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Álcool e drogas aumentam a criatividade?

Por Alan Medeiros em Artigos 10.09.2026

A ideia de que álcool e drogas podem funcionar como combustíveis para a genialidade artística está profundamente enraizada na nossa cultura, frequentemente associada a figuras como Hunter S. Thompson, Vincent van Gogh e Ernest Hemingway. A literatura científica, porém, apresenta um cenário bem mais complexo. Revisões sobre criatividade e uso de substâncias psicoativas, como a publicada pelos pesquisadores Iszáj, Griffiths e Demetrovics em 2017, mostram resultados bastante heterogêneos entre diferentes drogas e dimensões da criatividade. Em outras palavras, não existe uma relação simples em que alterar a consciência signifique automaticamente tornar-se mais criativo.

Um dos pontos mais interessantes das pesquisas está justamente na diferença entre sentir-se mais criativo e efetivamente apresentar melhor desempenho em tarefas de criatividade. Em 2021, um estudo liderado pela pesquisadora Natasha Mason, publicado na Translational Psychiatry, investigou a criatividade durante e depois da exposição à psilocibina. Durante o efeito agudo, os participantes relataram mais insights espontâneos, mas apresentaram redução em medidas de criatividade deliberada e pensamento convergente. Sete dias depois, alguns indicadores relacionados a novas ideias aumentaram. O resultado mostra como uma mesma substância pode produzir efeitos diferentes dependendo do tipo de criatividade e do momento em que ela é avaliada.

Essa distinção fica mais clara quando observamos como a própria ciência tenta medir criatividade. Um dos conceitos utilizados é o pensamento divergente, relacionado à capacidade de gerar diferentes ideias e possibilidades diante de um problema. Outro é o pensamento convergente, que envolve identificar uma solução adequada entre diferentes possibilidades. Uma revisão sistemática publicada pelos mesmos pesquisadores do primeiro parágrafo, por exemplo, analisou justamente a complexa relação entre criatividade e diferentes substâncias psicoativas. A conclusão geral da literatura é menos espetacular do que o mito sugere: os efeitos variam conforme substância, dose, contexto e aspecto da criatividade analisado.

A maconha oferece um bom exemplo. Em 2015, pesquisadores liderados por Mikael Kowal, da Universidade de Leiden, realizaram um experimento duplo-cego e controlado por placebo com usuários regulares de cannabis. Uma dose mais alta de THC, de 22 mg, prejudicou significativamente o desempenho em pensamento divergente, enquanto uma dose mais baixa, de 5,5 mg, não produziu melhora relevante. O resultado coloca em dúvida uma percepção bastante difundida: a de que fumar no processo criativo necessariamente facilita a geração de ideias mais originais.

Mas nem todos os resultados apontam simplesmente para uma redução da criatividade. Em um estudo publicado na Psychopharmacology em 2016, Katrin Kuypers e colaboradores observaram que participantes sob efeito de ayahuasca apresentaram melhora em determinadas medidas de pensamento divergente ao mesmo tempo em que tiveram redução no pensamento convergente convencional. Em 2022, um estudo sobre LSD liderado por Ismael Wießner encontrou algo igualmente interessante: aumento de novidade e pensamento simbólico acompanhado de redução da utilidade das ideias e do pensamento convergente. Uma ideia pode, portanto, tornar-se mais incomum sem necessariamente tornar-se mais útil.

É mais ou menos por aí que as perguntas começam ficar mais interessantes. O que significa ser mais criativo? Produzir mais possibilidades? Ter ideias mais originais? Encontrar soluções melhores? Conseguir transformar essas ideias em algo concreto? Dependendo da definição utilizada, uma mesma substância pode parecer favorecer uma dimensão enquanto prejudica outra.

A relação com o álcool também exige essa cautela. Seus efeitos podem reduzir inibições e modificar a maneira como avaliamos as próprias ideias, mas experiências individuais de escritores, músicos ou artistas não são suficientes para estabelecer uma relação causal entre intoxicação e qualidade artística. É por isso que histórias de figuras como Hemingway ou Hunter S. Thompson dizem muito sobre a construção cultural do artista associado às drogas, mas pouco, isoladamente, sobre o que acontece com a criatividade quando ela é medida experimentalmente.

Parte da força dessa associação talvez esteja justamente nessa construção. A figura do “artista torturado”, que encontra inspiração em estados alterados de consciência, atravessa literatura, música e artes visuais há gerações. Biografias marcadas pelo consumo de substâncias ajudaram a alimentar essa imagem, enquanto dependência, problemas de saúde e outras consequências desse consumo muitas vezes ocupam um lugar menos romântico nessa narrativa.

Isso não significa que experiências com estados alterados de consciência sejam irrelevantes para processos artísticos. Uma experiência pode modificar percepções, produzir associações incomuns ou posteriormente ser incorporada a uma obra. Estudos com psilocibina, LSD e ayahuasca mostram justamente por que respostas absolutas são inadequadas: algumas dimensões da criatividade podem aumentar enquanto outras diminuem. Muito provavelmente a conclusão mais interessante da ciência até aqui seja justamente essa. Alterar a percepção não é necessariamente aumentar a criatividade — e sentir que uma ideia é extraordinária não significa que ela continuará parecendo extraordinária quando o efeito passar.

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