Música é e sempre será sobre autenticidade. Quando isso é percebido pelas pessoas, os caminhos se abrem e o experimento como arma que se desconecta das tendências se torna viável. Em 2026 o álbum Movements está completando 20 anos. Lançado por Walter Merziger e Arno Kammermeier, também conhecidos como Booka Shade em maio de 2006, ele pode ser enquadrado nessa categoria de raridades sonoras que atravessam o tempo e os estilos.
Em uma década em que os BPMs ainda eram muito altos, Movements foi lançado como uma quebra de paradigmas, antecipando em alguns anos o boom que o deep house teria na cena global. Claro que categorizar este conjunto em um estilo não faz sentido, visto que ele possui um pouco de vários temas, melodias de piano excelentes como na pouco lembrada faixa The Birds and the Beats, pads sombrios e ácidos como na faixa Darko, sintetizadores marcantes, passeios por climas minimalistas… tudo isso através de arranjos pouco convencionais, diria distintos e imprevisíveis, a exemplo da faixa Take A Ride.
Digamos que Movements seria um álbum do Kraftwerk moderno, onde cada elemento, cada segundo e cada pausa inesperada foi milimetricamente pensado e editado à exaustão. Qualquer ouvinte, seja um iniciante ou um clubber com ouvidos afinados, pode entender e gostar da mesma forma, era isso que a lendária banda alemã fazia; simples, belo e complexo ao mesmo tempo. É o que o duo também alemão de Frankfurt fez. Certamente é isso que torna este álbum tão singular.
Imagine você ter em mãos quatro faixas com potencial de se tornarem grandes hits de pista, e decidir colocá-las juntas em um álbum. Foi isso que eles fizeram com Night Falls, Body Language, Mandarine Girl e In White Rooms. Todas se tornaram hits globais com diferentes pesos, porém altamente reconhecíveis nas pistas daquela época e até hoje. Esse é o tamanho de Movements e seu impacto ainda é sentido quando uma delas é tocada.
Night Falls
Uma melodia misteriosa e altamente intrigante, um suspiro que parece estar ao seu lado, uma linha de baixo muito regular e viciante, baterias simples com pequenos pads. No break a melodia que abre a música e o álbum volta só para você se apaixonar novamente naquele pequeno instante.
Body Language
Produzida com outro duo lendário (M.A.N.D.Y.), ela inicia com um groove de bateria pegajoso que te faz balançar, quando você menos espera uma linha de baixo genial gera mais movimento, leves synths apenas complementam até que aos poucos pads muito singelos começam a surgir chegando em um ponto em que tudo cai em um break silencioso que abre tempo para o baixo voltar a brilhar. É tudo muito óbvio, genial e por isso tão reconhecível, não há confusão mental.
Mandarine Girl
A sétima faixa do álbum tem uma levada mais elétrica, ácida e rápida, mas sem perder a magia de uma baixo altamente poderoso e reconhecível. Nessa música, que lembra muito faixas que Gui Boratto iria produzir em seus álbuns nos anos seguintes, eles trazem maior progressão gerando uma conexão mais intensa com o ouvinte; no meio dela um jogo de percussão ganha protagonismo se alterando com o synth principal, até mais uma vez o baixo que é distorcido, voltar.
In White Rooms
Desde seu primeiro segundo, é possível reconhecê-la. O bassline que é na verdade a melodia da música, os synths que te deixam perdidos no espaço, é minha track favorita do disco e uma das minhas faixas formadoras como ouvinte de música eletrônica. A décima faixa do álbum volta a trazer profundidade, mistério, leve acidez, um certo brilho poroso que vai abrindo no cutoff. O break vai te revelando o complemento da melodia até ela se abrir e gerar uma certa euforia controlada.
Em 2016 quando completou 10 anos, o álbum recebeu um relançamento com todas as faixas remasterizadas, além de uma série de remixes com convidados de peso como Nils Frahm, Dennis Ferrer, Hunter Game, Patrick Topping, entre outros.
Em 2026 Booka Shade continua em turnê pelo mundo promovendo seu último álbum For Real, lançado em 2025, e que conta com o hit global Broken Glass. Vida longa aos bons clássicos.