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A música conecta

Elementos da longevidade de Paul McCartney que nos trazem lições para a música eletrônica

Por Elena Beatriz em Notes 20.08.2026

Em 5 de junho de 2026, treze dias antes de completar 84 anos, Paul McCartney alcançou o primeiro lugar da parada britânica com The Boys of Dungeon Lane. Era o 24º álbum número um de sua trajetória, somados os discos lançados com os Beatles, os Wings, Linda McCartney e em carreira solo. No mês seguinte, o trabalho se tornou o primeiro álbum creditado a ele a entrar na lista do Mercury Prize. McCartney também havia finalizado uma etapa da turnê Got Back em novembro de 2025 e retornado aos palcos quatro meses depois. A sequência não descreve alguém preservado apenas pela importância do passado, mas um artista que continua produzindo acontecimentos no presente.

É preciso lembrar que esses resultados partem de condições excepcionais. Paul McCartney dispõe de recursos financeiros, uma equipe qualificada, demanda mundial e um catálogo de alto valor. Compará-lo diretamente a um artista independente seria desonesto. Ainda assim, prestígio e estrutura não produzem automaticamente novas criações, disposição para ensaiar ou interesse em procurar ideias depois de seis décadas de carreira. Seu percurso permite observar como esses recursos foram organizados para manter o trabalho em movimento.

O primeiro elemento está na relação que ele conserva com a criação. Ao ser questionado pela NME sobre uma possível aposentadoria, McCartney explicou que compor ainda lhe oferece a mesma satisfação do início da carreira. Ele também já afirmou que não possui um método fixo: o impulso pode surgir ao ouvir uma boa música ou ao encontrar um violão ou piano disponível. The Boys of Dungeon Lane começou a ser desenvolvido em 2021 e foi gravado em sessões realizadas entre diferentes etapas de suas turnês ao longo de cinco anos. A constância, portanto, não exige exposição ou lançamentos ininterruptos.

A capacidade de recomeçar aparece desde o fim dos Beatles. McCartney poderia ter assumido somente a função de preservar o grupo que havia transformado a cultura popular, mas formou os Wings e aceitou retornar a uma escala menor. Nos anos 70, a primeira turnê da banda percorreu universidades britânicas sem uma rota previamente definida e sem locais reservados. Os músicos partiram de Londres e decidiram as paradas ao longo do caminho, procurando instituições dispostas a recebê-los. Para uma carreira artística, aceitar novamente dúvidas, espaços pequenos e períodos de aprendizado pode ser tão importante quanto administrar os momentos de maior projeção.

Esse movimento também evitou que sua identidade ficasse restrita a uma única fase. Em 1980, McCartney lançou McCartney II, disco criado a partir de sintetizadores, sequenciadores e experimentos com equipamentos de estúdio. Na década seguinte, iniciou com o produtor Youth o projeto The Fireman, voltado ao rock e algumas vertentes da música eletrônica. Essas experiências deixam explícita sua decisão de criar espaços nos quais não precisava confirmar aquilo que o público já esperava dele.

McCartney também procura pessoas capazes de modificar seu processo. Antes de colaborar com Kanye West, ele já acompanhava parte de seu trabalho e decidiu testar a parceria com a possibilidade de manter as sessões em segredo caso nada funcionasse. Em 2021, convidou Blood Orange, Anderson .Paak, Phoebe Bridgers, St. Vincent, Beck e 3D, do Massive Attack, para reinterpretarem faixas de McCartney III Imagined em seus próprios estilos. A troca entre gerações mostra curiosidade pelo trabalho alheio e disposição para aceitar que uma ideia retorne diferente do que havia sido imaginado inicialmente.

A renovação não exige rejeitar o repertório que tornou a carreira possível. Ao montar seus shows, McCartney parte da lembrança de quando tinha pouco dinheiro e esperava ouvir as músicas conhecidas dos artistas que assistia. Por isso, mantém canções dos Beatles e dos Wings, ao mesmo tempo que apresenta faixas recentes e escolhas menos evidentes. Para DJs e produtores, a lição está em reconhecer que o valor de uma música, projeto, residência ou fase marcante não obriga o artista a ficar preso a ela.

Esse percurso também depende de relações profissionais duradouras. Rusty Anderson, Brian Ray, Abe Laboriel Jr. e Paul “Wix” Wickens formam o núcleo de sua banda desde 2002. A experiência acumulada não eliminou os ensaios nem a preparação para os shows, que continuam incluindo cuidados com a voz, aquecimentos e atenção à saúde. Para quem trabalha durante madrugadas e viaja com frequência, descanso, audição e equipes confiáveis também fazem parte do planejamento profissional.

A longevidade de Paul McCartney não ensina como continuar jovem, e sim como continuar a trabalhar e sonhar enquanto a idade, a indústria, as tecnologias e os interesses mudam. Ele preserva o repertório e a essência de sua arte sem transformá-los em limite, experimenta sem abandonar sua identidade, aceita outros ritmos de produção e mantém relações profissionais duradouras. Uma carreira longa não é a extensão infinita de um mesmo momento de destaque, mas a capacidade de construir e surpreender em novos capítulos depois que cada um deles termina.

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