Santa Catarina tem uma das histórias mais expressivas da música eletrônica brasileira, mas ainda não transformou essa força em um projeto turístico à altura do que construiu. Há cerca de duas décadas, parte do litoral catarinense deixou de ser apenas um destino associado à praia e verão para ocupar um lugar relevante na rota de quem viaja para ouvir música, frequentar clubs, acompanhar artistas internacionais e viver experiências ligadas à pista. Essa relação não nasceu de uma campanha pública estruturada, nem de um plano integrado entre municípios, secretarias, hotelaria e agentes culturais. Ela foi construída principalmente pela atuação de produtores, artistas, marcas e públicos que fizeram da região um dos polos de música eletrônica mais reconhecidos do país.
A região reúne características difíceis de encontrar em conjunto: cidades turísticas próximas entre si, forte temporada de verão, estrutura hoteleira, paisagem litorânea, público regional consolidado, espaços de grande porte e uma tradição de pista que atravessa diferentes gerações. Ainda assim, esse capital cultural parece tratado como um efeito colateral da iniciativa privada, e não como uma frente estratégica de desenvolvimento cultural, econômico e turístico. O Estado colhe parte dos resultados dessa cena, mas ainda não criou instrumentos para medir, proteger e ampliar seu impacto.
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Segundo a Embratur, em 2025 Santa Catarina recebeu cerca de 741.401 turistas estrangeiros, alta de 49,64% em relação a 2024, com Argentina, Chile, Uruguai e Paraguai entre os principais mercados emissores. Ou seja, o estado vive uma fase de expansão no turismo internacional, mas uma das áreas em que possui grande reputação ainda aparece pouco articulada dentro dessa estratégia.
A música eletrônica catarinense já existe como prática, história e direcionamento para a economia. Temos alguns exemplos sólidos como o Greenvalley, em Camboriú, que consolidou um dos cases mais fortes dessa história ao receber grandes artistas internacionais, criar eventos de grande escala, desenvolver marcas próprias e transformar a cidade em ponto de chegada para uma parcela expressiva do público de música eletrônica no Brasil. Ao longo dos anos, nomes como David Guetta, Armin van Buuren, Carl Cox, Alesso e Nicky Romero passaram pelo club, ajudando a inserir Camboriú em um circuito de alto alcance dentro da dance music.
O Surreal Park ampliou essa proporção. Também instalado em Camboriú, o espaço se apresenta como um superclub com experiência próxima de festival, seis palcos, combinando música, estrutura ao ar livre e eventos de grande porte. Nos últimos anos, o Surreal recebeu festivais, curadorias com grandes nomes, coletivos independentes e artistas capazes de atrair públicos de outras cidades e estados, fortalecendo a ideia de Santa Catarina como destino possível para experiências prolongadas de música eletrônica.
O Warung ocupa outro lugar nessa construção. Aberto em 2002, na Praia Brava, o club ajudou a formar uma relação entre música, praia, arquitetura e curadoria. Sua relevância não está apenas nos artistas que passaram por lá, mas na forma como ajudou a educar público, fortalecer o House Progressivo no Brasil, criar um senso de pertencimento em torno da pista e projetar o litoral catarinense como lugar de experiência musical. Durante mais de duas décadas, o Warung foi um ponto de peregrinação para uma parte importante da cena eletrônica nacional, um club que muitas pessoas não frequentavam por estar casualmente na região, mas para onde viajavam com o objetivo de viver uma noite específica.
O encerramento de suas atividades na Praia Brava não pode ser lido apenas como o fim de uma casa noturna. Segundo veículos locais, o espaço dará lugar a um empreendimento imobiliário de luxo, um retrato preciso da tensão entre cultura noturna, valorização urbana e ausência de instrumentos de proteção para espaços que ajudaram a dar valor às regiões onde estão inseridos. A pista contribui para tornar uma área desejada, participa da reputação do lugar, atrai público, movimenta serviços e fortalece a imagem da cidade; depois, pode ser pressionada pelo próprio processo de valorização que ajudou a produzir.
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Santa Catarina ainda parece distante de uma política capaz de reconhecer a vida noturna como parte da sua infraestrutura cultural. A música eletrônica movimenta o turismo, mas raramente é tratada como eixo de promoção turística. Gera trabalho, mas ainda aparece pouco nos debates sobre economia criativa. Atrai visitantes, mas faltam dados específicos sobre origem do público, gasto médio, impacto na hotelaria, permanência nas cidades e empregos diretos e indiretos. Sem esse tipo de levantamento, a cena continua vulnerável à percepção de que festas e clubs pertencem apenas ao campo do lazer, quando sua atuação envolve uma rede muito maior de profissionais, serviços e efeitos econômicos.
Existem perguntas que deveriam ser analisadas ou reiteradas ao Estado: quantas pessoas viajam para Santa Catarina motivadas por eventos de música eletrônica? Qual é o impacto de um festival na alimentação, no transporte, no audiovisual, na segurança, na limpeza, no turismo local e na comunicação? Quantos profissionais catarinenses são contratados em cada operação? Quantos artistas locais conseguem se projetar a partir desses espaços? Sem respostas consistentes, o potencial permanece evidente para quem participa da cena, mas pouco defensável diante de gestores públicos, investidores, entidades de turismo e planos urbanos.
Outros destinos compreenderam essa diferença. Ibiza não se tornou referência mundial apenas por reunir clubs fortes. A ilha desenvolveu uma economia conectada à temporada, à hotelaria, às residências artísticas, à mídia especializada, à indústria musical, aos serviços turísticos e a uma narrativa internacional sedimentada ao longo de décadas. Segundo o IMS Electronic Music Business Report 2025/26, a receita de bilheteria dos clubs de Ibiza chegou a €160 milhões em 2025, mesmo com redução no número médio de eventos por espaço, indicando um mercado baseado em experiências de maior valor e demanda concentrada.
Amsterdam oferece outro exemplo. O Amsterdam Dance Event recebeu 600 mil visitantes em 2025, com mais de 1.200 eventos em mais de 300 espaços espalhados pela cidade. O ADE não funciona apenas como festival, nem apenas como conferência. Durante alguns dias, a cidade se organiza como plataforma para pista, indústria, formação, encontros profissionais, turismo, mídia e cultura. O resultado é um evento que fortalece a projeção internacional de Amsterdam e demonstra como a música eletrônica pode participar da economia urbana sem ser tratada como programação periférica.
Santa Catarina não precisa tentar ser Ibiza, Amsterdam ou Berlim. Esse caminho seria artificial. O estado tem outra geografia, outro público e outra relação com a música. O que poderia ser desenvolvido é uma estratégia própria, capaz de posicionar a região como um destino latino-americano de música eletrônica, onde a cultura e a natureza formam uma experiência conjunta.
Elementos não faltam, mas a estratégia, sozinha, também não basta. O ponto não é apenas criar uma narrativa mais atraente para vender Santa Catarina como destino de música eletrônica, mas construir condições para que essa vocação tenha continuidade. Isso envolve políticas públicas capazes de reconhecer a vida noturna como parte da economia criativa, do turismo e da cultura, com orçamento, dados, articulação entre municípios e mecanismos de proteção para espaços que exercem papel relevante na formação da cena. Sem essa base, qualquer discurso sobre posicionamento internacional corre o risco de depender apenas da força de agentes privados que já carregam boa parte desse trabalho há anos.
A segunda frente seria incluir grandes clubs, festivais e eventos em uma estratégia turística integrada, com campanhas internacionais, parcerias com hotelaria e rotas entre cidades. Santa Catarina já possui cidades próximas que poderiam compor uma experiência articulada entre praia, música, gastronomia, hospedagem e deslocamentos curtos, mas isso exige cooperação entre secretarias, municípios, iniciativa privada e entidades do turismo. Do contrário, cada evento segue funcionando como uma operação independente, capaz de atrair público por conta própria, mas sem necessariamente fortalecer uma marca coletiva para o estado.
A terceira seria incentivar formação profissional e artistas locais, para que a projeção catarinense não dependa apenas da importação de grandes nomes internacionais. Um destino musical se torna mais sólido quando também forma DJs, produtores, técnicos, iluminadores, cenógrafos, fotógrafos, videomakers, curadores, produtores executivos e comunicadores. Isso poderia passar por editais, residências, programas de capacitação, parcerias com universidades e ações entre cidades. Receber grandes atrações movimenta público, mas desenvolver a base profissional cria permanência.
A quarta seria discutir mecanismos de proteção para espaços culturais em áreas submetidas à pressão imobiliária. Essa talvez seja a parte menos confortável do debate, porque exige enfrentar o fato de que alguns dos lugares responsáveis por valorizar uma região podem se tornar inviáveis quando essa valorização atinge outro patamar. Não se trata de impedir o desenvolvimento urbano, nem de tratar qualquer club como intocável, mas de criar instrumentos de mediação para que cultura, moradia, turismo e expansão imobiliária não sejam pensados como forças inconciliáveis. Se a cidade só responde ao valor do terreno, a vida cultural tende a ser empurrada para fora toda vez que se torna inconveniente.
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A música eletrônica catarinense funciona como uma potência parcialmente reconhecida. Ela atrai público, artistas e atenção internacional, mas ainda não ocupa um lugar proporcional no planejamento cultural e turístico do estado. O resultado é uma cena que gera valor, mas nem sempre recebe proteção e que pode ser tratada como substituível quando surgem interesses mais rentáveis. Apesar de Santa Catarina já ter uma história importante na música eletrônica, é preciso entender se vai conseguir transformá-la em futuro antes que parte dessa história seja reduzida à lembrança ou aproveitada apenas por quem consegue atuar sem apoio institucional.