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A música conecta

Estamos contaminados pelo que ‘dá resultado’. E isso é grave

Por Elena Beatriz em Editorial 17.03.2026

Em algum momento, parte significativa da música e da arte passou a confundir circulação com valor, desempenho com relevância e reconhecimento imediato com consistência cultural. A troca não aconteceu de uma vez, tampouco pode ser atribuída a um único agente, mas seus efeitos estão cada vez mais visíveis. Basta observar com atenção o comportamento recente de boa parte dos artistas, eventos, gravadoras, canais de imprensa e estratégias de comunicação para perceber a extensão do problema: percebe-se uma priorização de decisões guiadas menos pela potência de uma ideia ou de uma visão artística, e mais pela expectativa daquilo que já demonstrou funcionar antes.

O fenômeno não é recente. Já nos anos 40, o filósofo Theodor Adorno discutia a tendência da indústria cultural em privilegiar estruturas reconhecíveis, capazes de facilitar consumo e circulação. Em textos como On Popular Music (1941) e Dialectic of Enlightenment (1944), argumentava que meios de comunicação de massa, especialmente rádio e entretenimento popular, produziam uma variedade superficial de obras, enquanto aquilo que aparecia como novidade apenas reforçava padrões recorrentes de produção e consumo, tornando a experiência progressivamente mais homogênea e facilmente assimilável. Deste modo, aquilo que era novo não passava de um velho conhecido. 

Ainda que o apontamento de Adorno tenha sido formulado em um contexto muito diferente do atual, sua observação continua útil para compreender certos movimentos contemporâneos. Quando a cultura privilegia aquilo que já é facilmente reconhecido, propostas que se afastam desse repertório passam a encontrar maior dificuldade para circular. Assim, a criatividade deixa de ser apenas uma força de expansão cultural e passa, em alguns casos, a ser percebida como algo estranho ou deslocado, perdendo parte de sua capacidade de provocar curiosidade e descoberta.

Ao longo da história da música eletrônica, muitos dos momentos que hoje reconhecemos como transformadores nasceram justamente da recusa em seguir caminhos já validados. Em Chicago, durante os anos 80, artistas como Frankie Knuckles e Ron Hardy estavam longe de reproduzir aquilo que as rádios consideravam seguro. O mesmo pode ser dito sobre Detroit, onde Juan Atkins, Derrick May e Kevin Saunderson desenvolveram uma sonoridade profundamente ligada à imaginação futurista daquela geração e que, naquele momento, parecia distante do gosto dominante. Na Inglaterra, o Jungle e o Drum’n’Bass surgiram de contextos sociais específicos e de experimentações que não buscavam aprovação imediata, mas que refletiam experiências urbanas e culturais. Cada uma dessas cenas carregava referências, trajetórias coletivas e relações singulares, que não produziam apenas estilos musicais, mas também maneiras específicas de pensar e construir comunidades.

Essa dimensão cultural ajuda a entender por que a música eletrônica sempre foi mais do que um conjunto de estilos musicais, festas ou seus representantes. Em sua essência, ela deve funcionar como espaço de elaboração coletiva, no qual comunidades encontram formas próprias de expressão, convivência e pertencimento. É também um ambiente onde repertórios culturais se cruzam, novas sensibilidades são testadas e criadores possuem margem para experimentar sem a necessidade de responder imediatamente a expectativas externas.

Nos últimos anos, entretanto, esse equilíbrio começou a se alterar de maneira mais perceptível. A presença dominante de plataformas digitais e métricas de visibilidade passou a influenciar não apenas a circulação da música, mas também a maneira como muitos projetos são concebidos. Em teoria, essas plataformas ampliaram o acesso à produção cultural e democratizaram a possibilidade de distribuição. Artistas independentes ganharam ferramentas para alcançar públicos antes inacessíveis e cenas locais passaram a dialogar com audiências internacionais de forma muito mais direta.

Ao mesmo tempo, esse ambiente introduziu novas formas de pressão sobre a criação artística. Sistemas de recomendação, métricas de engajamento e formatos de conteúdo passaram a favorecer determinadas dinâmicas de visibilidade. Produções que se aproximam de referências já familiares ou que conseguem gerar resposta imediata tendem a alcançar maior visibilidade. Aos poucos, essa dinâmica começa a influenciar também o próprio processo criativo. Agentes culturais passam a considerar não apenas aquilo que desejam desenvolver, mas também aquilo que possui maior probabilidade de visibilidade.

Em estudos sobre a denominada plataformização da cultura, autores como David Nieborg, Thomas Poell e Shosana Zuboff apontam que plataformas digitais não apenas distribuem cultura, mas passam a influenciar também as condições em que ela é produzida e valorizada, alterando o comportamento de quem cria e de quem consome. O sociólogo Andreas Reckwitz descreve um fenômeno que vai de encontro a esse conceito, chamado de sociedade da singularidade. Segundo ele, a cultura contemporânea, que encontra-se em fase de saturação, passou a valorizar cada vez mais aquilo que se apresenta como único, autêntico ou excepcional. Nesse contexto, artistas, projetos e experiências são constantemente pressionados a demonstrar singularidade. O paradoxo é que, à medida que todos buscam se diferenciar, acabam recorrendo a estratégias semelhantes de distinção e o resultado é um ambiente em que a originalidade se transforma em novo padrão.

Essa tendência não afeta apenas a diversidade estética. Ela também impacta o papel do pensamento crítico dentro da cultura. Se a produção artística passa a se orientar principalmente por expectativas de aceitação, o campo cultural corre o risco de se tornar progressivamente mais uniforme. Ideias que poderiam provocar questionamento ou deslocamento acabam encontrando menos espaço para circular. O resultado pode ser uma esfera cultural que, embora abundante em quantidade, apresenta menor densidade em termos de diferença.

O ambiente descrito por Byung-Chul Han em A Sociedade do Cansaço ajuda a compreender esse aspecto. Em vez de um sistema que impõe limites claros à produção cultural, a contemporaneidade se organiza em torno de uma exigência permanente de desempenho. O sujeito criativo passa a lidar não apenas com o desenvolvimento de uma obra, mas também com a necessidade constante de demonstrar atividade, presença e relevância, restando cada vez menos espaço para experimentação.

Diante desse cenário, surge uma pergunta inevitável: de quem é a responsabilidade por esse processo? Seria confortável atribuir tudo às plataformas digitais ou aos algoritmos que organizam grande parte da circulação cultural contemporânea. Sem dúvida, esses sistemas exercem influência profunda sobre a maneira como músicas, projetos e ideias ganham visibilidade e como o público entra em contato com novos conteúdos. No entanto, limitar a análise a esse fator significaria ignorar o papel desempenhado pelos próprios agentes culturais que participam desse ambiente.

Artistas, promotores, selos, curadores e veículos de comunicação também tomam decisões constantemente. Em um cenário marcado por competição intensa, instabilidade econômica e excesso de oferta cultural, recorrer ao que já demonstrou funcionar pode parecer uma escolha racional. O problema surge quando essa estratégia deixa de ser apenas uma adaptação circunstancial e passa a orientar grande parte das decisões dentro do campo cultural.

Quando isso acontece, o espaço para caminhos menos previsíveis se reduz gradualmente. A cultura continua expandindo a produção de músicas, eventos e projetos artísticos e iniciativas seguem aparecendo, mas muitas dessas propostas passam a se organizar em torno de referências muito próximas entre si. O resultado não é a ausência de produção, mas uma cultura mais homogênea e acinzentada.

É preciso lembrar que culturas vivas dependem da existência de caminhos inesperados — espaços onde ideias ainda frágeis podem amadurecer antes de serem plenamente assimiladas. Muitos dos movimentos que hoje parecem naturais surgiram em momentos de incerteza, quando artistas e comunidades exploraram caminhos que ainda não ofereciam garantia de reconhecimento imediato.

Aqui, a curadoria e a crítica voltam a ganhar importância. Em um ambiente que tende a privilegiar aquilo que já circula com facilidade, ampliar o campo de atenção torna-se uma tarefa fundamental. Observar processos em desenvolvimento, acompanhar trajetórias ainda em formação e reconhecer propostas antes que elas se tornem consenso ajuda a preservar a diversidade necessária para que a cultura continue se transformando.

Talvez a questão mais desconfortável seja reconhecer que sistemas culturais raramente mudam sozinhos. Plataformas seguirão operando de acordo com seus próprios interesses, mercados continuarão buscando eficiência e estruturas de visibilidade continuarão a favorecer aquilo que já demonstrou retorno. Isso significa que qualquer deslocamento real dificilmente virá das engrenagens mais consolidadas desse sistema, mas das escolhas feitas dentro do próprio campo cultural e por quem tem vontade de movimentá-lo.

No Alataj, entendemos que acompanhar a música eletrônica também implica assumir essa responsabilidade: olhar com atenção para aquilo que ainda está se formando, registrar processos antes que se tornem evidentes e resistir à tentação de reduzir a cultura apenas ao que já se propaga com facilidade. Porque quando toda decisão cultural passa a ser guiada apenas por aquilo que já demonstrou funcionar, o risco não é apenas a perda de originalidade, mas que a própria cultura comece a perder sua capacidade de imaginar e criar.

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