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A música conecta

O Alataj completa 14 anos

Por Alan Medeiros em Carta da Redação 02.06.2026

Neste começo de  semana, o Alataj completou 14 anos. Escrever essa frase ainda me provoca uma mistura difícil de organizar entre orgulho, gratidão, cansaço e responsabilidade. Chegar até aqui é, sem dúvida, mais um marco importante da nossa história. É uma conquista que precisa ser celebrada, não apenas pelo número em si, mas por tudo que ele carrega: as pessoas que passaram por aqui, os projetos que construímos, os erros que nos ensinaram, as decisões que nos mantiveram em movimento e a insistência quase teimosa de seguir acreditando em uma plataforma de conteúdo dedicada à música eletrônica no Brasil.

Ao mesmo tempo, aniversários também servem para olhar com mais honestidade para trás. E, neste ano, a pergunta que mais ficou na minha cabeça foi: o que nos trouxe até aqui? A resposta, naturalmente, passa por paixão, trabalho e compromisso com a cena. Mas seria muito superficial parar por aí. Manter uma plataforma como o Alataj ativa por 14 anos, especialmente com um viés jornalístico e editorial, é uma tarefa muito mais complexa do que parece por fora. Não basta gostar de música, acompanhar a cena ou ter disposição para publicar conteúdo. É preciso sustentar uma estrutura, formar uma equipe, sobreviver a mudanças de tecnologia, manter relevância, encontrar algum modelo de viabilidade e continuar acreditando mesmo quando o caminho diz o contrário. 

Hoje, inclusive, vale fazer uma pergunta incômoda: quão possível seria criar uma marca como o Alataj do zero em 2026? Uma marca que nasce em um site, que aposta em textos, que tenta aprofundar conversas e que não depende exclusivamente da lógica instantânea das redes sociais. Vivemos uma época em que as plataformas de social media fazem de tudo para impedir que o usuário saia delas. O link externo virou quase um corpo estranho. A leitura longa disputa espaço com vídeos curtos, notificações, cortes, trends e uma economia de atenção que favorece cada vez mais o impacto imediato.

Isso ajuda a explicar por que o cenário de imprensa de música eletrônica hoje, embora mais amplo, é composto muito mais por páginas, perfis e influenciadores do que por marcas de conteúdo multiplataforma com base editorial mais estruturada. E isso não é uma crítica. Cada veículo, página, creator ou canal tem sua proposta de atuação, seu papel e sua importância. A cena precisa de muitas vozes, formatos e abordagens. Nós apenas escolhemos um caminho específico, e seguimos felizes com ele. O Alataj sempre quis ser mais do que um portal de novidades: buscamos criar arquivo, ser reflexão, curadoria, análise e memória para a cena. 

Quando olho para trás com sinceridade, é estranho perceber que talvez o Alataj não fosse para ter continuado existindo em vários momentos da sua trajetória. Ele continuou porque uma série de fatores se combinou de formas muito particulares. Houve a capacidade de tocar o projeto por anos sem fins lucrativos. Houve uma marca financeiramente viável atrelada ao ecossistema do Alataj, capaz de sustentar parte dessa estrutura. Houve investimentos que chegaram quase no limite do tempo certo. Houve, em algum grau, um olhar da indústria que conseguiu valorizar profissionalmente as nossas decisões. E houve também a capacidade de sobreviver aos algoritmos, ainda que isso tenha exigido uma adaptação radical da nossa grade de conteúdo ao longo dos anos. Nada disso estava garantido. Nada disso é simples.

Eu já escrevi isso em outras cartas, e sigo acreditando, que o Alataj tem um papel relevante na cena brasileira. Não digo isso como exercício de ego ou para colocar a marca em uma prateleira acima. Digo porque, sem conversa fiada, essa percepção nos motiva. A possibilidade de propor debates, provocar reflexões, tensionar lugares comuns, registrar movimentos, contar histórias e deixar algum legado em termos de informação e conteúdo é parte do que faz esse projeto continuar tendo sentido para nós. Quando você tem uma empresa, nunca sabe por quanto tempo ela será viável. Por isso, antes de imaginar mais 14 anos pela frente, eu prefiro agradecer pelos 14 anos que nos trouxeram até aqui.

Para mim Alan, pessoalmente, esses 14 anos representam 100% da minha vida adulta. Criei o Alataj com exatos 18 anos. Tudo o que vivi profissionalmente desde então passa, de alguma forma, por essa marca. Não vou romantizar: existe um preço enorme que fui pagando e ainda pago ao longo dessa jornada. Foram muitas noites de sono reduzido, preocupações constantes, falta de garantias, decisões difíceis, riscos financeiros, responsabilidades acumuladas e a sensação permanente de estar tentando equilibrar algo que nunca para de se mover.

Mas, ao mesmo tempo, o Alataj me deu tudo o que eu nem imaginava que poderia ter. Deu a possibilidade de viver com dignidade trabalhando com música, o que por si só já é um privilégio enorme. E deu também a chance de estruturar um time verdadeiro, formado por pessoas que compartilham muitas coisas parecidas na vida, na música e na forma de enxergar a cena. Para mim o Alataj nunca foi apenas uma marca, um site ou um perfil. Em muitos momentos, ele foi uma casa de trabalho, uma escola, um ponto de encontro e um motivo para seguir tentando fazer melhor.

Nos últimos três anos, passamos por dificuldades sérias. Dificuldades financeiras, de viabilidade enquanto negócio, de direção e de entendimento sobre como continuar existindo em um ambiente cada vez mais instável. Em muitos momentos, havia dezenas de perguntas abertas e poucas respostas claras. Felizmente, graças às pessoas que nos cercam no plano profissional e pessoal, fomos encontrando essas dezenas de respostas. Nem sempre caminhos fáceis, nem sempre caminhos definitivos, mas caminhos suficientes para continuar.

Seguimos porque acreditamos que ainda existe um papel a cumprir. Acreditamos que é possível fazer do jeito que fazemos. Que é possível melhorar um pouco a cada dia. Que uma mensagem não precisa ser a mais engajável possível para ser relevante. Que um texto, uma entrevista, uma análise, uma curadoria ou uma provocação ainda podem chegar longe, especialmente quando chegam às pessoas certas.

Celebrar 14 anos de Alataj é celebrar uma história que nunca foi a mais óbvia. É agradecer a quem leu, ouviu, compartilhou, discordou, apoiou, criticou, contratou, colaborou, escreveu, fotografou, editou, produziu, anunciou, acreditou ou simplesmente esteve por perto em algum momento dessa história. É reconhecer que uma plataforma só continua viva quando existe uma comunidade em torno dela, mesmo que essa comunidade mude de forma ao longo do tempo.

Então, antes de qualquer projeção grandiosa sobre o futuro, fica o agradecimento mais simples e mais verdadeiro: obrigado por nos permitirem chegar até aqui. O Alataj completa 14 anos com orgulho da sua história, consciência dos seus desafios e vontade de seguir participando da construção cultural da música eletrônica brasileira. Não sabemos exatamente o que os próximos anos vão exigir de nós, mas buscaremos estar prontos e ativos em frente a este desafio.

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