Francês, parisiense e profundamente ligado à cultura que moldou algumas das páginas mais importantes da música eletrônica das últimas décadas, Notre Dame cresceu cercado por referências que vão de Daft Punk, Justice e Laurent Garnier ao hip-hop, às trilhas de cinema e à cultura japonesa. Antes de viver exclusivamente da música, chegou a trabalhar como analista de dados, mas foi no estúdio e na cabine que encontrou o caminho que realmente queria seguir. O salto internacional veio alguns anos depois, quando Yumi, lançada pela Diynamic em 2022, ganhou força nos sets de Solomun, recebeu o selo de Essential New Tune de Pete Tong e ampliou significativamente sua projeção global.
De lá pra cá, Notre Dame pulverizou bastante seu campo de atuação. Vieram remixes para Röyksopp, Lenny Kravitz e BLOND, trabalhos com Adriatique, Nelly Furtado, Timbaland e Bob Moses, além da criação da Paranormal, selo que hoje também se desdobra em festas, projetos visuais e outras experiências comandadas pelo francês. Foi por lá que chegou também After Ego, lançado em 23 de outubro com remixes de YUMA e LuSiD. E o próximo passo já está marcado: no dia 13 de novembro, Notre Dame se junta ao duo sueco Moontalk em What’s So Funny, faixa que levará a Paranormal ao seu décimo lançamento e inaugura uma nova colaboração dentro do catálogo.
Antes disso, Notre Dame desembarca no Brasil para duas apresentações: 6 de novembro, em São Paulo, no Hotel Unique, durante o fim de semana do GP de Fórmula 1, e 7 de novembro, em Belo Horizonte, na comemoração de cinco anos da Red Room. Aproveitamos a passagem pelo país e esse momento movimentado de lançamentos para conversar com o francês sobre suas origens, o impacto de Yumi, os novos trabalhos, a evolução da Paranormal e os próximos passos da carreira. Confira o bate-papo:
Olá, Notre Dame, tudo bem? Obrigado por falar com o Alataj. Você chega ao Brasil em novembro para duas apresentações, primeiro em São Paulo, durante o fim de semana da Fórmula 1, e depois em Belo Horizonte, nos cinco anos da Red Room. O que suas experiências anteriores por aqui já te ensinaram sobre o público brasileiro? E o que você busca trazer de novidade desta vez?
Notre Dame: Olá, pessoal! Obrigado pelo convite. Uma das coisas que mais gosto de tocar no Brasil é que dá para perceber na hora quando uma faixa funciona com o público. Isso me dá vontade de arriscar um pouco mais e seguir a energia da pista. Tenho algumas músicas novas para testar e estou curioso para ver como elas vão funcionar em dois eventos tão diferentes.
Você acompanha de alguma forma o que vem acontecendo na música eletrônica brasileira? Tem artistas daqui que chegaram até você e que despertaram sua curiosidade mais recentemente?
Sim, tenho ouvido muitos artistas brasileiros ultimamente. São tantos nomes que fica difícil escolher apenas um ou dois. A cena está crescendo muito, e é ótimo acompanhar esse momento.
Você cresceu em Paris acompanhando de perto toda uma geração que transformou a música eletrônica francesa, de Daft Punk e Justice a Laurent Garnier. O quanto essa formação ainda aparece na música que você faz hoje?
É uma influência enorme. A França tem uma herança musical muito rica, e cada um desses artistas desenvolveu uma sonoridade que você consegue reconhecer facilmente. Isso me fez querer encontrar meu próprio som no estúdio. Acho importante manter esse legado vivo e continuar levando-o adiante.
Antes de viver de música, você trabalhava como analista de dados e chegou a considerar uma carreira nessa área. Em que momento percebeu que precisava abandonar essa segurança para apostar tudo no projeto artístico? Foi uma decisão racional ou mais emocional?
Eu já queria viver exclusivamente da música há muito tempo. O ponto de virada foi perceber que, se quisesse descobrir até onde poderia levar o Notre Dame, precisaria dedicar todo o meu tempo ao projeto. A decisão foi instintiva, mas fui mais racional na hora de escolher o momento certo para dar esse passo.
Yumi foi uma virada enorme na sua carreira, com o apoio de Solomun, Pete Tong e outros nomes. Você considera que ali aconteceu a grande mudança da sua trajetória? Como foi lidar com tudo que veio depois?
Sim, Yumi definitivamente abriu muitas portas para mim. O apoio de Solomun e Pete Tong ajudou a música a chegar a muito mais gente do que eu imaginava. Depois disso, passei a me fazer uma pergunta bem simples no estúdio: eu tocaria essa faixa em um dos meus sets? Isso me ajudou a continuar seguindo em frente.
Em outubro, você lançou After Ego pela Paranormal. Pesquisando, vimos que a inspiração foi a mudança de energia entre o fim da festa e o começo do after. De onde veio essa ideia? Alguma experiência pessoal mais recente?
A ideia veio justamente daquele momento em que a festa termina e o after começa. Normalmente, tem menos gente, e você percebe que quem ficou está mais aberto a ouvir coisas um pouco mais estranhas. Era essa liberdade que eu queria capturar em After Ego.
E agora já temos outro lançamento a caminho: What’s So Funny, ao lado do Moontalk. Essa é a sua primeira collab com eles, certo? O que você viu de diferente ou especial para desenvolver essa faixa ao lado deles?
O groove foi o que me chamou a atenção primeiro. Tínhamos um vocal com uma risada meio estranha, que funcionava muito bem com o ritmo. Esse contraste deu personalidade à faixa, e quisemos preservar isso.
What’s So Funny também marca o décimo lançamento da Paranormal. Olhando para trás, o quanto a gravadora de hoje se parece com aquilo que você imaginava quando começou o projeto?
A música e o visual sempre estiveram no centro do projeto, desde o primeiro dia. O que me surpreendeu foi a importância que as festas e os eventos pop-up acabaram ganhando. No pop-up de Paris, por exemplo, tivemos a oportunidade de apresentar uma peça musical de meia hora em um espaço que montamos especialmente para integrar música e elementos visuais. Essa acabou se tornando uma das minhas partes favoritas do projeto.
Uma coisa que aparece bastante quando você fala sobre produção é essa tentativa de deixar um pouco mais de espaço para a intuição e para as imperfeições, em vez de controlar tecnicamente cada detalhe. Isso foi algo que você precisou aprender com o tempo? Hoje você consegue perceber quando uma música está “pronta” sem pensar demais?
Sim, aprendi a mexer menos nas coisas. Às vezes, você passa um tempão ajustando pequenos detalhes, depois volta à primeira versão e percebe que ela tinha mais groove. Hoje, prefiro deixar a faixa de lado e ouvir novamente no dia seguinte. Se eu tocaria aquela versão em um clube, geralmente é um bom sinal.
Para finalizar, uma pergunta clássica das entrevistas do Alataj: o que a música representa em sua vida? Obrigado!
A música faz parte do meu dia a dia. Mesmo quando estou de folga, geralmente estou procurando faixas novas ou compartilhando músicas com amigos. Ainda adoro aquela sensação de descobrir uma música e imediatamente querer mostrá-la para alguém. Obrigado e até logo, Brasil!
