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A música conecta

Underworld: 4 décadas de valor à jornada criativa

Por Alan Medeiros em Storytelling 20.05.2026

O duo britânico Underworld é uma verdadeira instituição da dance music britânica. Com uma parceria que já ultrapassa os 40 anos, Karl Hyde e Rick Smith tornaram-se ícones ao levar a música eletrônica para as massas por meio de shows ao vivo viscerais e produções que fundem o techno, o house e o rock. O projeto é definido por uma sonoridade única que mantém sua relevância através das décadas, sendo capazes de preencher estádios com uma energia que muitos consideram precursora da era moderna da EDM.

A história da dupla começou em Cardiff, no final dos anos 70, onde Smith e Hyde se conheceram enquanto estudavam. Antes da encarnação eletrônica que os consagrou, eles formaram o grupo pós-punk The Screen Gemz e a banda synthpop Freur, famosa pelo single Doot-Doot. A primeira versão do Underworld, surgida em 1987, apostava no electropop e funk-rock, mas não obteve o sucesso comercial esperado, resultando no rompimento com a gravadora Sire e na falência dos músicos no final daquela década.

O ponto de virada fundamental ocorreu quando a dupla se mudou para Romford, em Essex, e recrutou o jovem DJ Darren Emerson em 1991. Emerson trouxe a atitude e o conhecimento profundo da cultura de clubs que faltavam à experiência de composição pop de Smith e Hyde. Inicialmente gravando sob o nome Lemon Interrupt, o trio começou a fundir a estética progressiva com batidas de house e techno, marcando o início da fase MK2 do grupo, que finalmente encontrou sua voz na cena underground britânica.

Em 1994, o lançamento de Dubnobasswithmyheadman consolidou o Underworld como pioneiro ao alquimizar o rave e o rock. O álbum destacou-se pela instrumentação inventiva e pelas letras de fluxo de consciência de Karl Hyde, inspiradas em conversas ouvidas no transporte público e rearranjadas no estilo de corte e colagem de William Burroughs. Esse trabalho não apenas definiu o som do grupo, mas serviu como uma ponte essencial para que fãs de rock e música indie passassem a aceitar e consumir a música eletrônica de forma séria.

A consagração mundial definitiva veio em 1996 através da colaboração com o diretor Danny Boyle no filme Trainspotting. O single Born Slippy, com seu pulso de martelo pneumático e vocais melancólicos, tornou-se o hino de uma geração e catapultou o Underworld para o mainstream global. Boyle, um fã confesso da banda, utilizou a música para pontuar momentos icônicos do filme, criando uma simbiose entre imagem e som que permanece como um dos marcos culturais dos anos 90.

No final da década de 90, o trio atingiu seu ápice criativo com o álbum Beaucoup Fish (1999) e apresentações históricas, como a do Festival de Glastonbury em 1998, frequentemente citada como uma das melhores performances da história do evento. No entanto, o ano de 2000 marcou a saída de Darren Emerson, que partiu para seguir carreira solo. Embora muitos temessem pelo futuro do projeto, Hyde e Smith decidiram continuar como um duo, mantendo a essência colaborativa e a busca por novas texturas sonoras.

Como um duo, eles provaram sua resiliência com o álbum A Hundred Days Off (2002), impulsionado pelo hit Two Months Off, que se tornou um clássico das pistas de Ibiza. Eles expandiram seus horizontes criativos para além dos álbuns tradicionais, compondo trilhas sonoras para filmes como Sunshine e assumindo a direção musical da cerimônia de abertura dos Jogos Olímpicos de Londres em 2012. Essa fase demonstrou uma habilidade ímpar de traduzir a energia das raves para contextos cinematográficos e eventos de escala global.

A inquietude artística do Underworld manifestou-se mais recentemente em projetos experimentais como a DRIFT Series 1, onde lançaram materiais de áudio e vídeo semanalmente durante um ano inteiro para acelerar sua produção criativa. Em 2024, lançaram o álbum Strawberry Hotel, continuando a explorar sonoridades progressivas e eufóricas que mantêm o projeto vibrante e contemporâneo. O duo também preserva uma conexão vital com o coletivo de design Tomato, garantindo que sua identidade visual seja sempre uma extensão direta de sua música.

Em último nível, o Underworld é definido pela filosofia de valorizar a jornada criativa em vez do destino final. Influenciados pelo ecletismo do lendário radialista John Peel e enraizados na improvisação ao vivo, Hyde e Smith transformaram o palco em um espaço de troca emocional e espiritual com o público. Eles permanecem como lendas que, décadas após o início em pequenos clubs da Inglaterra, continuam a reinventar as regras da música eletrônica com a curiosidade e o vigor de quem está apenas começando.

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