O Muriqui Sounds é um festival que parte de um pensamento um pouco diferente da maioria dos eventos de música eletrônica. O lineup é importante, claro, mas está longe de ser o principal atrativo do evento. Antes dos nomes anunciados, o eixo central é a proposta como um todo, da convivência, da arte, da gastronomia e da relação com a natureza que o festival propõe. Com sua própria identidade, o Muriqui não quer ser apenas mais uma festa em um cenário bonito, mas um projeto que tenta integrar diferentes frentes da experiência em uma mesma narrativa.
Realizada no Ibiti Projeto, em Ibitipoca, Minas Gerais, o Muriqui Sounds chega à sua quinta edição nos dias 26 e 27 de junho. Neste ano, o evento será dividido em dois atos: Ato I: A Origem, voltado a referências ancestrais e à relação entre humanidade, natureza e música; Ato II: O Destino, com foco em transformação, futuro e continuidade. Para entender o Muriqui Sounds, é preciso olhar para alguns elementos que sustentam a proposta do evento, como a relação com o Ibiti Projeto, a ausência de áreas hierarquizadas, a curadoria que não se apoia exclusivamente no apelo comercial do lineup e o uso do próprio cenário como parte da experiência.
Este é o Raio X do Alataj.
Regeneração como princípio
O Muriqui Sounds se posiciona como um evento regenerativo, e não apenas sustentável. Na prática, isso significa que o projeto não trata a questão ambiental como um complemento, mas como parte da própria razão de existir do festival. O conceito está diretamente ligado à preservação dos muriquis, os maiores primatas das Américas, atualmente ameaçados de extinção. Ao se conectar a esse contexto, o festival tenta aproximar entretenimento, preservação ambiental e discussão sobre novas formas de relação com o território.
A proposta regenerativa aparece em diferentes ações espalhadas pelo festival. Durante o evento, o uso de plástico descartável é praticamente zerado, com o público utilizando canecas reutilizáveis ao longo dos dois dias. O festival também realiza iniciativas ligadas à preservação dos muriquis e ao reflorestamento dentro do Ibiti Projeto, conectando a participação do público a ações ambientais desenvolvidas no território.
Além disso, talks e espaços de convivência promovem discussões sobre sustentabilidade, regeneração e novas formas de pensar eventos e relação com a natureza. Depois de cada edição, o festival ainda produz relatórios de impacto e reciclagem ligados às ações realizadas.
Uma experiência sem hierarquia
O nome da festa vem dos muriquis, animais conhecidos por viverem em grupos sem a figura de um alfa. Uma referência que se traduz em escolhas práticas dentro do festival. O Muriqui Sounds não trabalha com camarotes, áreas VIP ou serviços diferentes entre o público. Todos participam da mesma estrutura, diferente de muitos eventos onde a experiência costuma ser dividida em camadas de acesso. No caso do Muriqui, a ausência dessa separação reforça a ideia de convivência coletiva que orienta o projeto.
Curadoria sem foco comercial
O lineup do Muriqui Sounds costuma ser divulgado só depois que mais de 80% dos ingressos já estiverem vendidos, prática que desloca a lógica tradicional de venda de festival, normalmente apoiada primeiro na força dos headliners anunciados. Isso mostra que, quem frequenta o festival, é porque confia na proposta do evento e na experiência que é oferecida. Os artistas continuam sendo parte central do evento, mas não aparecem como único argumento para justificar a presença do público.
O cenário como parte da experiência
O Ibiti Projeto não funciona apenas como local de realização do Muriqui Sounds. A localização nas montanhas de Minas Gerais, a cultura regional, a gastronomia e a presença das esculturas monumentais da instalação The Big Family, criadas por Karen Cusolito e trazidas do Burning Man, participam diretamente da identidade do evento. Isso tudo faz diferença porque altera a forma como o público se relaciona com a música. A pista acontece dentro de um espaço que já possui um apelo visual, natural e simbólico, tornando o cenário como parte da experiência que o Muriqui propõe.
Side events: além da pista
O Muriqui Sounds também amplia a experiência para além dos dois dias centrais de festival com atividades paralelas realizadas dentro do Ibiti Projeto. Entre elas estão caminhadas, passeios de bike, experiências gastronômicas e o Muriqui Talks, ciclo de debates voltado a temas como sustentabilidade, regeneração, futuro verde e transformações do mercado. Com isso, o evento deixa de funcionar apenas como uma sequência de apresentações musicais e passa a ocupar diferentes momentos da estadia e da relação do público com o território.
