Miranda começou pelo lugar menos visível de uma carreira na música eletrônica: o estúdio. Aos 14 anos, a curiosidade por entender como as coisas funcionavam levou Lucas Miranda à produção, e durante os anos seguintes esse foi praticamente o centro de tudo. Vieram muitas horas produzindo, estudando e refinando ideias antes mesmo de ele começar a tocar profissionalmente. Também vieram muitos “nãos”, de gravadoras e contratantes, enquanto sua pesquisa se aproximava cada vez mais do minimal, deep house e de uma música mais escura e cheia de pequenos detalhes.
Em 2026, seu nome começou a aparecer em gravadoras como Otherwise, Mood Child, PARROTS e D-EDGE Records Black, onde apresentou no início de outubro o EP Ozymandias. Já na última sexta-feira, 23, ele inaugurou a Two Faces, selo próprio criado para lançar sua música com mais liberdade, com First Place I Could Go abrindo oficialmente uma nova fase do projeto.
Os suportes de Vintage Culture, Paco Osuna, Sirus Hood, Classmatic e outros nomes ajudam a colocar Miranda no radar, mas não explicam o que existe por trás de sua música. Para isso, vale olhar para o tempo que ele dedica a cada faixa, para a estranheza que procura nos timbres, para a escuta paciente que suas produções exigem e para uma ideia de dualidade que agora também dá nome à sua própria gravadora.
Este é o Raio X do Alataj.
Sete anos de estúdio
Miranda passou cerca de sete anos produzindo praticamente todos os dias antes de ganhar mais espaço na cena, período fundamental para se aprofundar na técnica e na pesquisa.
Hoje, ele gosta de manter uma relação mais longa com cada faixa que começa a produzir, passando dias ou até semanas em uma obra antes de pensar em ir para o próximo trabalho. Menos frequência, mais excelência.
O estranho também faz dançar
Uma das coisas mais interessantes no som de Miranda é que ele procura sons que provoquem algum estranhamento sem perder a função de pista. Timbres incomuns, texturas psicodélicas e estruturas menos previsíveis aparecem sobre grooves de minimal e deep house.
O objetivo não é fazer música estranha apenas pela experimentação. Miranda tenta encontrar um ponto em que esse elemento diferente continue sensual, hipnótico e dançante, dando personalidade às suas faixas.
Uma música que pede tempo
Miranda costuma dizer que seu som não é feito para ser compreendido de primeira. Isso vale para as produções e também para os sets, nos quais prefere construções graduais.
Em vez de buscar constantemente o próximo grande momento da pista, ele aposta em uma experiência que se desenvolve aos poucos. Sabe que essa escolha pode exigir mais tempo para alcançar públicos maiores, mas está disposto a respeitar esse processo.
Two Faces: independência artística
A Two Faces nasce para dar mais liberdade na hora de lançar músicas que nem sempre cabem no direcionamento de outros selos. Ter a própria gravadora permite que Miranda apresente essas produções sem precisar adaptá-las às expectativas de outras curadorias.
O nome também conversa com uma ideia recorrente no projeto: a dualidade entre o simples e o complexo, o estranho e o sensual, o introspectivo e o dançante.