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A música conecta

Como a especulação imobiliária ameaça a cultura clubber no Brasil e no mundo

Por Elena Beatriz em Artigos 15.01.2026

Há uma mudança simultânea envolvendo a vida noturna em diversas partes do mundo. Ela não se manifesta por divergências estéticas, alterações de público ou transformações musicais evidentes, mas pela substituição progressiva dos ambientes onde a cultura acontece. Em muitas cidades, casas noturnas, bares e espaços similares passaram a ser compreendidos como estruturas para uso temporário do ambiente urbano, tolerados enquanto não interferem nos projetos de valorização que se desenham ao redor. 

Aqui, a especulação imobiliária entra em jogo. Trata-se de um processo no qual investidores adquirem imóveis não para utilizá-los de forma contínua, mas para capturar ganhos decorrentes de sua valorização futura. Nesses casos, o rendimento esperado não está associado ao que o espaço produz social ou culturalmente no presente, mas ao aumento de seu preço em função de transformações urbanas, novos empreendimentos no entorno ou mudanças no perfil econômico da área. À medida que imóveis passam a ser tratados prioritariamente como ativos financeiros, práticas culturais associadas à vida noturna começam a ser percebidas como inconvenientes.

Uma contribuição importante para compreender esse fenômeno vem da leitura antropológica de Caroline Humphrey, no artigo Real Estate Speculation: Volatile Social Forms at a Global Frontier of Capital, no qual a autora descreve a especulação como uma “forma social” volátil, guiada por fronteiras de capital e por projeções de futuro que reordenam relações locais. O espaço urbano deixa de ser sustentado pela continuidade das atividades e vínculos sociais que abriga e passa a ser mantido em suspensão. Ele pode ser deliberadamente subutilizado, esvaziado ou pressionado por aumentos de custo ao ponto que os usos atuais se tornem inviáveis, até que seja substituído por um uso alinhado aos interesses financeiros daquele momento.

A gentrificação surge como consequência direta desse mecanismo. O aumento gradual de aluguéis, a elevação dos custos operacionais e a mudança no perfil de moradores e serviços produzem um ambiente cada vez menos viável para práticas culturais independentes. A cultura clubber, cuja história está ligada à ocupação de espaços como galpões, porões e zonas urbanas em transição, encontra obstáculos quando esses mesmos espaços passam a ser reconfigurados para usos residenciais de alto padrão ou para consumo turístico. Assim, surge o paradoxo: a presença cultural contribui para tornar uma área desejável e o resultado desse processo acaba inviabilizando sua continuidade.

Na Europa, esse movimento vem sendo debatido sob o termo clubsterben (a “morte dos clubs”), utilizado para descrever o fechamento sistemático desses espaços em função da pressão imobiliária. Em Berlim, cidade frequentemente citada como referência internacional de vida noturna, relatórios recentes da Clubcommission indicam que uma parcela significativa das casas noturnas passou a considerar o encerramento de atividades após 2023, em um contexto marcado por aumentos abruptos de aluguel, incertezas regulatórias e disputas por uso dos imóveis. A leitura é a de que o fechamento deixou de ser um evento isolado e passou a configurar um risco estrutural para a permanência da cena.

O impacto ultrapassa a dimensão econômica. Quem compreende a noite sabe que clubs sempre funcionaram como espaços centrais de articulação social, especialmente para comunidades LGBTQIAPN+, mulheres, negros, artistas independentes e circuitos criativos que encontram nesses ambientes condições de expressão e reconhecimento difíceis de reproduzir em outros formatos. O caso do SchwuZ, um dos clubs queer mais tradicionais de Berlim, expôs esse problema de forma clara ao tornar pública sua crise financeira e o encerramento das atividades. O fechamento de espaços históricos voltados a essas comunidades atinge redes de cuidado, memória coletiva e espaços de proteção social, cuja importância não pode ser medida apenas por métricas de mercado. 

Esse sistema também se apoia em uma reorganização simbólica da forma considerada legítima de viver a cultura noturna. Nos últimos anos, a mídia cultural passou a valorizar e promover formatos alternativos de fruição, apresentados como soluções contemporâneas e sustentáveis para a vida nas cidades. A proliferação de coffee parties, por exemplo, ilustra esse conceito. Embora carregue elementos estéticos da cultura clubber, esses encontros reduzem conflitos associados à noite tradicional: não interferem na rotina residencial e se encaixam com facilidade em áreas valorizadas. Assim, a cultura se acomoda em formatos considerados mais aceitáveis dentro do processo de valorização urbana.

Outro exemplo é a retomada do trabalho presencial como política urbana implícita. A expansão do home office, intensificada após a pandemia, alterou profundamente a ocupação de áreas centrais e a dinâmica de edifícios corporativos em diversas cidades. Nesse cenário, o incentivo ao retorno ao trabalho presencial passou a ser defendido como estratégia de produtividade, mesmo marcando um mecanismo de reativação econômica, de indução de comportamentos considerados mais compatíveis com os interesses em jogo e sustentação do valor imobiliário em regiões centrais. À medida que áreas antes esvaziadas voltam a ser disputadas por interesses residenciais e corporativos, práticas culturais associadas à noite passam a enfrentar maior pressão regulatória e menor tolerância. 

A intensificação do turismo urbano adiciona outra camada a esse processo. Em cidades onde o turismo se torna eixo central da economia, a vida noturna tende a ser reorganizada como produto padronizado, voltado à circulação rápida e ao consumo previsível. Bairros historicamente associados à diversidade cultural passam a ser reconfigurados como zonas de entretenimento higienizadas, enquanto atividades que demandam experimentação e fricção enfrentam restrições crescentes. Isso é a história sendo reescrita e o comportamento da população sendo conduzido ao senso comum, pois quando a arte e novas formas de expressão são sufocadas, é também uma maneira de tapar os olhos da sociedade para novas formas de enxergar o mundo. 

Estudos sobre governança da noite apontam que o conflito raramente se limita a questões de licenciamento ou convivência; ele reflete uma disputa mais ampla sobre quem tem legitimidade para permanecer em um espaço quando ele se torna altamente rentável. Neste contexto, algumas cidades passaram a reconhecer esse desequilíbrio e buscar respostas institucionais. A criação de figuras como Night Czar, em Londres, e do Night Mayor, em Amsterdã – ambos possuem a função de mediar e defender a vida noturna da cidade, atuando como ponte entre o governo municipal, empresários, residentes e a cultura noturna – , representou uma tentativa de articular políticas voltadas à proteção da vida noturna. 

Em 2025, a Night Council de Barcelona colocou em pauta o estudo da adoção de mecanismos inspirados no princípio do Agent of Change, que atribui a novos empreendimentos a responsabilidade por mitigar impactos sobre atividades culturais preexistentes, representando tentativas de equilibrar desenvolvimento urbano e preservação cultural. Ainda assim, essas iniciativas encontram limites claros diante de grandes projetos de reurbanização. O caso do Corsica Studios, que anunciou seu fechamento, em meio a um amplo processo de desenvolvimento no entorno, ilustra como mesmo espaços culturalmente consolidados podem ser encurralados quando o valor imobiliário passa a prevalecer.

No Brasil, embora o contexto regulatório apresente diferenças, a dinâmica é semelhante. Em cidades como São Paulo, processos de requalificação urbana transformaram bairros historicamente associados à vida noturna em áreas engessadas. A Rua Augusta é um exemplo emblemático dessa transformação. Ao longo das últimas décadas, a região passou por sucessivas mudanças no perfil de ocupação, com aumento de aluguéis, substituição de estabelecimentos independentes e uma progressiva padronização da oferta noturna. O que antes funcionava como espaço de encontro entre diferentes cenas e grupos sociais passou a conviver com pressões comerciais e imobiliárias que alteraram profundamente sua configuração cultural.

O litoral de Santa Catarina oferece um exemplo particularmente elucidativo. A valorização acelerada da região, impulsionada por empreendimentos residenciais de alto padrão e pelo apelo turístico, criou um ambiente no qual a permanência de espaços culturais se tornou progressivamente inviável. O anúncio do encerramento das atividades do Warung Beach Club se insere nesse contexto. A casa noturna, que por mais de duas décadas exerce papel central na consolidação da cena eletrônica no Sul do Brasil, será substituída por um novo empreendimento imobiliário de luxo. 

A transformação do urbano em produto coloca a cultura clubber em posição de fragilidade estrutural, já que sua forma de funcionamento dificilmente se ajusta a modelos especulativos orientados por maximização de retorno. Diante desse cenário, cresce o debate sobre a necessidade de reconhecer a vida noturna como parte integrante da infraestrutura cultural das cidades, passível de planejamento, mediação institucional e proteção pública. Propostas como a incorporação de zonas culturais em planos diretores, o uso de instrumentos fiscais para desestimular retenção especulativa de imóveis e o reconhecimento de práticas noturnas como patrimônio imaterial surgem como caminhos possíveis, ainda que complexos.

Cidades que permitem o desaparecimento sistemático de seus espaços culturais, de expressão e de encontro tendem a se tornar menos diversas, menos interessantes e menos capazes de sustentar formas plurais de vida. A questão que se impõe não diz respeito apenas ao fechamento de clubs específicos, mas ao modelo de sociedade que se consolida quando o valor monetário de um ambiente passa a se sobrepor às experiências que nele se constroem.

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