O que faz um produtor musical expandir os limites da música eletrônica? Seria criar uma sonoridade inédita? Misturar referências locais com gêneros já consolidados? Alcançar reconhecimento fora do país? Esses fatores ajudam a medir a relevância de um artista, mas não explicam sozinhos o que torna uma produção realmente inovadora. O ponto principal está na capacidade de construir uma assinatura própria e fazer com que ela altere a forma como determinadas referências passam a ganhar novas leituras.
No Brasil, parte dessa força aparece em caminhos muito diferentes. Alguns produtores partem do Funk e de suas variações mais recentes. Outros se aproximam do Techno, do House, do Trance, do Electro, do som experimental ou de cruzamentos menos evidentes entre música, cultura popular e curadoria. O que une esses nomes não é um gênero específico, mas a disposição de tratar a produção musical como um espaço de invenção, reorganizado a partir de uma visão própria.
Esta seleção considera artistas que não estão apenas reproduzindo tendências ou encaixando elementos brasileiros em formatos já testados. O interesse está em produtores que criam trabalhos autorais, reconhecíveis e capazes de ampliar o repertório da cena.
A partir dessa leitura, o Alataj reuniu cinco nomes brasileiros que vêm apontando caminhos relevantes para a produção e inovação feitas na música eletrônica brasileira atualmente.
ADAME DJ
Natural de Cachoeiro de Itapemirim, no Espírito Santo, ADAME DJ desenvolve uma pesquisa que aproxima o Funk capixaba, o House, o Techno e outras vertentes da música eletrônica sem tratar essas referências como universos distantes. Sua produção é marcada por beats agudos, sons finos e uma energia frenética, mas amplia essa base com timbres, texturas e velocidades que levam o Funk para a pista sob uma leitura própria.
Em Automotivo Punk, o mandelão automotivo encontra referências que passam por Daft Punk e Minimal Techno, criando um som direto, acelerado e futurista. O resultado é uma produção que entende o Funk como música eletrônica brasileira em plena expansão: livre para acelerar, desacelerar, se divertir e ocupar espaços.
Marcal
Marcal entra nesta seleção por representar um nome brasileiro consistente dentro do Techno e ter se tornado uma referência global admirada e até mesmo copiada dentro do techno mais hipnótico. Em entrevista ao Alataj em 2020, ele já apontava um interesse crescente por sonoridades mais loopadas, minimalistas e hipnóticas, com padrões rítmicos complexos e um sound design menos previsível, em contraste com caminhos mais big room dentro do gênero.
Desde então, essa linha de pesquisa ganhou continuidade em uma trajetória internacional sólida, com passagens por selos como Rekids, Token, Enemy Records e projetos ligados a Donato Dozzy e Neel, além de lançamentos recentes como Enchant & Deceive e Thought Control.
ANALU
Analu representa uma frente importante da House Music brasileira atual: a de artistas que constroem a própria assinatura a partir do domínio completo da criação. DJ, produtora musical, compositora e vocalista, ela usa a própria voz como parte central da sua identidade artística. Suas faixas partem de uma produção técnica, groovada e melódica, com cuidado na construção de clímax, nos arranjos e na relação entre pista e emoção.
Ao compor, gravar e interpretar seus próprios vocais, inclusive ao vivo, Analu aproxima a House de uma tradição marcada por vozes femininas fortes, mas atualiza essa herança a partir de uma perspectiva autoral.
holandês
Vindo de Recife, holandês desenvolve uma produção que amplia a música eletrônica brasileira a partir de uma relação direta com Jungle, Breakbeat, Electro e a rítmica intensa da música periférica. Seu trabalho carrega a energia da cidade em breaks acelerados, baixos distorcidos, percussões e samples que remetem ao Nordeste.
Ao beber de fontes como Côco de Fulô, Choro, Maracatu, Ciranda, Hip-Hop e Electro, ele constrói um som que desafia a centralidade do House e do Techno dentro da cena nacional e afirma uma eletrônica mais ampla, urbana e imprevisível.
From House To Disco
Formado por Bruna e Lívia, o From House to Disco representa uma força importante dentro da House Music brasileira por unir pesquisa musical, leitura de pista e produção autoral com uma identidade muito bem definida. O duo parte do encontro entre House e Disco, mas não se prende a uma ideia nostálgica desses gêneros.
Sua assinatura aparece na forma como conecta referências clássicas, frescor contemporâneo, groove e uma curadoria refinada que já passou por pistas como Gop Tun, RARA, Selvagem, D-EDGE, Time Warp, DGTL, Lollapalooza e Glitterbox. No estúdio, essa personalidade também aparece em lançamentos por selos como Massa Records, COCADA Music, U’re Guay Records, Razor-N-Tape, Heattraxx e Definitive Recordings.