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A música conecta

Como o Life is a Loop conduziu a cena brasileira a uma nova era de protagonismo

Por Elena Beatriz em Artigos 29.08.2025

No início dos anos 2000, a música eletrônica brasileira vivia um processo de estruturação para o que ela viria a se tornar nas décadas seguintes. Festas se espalhavam por diferentes regiões, os primeiros festivais de grande porte apareciam e clubes começavam a se consolidar como ambientes de descoberta e referência cultural em diferentes partes do país. Apesar desse crescimento, ainda havia algumas lacunas a serem preenchidas. O formato DJ set parecia limitado diante das expectativas de um público cada vez mais acostumado a experiências de maior impacto visual e performático em outros estilos musicais. Ao mesmo tempo, a sociedade brasileira ainda associava a música eletrônica a estigmas, fosse pela relação com a cultura rave ou pelo olhar conservador em relação às transformações de comportamento que vinham junto com o gênero.

À medida que a cena se transformava, surgiam também novos projetos capazes de refletir esse novo momento. Em meio a esse cenário de expansão, três nomes já reconhecidos em seus percursos individuais encontraram um ponto de convergência. Fabrício Peçanha, DJ gaúcho que desde os anos 90 vinha se afirmando como uma das figuras mais promissoras do país, Leozinho, que chegou a ser reconhecido como “DJ revelação” pela Folha de São Paulo na época, e Rodrigo Paciornik, percussionista e baterista desde os 12 anos, com trajetória e experiência suficientes para em adaptar-se à diversos estilos musicais, decidiram unir forças em um projeto coletivo. O encontro deu origem ao Life is a Loop, criado em 2002, que rapidamente se tornou uma das propostas mais singulares da cena brasileira.

O Life is a Loop, além da junção de três artistas experientes, trouxe um formato que oferecia algo pouco explorado na cena brasileira daquele período. Enquanto Peçanha e Leozinho conduziam os caminhos musicais a partir de suas referências que transitavam entre House e Techno, Paciornik acrescentava uma camada percussiva construída em tempo real, em diálogo direto com cada faixa. Esse recurso alterava a dinâmica do set, que escapava da linearidade habitual e dava à performance uma dimensão de improviso e surpresa que, para o público, criava uma percepção de proximidade e movimento que até então era pouco comum na percepção do público em festas de música eletrônica. 

A apresentação do som em si já colocava o Life is a Loop em um lugar de autenticidade, entretanto o projeto passou a tratar também o aspecto visual como parte integrante de sua proposta. Ao incorporar VJs, cenografia e iluminação na experiência, o trio criou uma abordagem distinta no Brasil, aproximando a cena nacional de referências que ganhavam força em grandes centros internacionais, mas com uma assinatura construída a partir da química entre os três artistas. Perante o grande público, passou-se a absorver a ideia de experiência semelhante a ir a um show de uma grande banda e isso foi decisivo para aproximar a música eletrônica de novos fãs. 

Ao passo que consolidavam esse formato, o Life is a Loop passou a ganhar notoriedade e a adaptar-se a diferentes contextos: clubs, festas independentes e eventos de grande escala, a exemplo do Planeta Atlântida, Skol Sensation e SWU, que começavam a consolidar a música eletrônica como parte do calendário cultural do país, difundindo o formato que haviam criado e os aproximando de novos públicos para além de nichos específicos. Essas conquistas ampliaram a visibilidade do grupo e reforçaram a autoconfiança da cena brasileira em se apresentar com protagonismo diante de audiências cada vez maiores.

Entre os palcos que marcaram a trajetória do trio, alguns se tornaram marcos da própria cena. No Warung Beach Club, as apresentações em Itajaí renderam alguns dos momentos mais lembrados da história da casa, se entrelaçando com a consolidação do conceito do espaço como um dos propulsores da música eletrônica no país. A combinação entre discotecagem, percussão e recursos visuais resultou em noites que ajudaram a moldar a aura lendária da pista voltada para o nascer do sol. Outro marco importante foi a gravação do DVD do trio na antiga Space Balneário Camboriú, durante a festa Ibiza Calling, em janeiro de 2013. O registro consolidou a memória do projeto e reforçou a condição do Life is a Loop como referência para toda uma geração.

O Life is a Loop marcou uma etapa em que a cena brasileira passou a enxergar em si mesma a capacidade de propor formatos originais, sem depender de validações externas para legitimar sua relevância. Sua trajetória não se limita à boas memórias de apresentações inovadoras em relação à época em que atuaram, mas evidencia que a consolidação de uma cena passa também pela criação de experiências próprias, capazes de abrir novas perspectivas. Nesse sentido, o projeto permanece como referência pelo que representou e pelo impulso que ofereceu à expansão criativa e à autenticidade dentro da música eletrônica brasileira.

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