Em toda cena musical existe gente disposta a transformar as próprias preferências em sentença. É uma espécie de tribunal que julga o valor de um artista quando ele cresce demais, aponta quando um gênero passa a atrair outro público e vira motivo de piada ou quando uma faixa funciona bem demais e, por isso mesmo, começa a ser tratada como óbvia. A opinião faz parte da cultura e da formação do ser humano, mas existe uma diferença entre desenvolver critérios e usar o próprio repertório como autorização para diminuir o gosto alheio só por ser diferente do seu.
Quem determina o que é ter bom gosto? Como ele se forma? A princípio, ele nasce do que uma pessoa vive, compartilha e aprende ao longo do tempo. Além disso, fica ainda mais subjetivo quando considerados a classe social, idade, cidade, formação, referências familiares, algoritmos, amigos, espaços que frequenta e encontros do acaso. Por isso, tratar gosto como uma medida pura de qualidade costuma apagar muitos fatores que influenciam a relação de cada pessoa com a arte.
Ainda assim, dizer que gosto é relativo não significa dizer que ele não possa ser elaborado. Na música eletrônica, existe diferença entre consumir passivamente aquilo que aparece e construir uma relação mais cuidadosa com o som. Isso envolve curiosidade, pesquisa, atenção aos detalhes, conhecimento histórico, percepção de contexto, cuidado na seleção de referências e capacidade de entender o motivo pelo qual determinada faixa funciona, envelhece bem, influencia outras ou é esquecida rapidamente.
O problema está em confundir discernimento com superioridade. Ter repertório não deveria servir para criar constrangimento em quem chegou por outros caminhos, mas para abrir novas possibilidades de entendimento. Quem conhece mais pode indicar, explicar, contextualizar, mostrar conexões, apresentar selos, contar histórias, dividir referências e ajudar outras pessoas a perceberem camadas que antes passavam despercebidas. Isso tem muito mais valor para uma cena do que apenas ridicularizar gostos considerados fáceis ou populares.
Também é preciso separar popularidade de falta de qualidade. Uma faixa, por exemplo, pode alcançar muita gente porque tem força, porque sintetiza bem uma ideia, porque traduz uma sensação coletiva ou porque funciona de maneira precisa. Da mesma forma, uma referência rara pode ser irrelevante se aparece apenas como prova de conhecimento. O valor da arte está na relação que ela estabelece com outras referências, com a história que ela quer contar e com os sentimentos das pessoas.
Bom gosto, então, não deve ser entendido como uma lista fixa de artistas certos, gêneros nobres ou músicas autorizadas seja lá por quem. Ele pode ser considerado uma habilidade em formação, alinhando curiosidade e senso crítico com a vontade de saber escolher melhor, comparar melhor, desconfiar de respostas prontas, buscar origem, perceber nuances, ter humildade para mudar de opinião e sustentar preferências com algum fundamento. A minúcia também merece generosidade.
Formar a própria opinião de maneira criteriosa é essencial. A cena depende de profundidade, memória e qualidade. Todavia, critério sem abertura para o outro é apenas filtro social. O ponto aqui não é abandonar os próprios fundamentos, e sim qualificar a forma como eles são disseminados para que ajudem a ampliar a maneira como a arte é percebida, em vez de transformar conhecimento em instrumento de exclusão.