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A música conecta

Um olhar em torno do que exatamente formou o mainstream da cena nos últimos 10 anos

Por Alan Medeiros em Notes 13.10.2026

Na música eletrônica, muito se discute sobre o que define o underground, mas compreender a formação do mainstream é igualmente importante para analisar os movimentos da cena. Embora frequentemente associado à música comercial, o conceito é mais complexo do que parece. Uma faixa pode liderar as vendas entre DJs sem alcançar o grande público, enquanto uma cena inicialmente restrita a clubs e festas independentes pode passar a movimentar um circuito com milhares de pessoas ativas. O mainstream, portanto, também se manifesta na capacidade de determinadas linguagens influenciarem programações, movimentos, comportamentos e tendências que se espalham por diferentes circuitos.

Entre 2017 e 2026, essa dinâmica passou por transformações importantes. A expansão de poder dos artistas brasileiros e o crescimento da cena de festivais no Brasil dividiram espaço com mudanças internacionais na popularidade do house e de suas vertentes. A pandemia alterou temporariamente os mecanismos de circulação da música, enquanto os anos seguintes testemunharam a ascensão do melodic techno, a consolidação de grandes marcas audiovisuais e a popularização do afro house. Mais recentemente, o avanço de sonoridades aceleradas e o renovado interesse pelo house britânico apontam para um cenário em que diferentes estéticas conseguem alcançar grande projeção simultaneamente.

Para compreender esse percurso, reunimos dez recortes anuais que identificam os movimentos mais representativos de cada período, considerando principalmente o cenário internacional, mas também as particularidades do mercado brasileiro. A análise leva em conta acontecimentos, mudanças na indústria, crescimento de cenas e transformações no consumo, reconhecendo que a popularidade de um gênero raramente começa ou termina em um único ano. O objetivo é observar como o mainstream foi sendo construído, quais forças determinaram suas mudanças e o que cada período revela sobre a evolução da música eletrônica.


2017 — Brazilian bass + techno

O sucesso de Hear Me Now, de Alok, Bruno Martini e Zeeba, ajudou a projetar internacionalmente uma nova geração brasileira, enquanto o próprio termo brazilian bass ainda levantava discussões sobre sua definição. Em São Paulo, outro fenômeno ganhava dimensão: a estreia do Dekmantel fora da Holanda e a chegada do DGTL mostravam como uma cena construída por clubs e coletivos independentes havia se tornado um mercado atraente para grandes festivais internacionais. 

2018 — Mainstream brasileiro + techno

O mainstream brasileiro passou a apresentar dois circuitos comerciais bastante distintos. Enquanto a Só Track Boa consolidava seu modelo itinerante ao redor de artistas nacionais, a expansão do underground atraía investimentos internacionais. O DGTL reuniu cerca de 12 mil pessoas em sua segunda edição, o Time Warp estreou no país e o Ame Club abriu em Valinhos. O que antes dependia principalmente de clubs e festas independentes passa a sustentar estruturas permanentes e grandes operações de festival.

2019 — Tech house + melodic house & techno

O sucesso de Losing It, de FISHER, antecipou uma mudança importante na programação dos grandes clubs. Em 2019, o Hï Ibiza criou a residência BODYWORKS, reunindo FISHER, CamelPhat e Solardo, enquanto a Afterlife mantinha sua própria temporada no espaço. O período mostrou que linguagens antes identificadas principalmente com circuitos especializados podiam sustentar algumas das noites mais disputadas de Ibiza, ocupando parte do território comercial que antes havia sido dominado pelo EDM. 

2020 — Tech house + melodic house & techno + house

Com as pistas interrompidas pela pandemia, a popularidade das produções passou a depender ainda mais de sua circulação digital. No Beatport, ARTBAT emplacou duas das quatro faixas mais vendidas do ano, enquanto Deep End, de John Summit, antecipava a ascensão de uma nova geração do tech house. No Brasil, a estreia de Vintage Culture na Defected simbolizou sua aproximação definitiva com o circuito internacional do house.

2021 — Melodic techno + tech house

A retomada gradual das pistas evidenciou duas forças com trajetórias diferentes. O tech house chegou ao topo do mercado especializado: 44% das cem faixas mais populares do Beatport naquele ano pertenciam ao gênero, segundo levantamento da Viberate. Já o melodic techno encontrava na expansão de selos como Afterlife uma estrutura capaz de sustentar sua crescente popularidade. A disputa pelo mainstream começava a envolver tanto desempenho comercial quanto identidade artística

2022 — Melodic techno + tech house

O crescimento do melodic techno passou a aparecer com clareza também nos indicadores comerciais. No primeiro semestre, a Afterlife liderou as vendas entre as gravadoras do Beatport, enquanto Running, de Anyma, foi a faixa mais vendida e reproduzida da plataforma naquele levantamento. No Brasil, a edição esgotada com duas datas da Afterlife na ARCA, em São Paulo, demonstrava como essa identidade já conseguia mobilizar uma audiência própria, independentemente dos grandes festivais tradicionais.

2023 — Melodic techno + tech house

A transformação da Afterlife em um fenômeno audiovisual ganhou um capítulo decisivo com o lançamento de Genesys, primeiro álbum e show audiovisual de Anyma — com direito a realização de três noites no Brooklyn Mirage. A música continuava central, mas a capacidade de produzir imagens reconhecíveis e experiências visualmente compartilháveis passava a representar uma vantagem comercial cada vez mais evidente. O audiovisual surgia mais forte do que nunca. 

2024 — Afro house + melodic techno

Move, de Adam Port e Stryv, alcançou o Top 10 britânico, enquanto a Keinemusik transformava sua identidade em um fenômeno que ultrapassava o público tradicional dos clubs. Em São Paulo, &ME e Adam Port reuniram quase 15 mil pessoas no Vale do Anhangabaú. O afro house, cuja história antecede em décadas essa popularização, chegava a um novo patamar comercial. 

2025 — Afro house + hard techno

A popularização do afro house já não dependia exclusivamente da Keinemusik. O gênero passou a reunir diferentes vertentes comerciais, com gravadoras como Make The Girls Dance, MoBlack e Defected entre as principais em vendas no Beatport. Paralelamente, o crescimento dos sons acelerados tornou-se mensurável: os uploads identificados como schranz aumentaram 83% no SoundCloud. O mainstream, depois de alguns anos, passava a absorver, simultaneamente, linguagens de propostas musicais bastante distintas.

2026 — Hard/fast techno + UK house

A recuperação de referências britânicas dos anos 90 e 2000 ganhou expressão comercial com Free Your Mind, de Prospa e Cloonee, que alcançou a sexta posição no UK Singles Chart. O movimento também colocou nomes como Silva Bumpa em evidência, enquanto schranz, hardtekk e outras vertentes aceleradas continuaram ampliando sua circulação. O resultado, até outubro, é um mainstream menos concentrado em uma única estética, no qual diferentes cenas conseguem alcançar grande visibilidade simultaneamente.

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