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A música conecta

A mística física do tempo no Berghain

Por Alan Medeiros em Notes 20.08.2026

Ryan Elliott poderia pegar o elevador. Não pega. Para chegar à cabine do Berghain, prefere atravessar a chapelaria e subir as grandes escadas de metal, ouvindo cada passo devolver o mesmo “clong, clong, clong”. Faz isso há mais de 15 anos e o efeito não desapareceu. Seja para abrir a noite ou encerrá-la muitas horas depois, sente o mesmo arrepio no caminho. Há clubes que um DJ aprende a conhecer. O Berghain, para ele, parece ter preservado alguma coisa que resiste ao conhecimento.

Conhecê-lo, na verdade, significa aprender sob o efeito do tempo e seus momentos. No opening, o Panorama Bar ainda é quase literalmente um bar. No domingo pela manhã e à tarde, a pista se torna uma tarefa de equilíbrio: quem dançou durante a noite começa a sair enquanto chega quem pretende atravessar o dia. Ryan relata que é preciso ser delicado, criterioso. Música leve demais perde a tensão; uma sequência de bangers expulsa quem ainda precisa de fôlego. Às cinco da manhã de segunda-feira, a equação se inverte. Quem continua ali já aceitou quase tudo. Nesse momento, ele diz, pode tocar o que quiser.

Há uma medida física para esse entendimento. Um set pode chegar a doze horas e Elliott encontrou uma solução para isso numa pequena loja de Nova York. Seus Belgian Shoes são feitos à mão, sob medida, e levam cerca de oito meses para ficarem prontos. As medidas dos pés não ficam numa conta online, mas anotadas a caneta em um livro de papel. São ruins para chuva, frio ou longas caminhadas. Elliott os chama de “chinelos glorificados”. Para permanecer em pé diante de uma pista durante doze horas, porém, são perfeitos.

Muito provavelmente uma residência seja construída assim: não apenas pelas faixas tocadas, mas por uma coleção de conhecimentos pequenos demais para aparecer num lineup. O som de uma escada. A diferença entre o público das dez da noite e o das dez da manhã. O peso que um domingo suporta antes de começar a ceder. O sapato capaz de atravessar doze horas. Depois de tempo suficiente, tocar no Berghain deixa de ser somente conhecer sua música. É conhecer o edifício, as pessoas e o próprio corpo dentro dele — e ainda sentir um arrepio quando o metal faz clong.

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