Segunda-feira, 13 de agosto de 2018. Era quase impossível permanecer na pista principal do DC-10 durante mais uma festa da Circoloco. Estávamos no auge do verão europeu e, seguindo o script da festa, a pista parecia um formigueiro. Estava tão quente que você mal precisava cumprir qualquer “protocolo” para alterar seu estado de espírito. Quase como uma peripécia da ciência, eu estava doida por osmose. Pudera: o line-up daquela noite renderia assunto por meses, e se a música em si já desempenha um ótimo papel entorpecente, imagina com sensação térmica de 50 graus.
Em um ato de amor-próprio, abandonei a sala vermelha e decidi dar um respiro na Pista 2. Poucos passos adentro e eu já sabia que a história seria diferente ali. No som, uma melodia intensa, beirando certa melancolia, e um grave totalmente vibrante, cortado com precisão, me chamaram atenção. Eu suspirei e falei: “ok, Mano, vamos nós”. Quantas vezes você, por uma questão de sobrevivência na pista, muda o roteiro e acaba completamente surpreendido? Pois é. Essa troca de script foi tão exuberante que eu nem saberia categorizar tudo o que aconteceu entre os pontos que ligam House e Techno na criação desse personagem.
Niall Mannion, como Mano Le Tough é conhecido, é originalmente da Irlanda. Naquelas terras e em tempos pré-2010, ele se aventurava com sua banda de electro chamada Hang Tough — que mais tarde daria origem ao seu pseudônimo. Instigado pela música, não demorou muito para a veia artística pulsar mais alto e o jovem prodígio fosse em busca de oportunidades mais consistentes em uma terra que simboliza esperança para a dance music. Claro, estamos falando de Berlim. Warhorn, sua primeira track, viria tempos depois, e nomes como Tensnake e Prins Thomas surgiriam ali para abrir caminho. Era como se ele decidisse fazer justamente o mais difícil: nadar contra a maré do techno que conduzia a cidade. Ousado ou perspicaz, foi exatamente essa a propulsão que o levou além.
De fato, o próprio artista — como todo bom artista — não gosta de se categorizar, nem de se limitar. Não é sobre o quê, e sim sobre como. Alguma coisa é meio techno e aí vem o house, disco, acid, bips perturbadores, sons espaciais que ora se revelam progressivos, ora trazem melodias que te atravessam no meio. Em alguns momentos você ficará imerso em introspecção, para depois elementos mais secos e elétricos rasgarem tudo e reacenderem o groove. Como um maestro, ele condensa o todo e aplica as doses com precisão.
E nós aqui, com uma baita herança cultural, sempre tivemos apreço pela versatilidade e pelo dinamismo. Se você já esteve com ele nas pistas, sabe que não haverá uma jornada lógica, mas é exatamente ali que mora a coesão de poucos seres que vagam através de ondas sonoras. “Significa muito para mim tentar me conectar com o ouvinte em um nível mais profundo e adicionar algo às suas vidas que seja mais do que um momento de mãos no ar às 5h da manhã em um club”, disse o artista em uma entrevista. Talvez esteja aí uma chave importante para entender por que seu nome segue despertando tanta identificação por aqui.
Seu LP de estreia, Changing Days, lançado em 2013 pela Permanent Vacation — selo que é quase uma segunda casa para ele — foi aclamado pela crítica e conquistou novos seguidores com sua originalidade emocionante. Dois anos depois, Trails, com a mesma assinatura, mostrou com precisão o equilíbrio que ele atinge entre ritmos marcados para a pista e produções ambientais que possibilitam uma experimentação sonora fora dos circuitos mais convencionais. Há, sim, um teor emotivo, mas curiosamente isso não ressoa de forma sentimentalista. Você acaba mergulhando em algum momento e nem percebe exatamente o que aconteceu. Essa riqueza musical se dá através de um cara experimentador: Mano toca — mal, segundo ele — guitarra, baixo, teclado e bateria.
Quando veio ao Brasil pela primeira vez, em 2013, teve quem viveu momentos assim com ele, já que em sua estreia por aqui o artista andou fazendo até live act com bateria em algum after. Aliás, essa passagem foi algo que marcou seu nome em solo brasileiro. Quem contou mais detalhes foi Eduardo Ramos, que na época trabalhava com a turma da Gop Tun e fez o tour management do artista. Segundo ele, Mano é um cara extremamente centrado em seu ofício, sem estrelismos e sem dar trabalho. Tanto na edição de um ano da Gop Tun quanto na gig no Warung Beach Club, ele manteve o foco em trabalhar: um cara acessível, sério e totalmente musical.
Eduardo mencionou algo que o marcou naquela época: o efeito que o artista causou no pistão do Warung quando tocou o remix de Carl Craig para Sound of Silver, do LCD Soundsystem. Foi o clássico momento do pistão vir abaixo. E eis aqui um ponto a ser levado em consideração: Mano Le Tough tem uma capacidade muito única de preparar momentos como esse. É quase uma condução hipnótica que deságua em um instante familiar e te conecta 100% com ele, o que realmente vai muito além das mãos pra cima.
Essa primeira noite de Mano no Warung foi um daqueles marcos da história do club e é muito comentada pelos frequentadores do club até hoje, algo que consagrou o artista nas vindas subsequentes, fazendo com que o público estivesse realmente aberto a experimentar e a se dar tempo para entender a complexidade de seu som. No club da Praia Brava, Mano Le Tough construiu uma popularidade que pode ser considerado um fenômeno raro para artistas longe do mainstream como ele. Tal popularidade culminou em diversas apresentações memoráveis, incluindo um showcase sold out de sua gravadora maeve, algo totalmente surpreendente dada a complexidade do som apresentado pelo artista e gravadora.
Mano mantém-se fiel à sua fórmula sônica, mas é extremamente versátil em suas seleções e por isso consegue percorrer camadas com dinamismo, sem se distanciar da própria essência. A verdade é que essa percepção caminha sobre uma linha muito fina e sensível, que verbalmente pode até ser decodificada por quem lê, mas muito mais eficiente seria ouvi-lo tocar.
Neste feriado de Páscoa, Mano chega novamente ao país para duas apresentações: nesta quinta-feira (02) no Matiz, e sábado (04) no Warung, fazendo sua última gig antes do fechamento oficial do templo. Ótima oportunidade para reacender memórias e abrir caminhos para novas descobertas.