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A música conecta

“Existe muita pressa para fazer a música acontecer”: a visão de Berny sobre a cena atual

Por Marllon Eduardo Gauche em Notes 14.05.2026

Com quase 20 anos de estrada, Berny começou a construir sua carreira em uma época em que a música eletrônica ainda não girava em torno de algoritmos. Uma época em que os sets eram construídos lentamente, os clubs funcionavam como espaços de descoberta e uma faixa não precisava atingir seu ápice nos primeiros segundos para funcionar na pista. Depois de acompanhar de perto todas essas mudanças ao longo dos anos, o artista italiano percebe hoje uma cena bem diferente daquela em que começou — e decidiu transformar esse desconforto em combustível para a nova fase da IDWT, gravadora que ele fundou em 2021 ao lado de Kisk.

“Existe muita pressa para fazer a música acontecer”, comenta Berny ao refletir sobre o atual cenário do indie dance e da música eletrônica de maneira geral. Para ele, uma parte importante das produções atuais perdeu justamente aquilo que fazia a experiência da pista ser mais imprevisível: a construção gradual, os grooves hipnóticos e a sensação de jornada. “Hoje muitas tracks parecem apressadas demais, curtas demais, sem aquele caminho mental que a música precisava ter”, resume.

Essa percepção acabou influenciando diretamente o reposicionamento da IDWT nos últimos meses. Criada inicialmente como um selo para lançar músicas alinhadas ao gosto pessoal de Berny e sem tentar se encaixar no som mais óbvio do mercado, a label passou a assumir uma postura ainda mais radical na sua curadoria. Ao invés de seguir o que estava funcionando nos charts, a proposta passou a ser justamente encontrar músicas que escapem da lógica imediatista que domina grande parte da produção musical atual.

E uma das práticas mais curiosas da gravadora ajuda a entender bem essa visão. Segundo Berny, é comum que ele peça aos artistas demos inacabadas, faixas esquecidas em HDs antigos ou ideias que talvez nunca fossem lançadas oficialmente. “Sempre procurei músicas fora do convencional”, explica. “Muitas vezes as melhores ideias ficam abandonadas porque parecem estranhas demais, lentas demais ou pouco comerciais para o mercado atual.”

Essa busca por atmosferas menos óbvias também ajuda a explicar por que a IDWT trabalha exclusivamente com músicas originais, sem remixes, e mantém uma identidade visual artesanal, com posters desenhados manualmente por Kisk. “A label é meu espaço de liberdade”, afirma Berny. “É onde meu gosto musical e minha visão artística encontram a música que eu realmente escuto e toco nos meus sets.”

A própria trajetória do artista ajuda a entender isso. Antes da IDWT, Berny construiu uma carreira sólida dentro do underground sem seguir o caminho mais previsível da indústria. Ao longo dos anos, passou por clubs renomados como Fabric, Ministry of Sound, WOMB e Sisyphos, sempre mantendo uma relação muito mais ligada à seleção musical do que à performance em si. “Venho de uma época em que DJs mantinham a cabeça baixa nos decks”, comenta. “Nunca tentei impressionar a pista. Meu objetivo sempre foi apresentar músicas que as pessoas não esperam.”

Esse pensamento também aparece na forma como Berny enxerga seus próprios sets. Musicalmente, sua identidade transita entre indie dance, tech house e referências de deep, tribal e balearic, mas quase sempre guiada por uma preocupação narrativa. Ele afirma nunca ter sido obcecado por tocar apenas lançamentos recentes e prefere trabalhar a pista de maneira gradual, construindo atmosferas ao longo do tempo. “Nunca tive medo de não fazer as pessoas dançarem”, explica. “Gosto de sets longos, onde consigo contar uma história.”

Hoje, mais do que entrar na disputa por atenção que domina o mercado, Berny está mais interessado em consolidar a IDWT como um ambiente de risco criativo e liberdade artística dentro da cena eletrônica contemporânea. “Quando grandes DJs mainstream escutam nossos lançamentos e respondem ‘isso não é para mim’, honestamente, isso nos conforta”, diz. “É um sinal de que provavelmente estamos fazendo a coisa certa.”

O próximo capítulo dessa nova fase da IDWT deve continuar aprofundando justamente essa visão de curadoria defendida por Berny e Kisk, com novos lançamentos e colaborações previstas para os próximos meses. Mais informações sobre os próximos releases da label devem ser anunciadas em breve.

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