Quem viveu os anos 1990 provavelmente ouviu o termo “poperô” centenas de vezes. Curiosamente, ele nunca apareceu em capas de discos, catálogos de gravadoras ou classificações oficiais da indústria musical. Ainda assim, poucas expressões foram tão eficientes para definir uma época. Sua origem remete diretamente a Pump Up The Jam, sucesso lançado pelo Technotronic em 1989 que ajudou a popularizar a dance music no Brasil e acabou dando nome, de forma involuntária, a um fenômeno cultural que dominou rádios, programas de televisão e danceterias durante toda a década seguinte.
A história começa na Bélgica, onde o produtor Jo Bogaert idealizou o Technotronic como um projeto de estúdio voltado para explorar a mistura entre house music, hip hop e a estética eletrônica que começava a ganhar força na Europa. O resultado foi Pump Up The Jam, uma faixa construída sobre um vocal que rapidamente ultrapassou as fronteiras do circuito clubber.
A música vendeu milhões de cópias, alcançou o segundo lugar da Billboard dos EUA e transformou o Technotronic em um dos principais símbolos da dance music daquele período. Mas no Brasil, a história acabou tomando um outro rumo. Sem familiaridade com os termos que definiam aqueles novos estilos eletrônicos, o público passou a reproduzir foneticamente o refrão da música. O “pump up the jam, pump it up” acabou se transformando em “poperô”, expressão que ganhou vida própria.
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Em pouco tempo, o termo deixou de se referir apenas à música do Technotronic e passou a identificar praticamente toda a dance music que chegava ao país. Faixas de artistas como Snap!, Black Box, Corona, Double You, Ice MC e Culture Beat passaram a ser agrupadas sob a mesma definição popular. Com o tempo, “poperô” virou um termo e uma maneira bem brasileira de interpretar aquele novo universo que ocupava as pistas no início dos anos 1990.
Ao mesmo tempo, a palavra também ganhou uma camada ambígua: para parte do público e da mídia, passou a ser usada de forma levemente pejorativa para enquadrar a dance music mais comercial, radiofônica e associada aos grandes hits das pistas. Um exemplo aparece em uma matéria da Folha de S.Paulo publicada em 2005, que tratava o poperô como o nome nacional dado ao “gênero dance music comercial” e destacava como muitos desses artistas, apesar do sucesso nas paradas, ainda eram pouco levados a sério. Ainda assim, esse uso nunca apagou o peso afetivo que o termo carregou para quem viveu aquele período.
Curiosamente, enquanto a música conquistava o mundo, o Technotronic também enfrentava uma das histórias mais conhecidas da indústria fonográfica daquela época. Embora os vocais de Pump Up The Jam fossem interpretados pela rapper Ya Kid K, a imagem promovida nos videoclipes e materiais de divulgação era a da modelo Felly Kilingi. A estratégia buscava criar um apelo mais comercial para o projeto, mas acabou gerando controvérsia quando a diferença entre a voz e a imagem se tornou pública. A partir dos lançamentos seguintes, Ya Kid K passou a ocupar o lugar de destaque que já possuía na música.
Mais de três décadas depois, Pump Up The Jam continua sendo uma das faixas mais reconhecíveis da cultura dance. Seu legado vai além dos números ou das paradas, já que poucas músicas ajudaram a batizar um movimento inteiro em outro país com ela, e menos ainda que continuam sendo lembradas por isso tantos anos depois.
Neste sábado, 4 de julho, essa história retorna às pistas brasileiras com a presença do Technotronic na Laroc Rewind. Representado por Daisy Dee, o projeto integra o lineup da edição ao lado de Alex Gaudino e SNAP! como headliners em uma noite dedicada aos clássicos que marcaram a cultura dance das décadas de 1990 e 2000. Para quem viveu a era do poperô — ou para quem apenas herdou suas músicas —, será mais uma oportunidade de reencontrar uma faixa que ajudou a definir uma época inteira.