, até me surpreender com o caminho que ele toma e, claro, que o trabalho do artista anterior pode influenciar as minhas decisões de caminhos a tomar. Tudo flui, nada é estático.

Algum artista ou música já mudou a sua vida? Se sim, qual?

Muitos, de diferentes estilos musicais. Mas tentando ser curta: Björk, Aurora e Jean-Michel Jarre, pela liberdade criativa e coragem estética, sempre foram referências de como é possível ser experimental, ousar e ainda assim tocar as pessoas. 

Também me marcaram muito os sets de artistas como Laurent Garnier, DJ Tennis, D-Nox ou Hot Since 82 no início da minha jornada, foi ali que entendi o poder da narrativa em pista. Kate Bush, Massive Attack, Moby, Asadinho e Sade Adu são outros nomes que mexeram muito comigo pelo seu “je ne sais quoi” artístico. Já como produtores musical dentro da música eletrônica, admiro muito o trabalho do Maceo Plex e Henrik Schwarz (como referências extremas). 

E, arriscando um clichê necessário, não posso deixar de mencionar os pioneiros Kraftwerk, essenciais para tudo que vivemos hoje na música eletrônica, e os mais recentes Daft Punk, que também são uma grande referência pra mim.

Qual o maior desafio que a música já te trouxe?

Ser mulher, negra, brasileira e do interior do Mato Grosso em uma indústria que ainda é dominada por padrões muito específicos. O maior desafio foi não deixar que isso me moldasse negativamente, mas sim transformar essas diferenças em força. Ter paciência também é essencial nessa jornada. 

Aprendi a confiar no meu instinto e a me manter fiel aos meus gostos, acreditar em mim mesma mesmo quando ninguém mais acreditava (além de meu manager) e, acima de tudo, não me deixar cair na tentação de tocar o gênero da moda só para agradar, se isso significasse me desagradar.

A indústria da música vive um momento saudável?

Depende do ponto de vista. A tecnologia democratizou o acesso, o que é maravilhoso. Por outro lado, criou-se uma lógica de números (social media, etc.) que muitas vezes sufoca a arte. E infelizmente, há uma proliferação de pessoas que têm pouco de artista e vivem mais de uma fama momentânea na cena, o que acaba eclipsando talentos em ascensão e até mesmo veteranos. 

Lembro de ter lido recentemente um post do Kevin Yost (lenda do deep house), comentando que estava de novo em primeiro lugar de vendas no Traxsource e, ainda assim, sem gigs. Isso me deixou triste. Apesar da minha idade, me identifico muito mais com um público mais maduro, que coloca talento e qualidade acima do hype. Isso me dá esperança de que ainda existe um nicho que prioriza a arte e de que os mais jovens, com o tempo, também amadureçam nesse sentido.

Fale um pouco sobre o que você considera mais relevante: uma grande ideia ou uma rotina disciplinada de trabalho?

A grande ideia é o ponto de partida, mas sem disciplina ela se dissipa. Criatividade é um músculo, exige constância, pesquisa, escuta. O ideal é o equilíbrio entre intuição e prática. Eu me permito momentos de “caos criativo”, mas tenho uma base sólida de trabalho que sustenta tudo. O desafio é que as constantes viagens em turnê tornam essa disciplina mais difícil. Recentemente fiz 11 países em apenas 8 meses, o que mostrou bem essa dificuldade. Mas acredito que isso também faz parte do jogo e eu estou aqui para jogá-lo!


Qual é o momento ou conquista mais importante da sua carreira até aqui?

Receber o Nicole Moudaber Award, junto com o Future Talent Award no último IMS em Ibiza, foi um divisor de águas. Primeiro por vir de uma artista que admiro profundamente, e depois pelo que simboliza: o reconhecimento de uma trajetória construída com verdade. 

Outro momento marcante foi a minha primeira capa de revista a convite da espanhola SyncBeat Mag e o meu set no Greenvalley, durante o aniversário de 17 anos do clube, onde tive a responsabilidade de abrir a casa e entregar a pista ao Beltran já com milhares de pessoas presentes. 

Foi um desafio construir um set coerente, com tom de boas-vindas e buildup, sem perder minha identidade e mantendo o público aquecido. No final, ver a pista que abri do zero agora lotada e sendo aplaudida por todos foi simplesmente inesquecível.

Como encontrar o equilíbrio entre autenticidade e as tendências da indústria?

Tudo começa na escuta interna. Se você estiver alinhada com sua essência, pode até dialogar com tendências sem se perder. A tendência passa, sua identidade fica. O segredo é filtrar o que ressoa com você e deixar o resto ir. Não sou radical, até existem tracks de gêneros mais em evidência que me agradam, mas acredito que, como na cozinha, o segredo está em saber usar o ingrediente certo sem estragar o prato. Isso que diferencia um grande Chef.

O que traz inspiração de maneira prática e contínua para criação?

Viagens, conhecer novas culturas, o contato com a natureza e também outras formas de arte. Tenho o hábito de colecionar frases, timbres e ideias melódicas que podem futuramente se transformar em músicas. Também gosto de experimentar e me surpreender com os resultados. Vejo o processo criativo como algo que flui entre o sensível e o prático. 

Quando entro no estúdio nunca sei exatamente o que vai sair dali, e isso já começa a se refletir nos meus lançamentos. Eles pouco ou nada têm a ver uns com os outros, e isso me agrada. Detestaria ter apenas uma fórmula.

Ao fim da sua carreira, como você quer que as pessoas lembrem da sua arte?

Como algo que despertou sentimentos e que, de alguma forma, tenha tocado quem ouviu. Quero que as pessoas lembrem de como minha música (seja produção ou sets) as fez sentir, livres, tocadas, felizes ou até nostálgicas e reconectadas com algo dentro delas. Espero que minha arte seja lembrada por tocar o invisível de cada um. Pode soar um pouco filosófico e até clichê, mas é isso mesmo.

Como você descreve a jornada de evolução de seus trabalhos na música do mais antigo ao mais atual?

Eu não vejo que hoje esteja muito melhor do que quando comecei. Tive a sorte de ter um mestre que me orientou muito bem desde o início e herdei dele tanto conhecimento quanto repertório, o que me deu um arranque privilegiado. Foi quase como começar numa Fórmula 1, sem precisar passar pelas etapas anteriores. 

Musicalmente falando, especialmente nos sets, sinto que comecei já em um nível alto (ele me treinou exaustivamente e só avançamos publicamente após estar 100% pronta). As mudanças que percebo ao longo do tempo não são uma evolução no sentido clássico, mas sim leves mutações e nuances de aprimoramento. Na produção, sim, noto que meu trabalho recente está mais elaborado, com mais profundidade e intenção do que os primeiros experimentos em estúdio. 

Qual foi a grande lição que você aprendeu ao longo de sua carreira?

Que não existe atalho melhor do que construir um caminho com verdade. Já vi muitas pessoas se perderem tentando acelerar processos que precisam de tempo para florescer. A grande lição é confiar no processo e não negociar sua essência. Outra coisa importante é que muitos artistas se perdem pela falta de humildade e de respeito com os colegas. Ética profissional é essencial e inegociável.

Como você vê a relação entre sua identidade pessoal e sua identidade como artista?

Eu não separo. A MAYA é uma extensão da Stephanie. Claro que no palco existe uma demanda maior de energia e presença, mas não é uma personagem como Diana Prince e Mulher Maravilha! Tudo o que levo para o palco ou para o estúdio vem da minha vivência e da minha escuta interior. A música é o que eu sou, com ou sem as luzes do palco.

Qual a mensagem principal que você busca transmitir com sua música?

Que é possível dançar e, ao mesmo tempo, sentir. Que a pista pode ser um espaço de diversão, mas também de reconexão e transcendência. Nos meus sets, procuro contar histórias que ultrapassam gêneros musicais. 

Para mim é como uma boa refeição: precisa da entrada, do prato principal e da sobremesa. Um set de um único gênero me cansa. Quanto às produções, ainda estou em evolução, mas sinto que cada vez mais me aproximo de um som que transmite minha mensagem de uma forma mais clara e sensível.

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