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A música conecta

Qual assunto a cena precisa discutir, mas prefere ignorar? Felipe Maia responde

Por Redação Alataj em Notes 03.11.2026

por Felipe Maia 

Podemos ser uma indústria, mas sem o underground não seremos nada. Acredito que precisamos discutir o que esperamos de uma indústria da música eletrônica brasileira — e como tornar a articulação de suas bases sustentável a curto e longo prazo.

Há hoje, no país, um complexo denso formado por eventos de grande porte, selos com intensa produção, circuitos de festas e infraestrutura dedicada a absorver um número de fãs que, como festivais e grifes internacionais, só faz crescer. Há também, por outro lado, uma rede de música eletrônica dissidente poderosa, que reinventa a pista num diálogo de Sul Global enquanto pena para existir em meio a forças que solapam artistas, produtores e gente que acredita na festa para além do hedonismo barato. Entre um lado e outro, uma faixa e outra, muitas vezes soa o descompasso. O beat não encaixa.

Brinco que está em curso no Brasil o “Efeito Alok”: a presença do artista em programas de TV e festas populares sacramentou uma virada de perspectiva sobre o que significa a música eletrônica de pista, este mega-gênero e modus operandi do fazer musical. Lembro-me quando vi, há alguns anos, um anúncio de sua turnê de verão num número da DJ Mag britânica: a lista tinha algum clube em Ibiza, uma edição do EDC no sudeste asiático e o Rodeio de Jaguariúna. A figura dos DJs no Brasil é hoje tão popular quanto quem fazia canção nos anos 70 ou rock nos anos 80.

Este momento não me causa espanto, mas me preocupa. Não me causa espanto porque sei da força da música, em sentido amplo, no país. E a música eletrônica não estaria excluída disso — era questão de tempo até que o Brasil mostrasse, de fato, seu poder, não só renovando gêneros como antecipando tendências, parindo novos artistas e fabulando novos ideais de pista pelo mundo. Mas o momento me preocupa porque entre o complexo mainstream e a rede underground (ou subterrânea) me parece que o grupo operando numa chave comercial vence em detrimento de outros.

Não se trata aqui de demonizar a ascensão de um punhado de agências ao status de empresas de grande porte na música brasileira. Qual artista não quer pensar apenas na sua música? Receber cachês em dia, não se preocupar com NFs, CNAE e impostos, ter uma equipe disposta a pensar posicionamento artístico, contar com um A&R inteligente, fazer turnês tranquilamente — no máximo rodar aquele export do Rekordbox entre um vôo e outro. Empresas como Entourage, Plusnetwork e Box Talents asseguram isso e vão além: organizam eventos que fazem girar artistas, dão espaço a novatos enquanto ratificam nomes de peso.

Vejo com bons olhos, por exemplo, o interesse recente do Só Track Boa em abrir cada vez mais espaço para sons que se cruzam no nosso dito underground, como UKG, tribal, breakbeat, funk — nossa música eletrônica por excelência (tema que já deveria estar superado no debate, diga-se). O palco destinado a artistas como Anderson do Paraíso, que acompanhei na edição de 2026, não estava tão cheio quanto o palco de artistas como Boris Brejcha. Mas curadoria não é só vender ingresso: é também obter prestígio fazendo uso de capital cultural, isto é, um investimento. Gosto não é inato, gosto é cultura.

Vejo ressabiado, contudo, que esse contato entre cima e baixo ainda é marginal. Pior: ele é marginalizado. No topo da indústria impera uma relação de consumo, com preços exorbitantes e pistas VIPs, VIPs + camarotes e etc. Entre o público grassa uma ideia rasa sobre o que é música eletrônica. Artistas não tomam posição, não dialogam com seus fãs para além da bajulação. As publicações (“páginas de Instagram”) são de um chapa-branquismo deplorável — no Lollapalooza do ano passado Skrillex tocou na rádio Veneno e Hamdi na festa Speedtest e a maioria desses perfis estava preocupada com uma fofoca de Twitter. 

Exemplo maior disso é o Vale do Anhangabaú em São Paulo. Não bastasse sua reforma questionável, o bulevar foi, em pouco tempo, transformado em um salão de festas de megaeventos de alto custo para um bocado de agências (está tudo no Diário Oficial, basta procurar). Resultado: uma vizinhança infeliz, com razão, e um sem fim de festas independentes tolhidas de usar o Vale — estas mesmas festas aguerridas há anos no contato com o centro da cidade, fazendo pista ali apesar da dinastia da direita paulista e paulistana que as sufoca.

Se isso é uma cena, então eu a apelido carinhosamente de “rolê de camiseta oversized e oclinhos”.

Esse rolê, o Efeito Alok e as agências de grande porte: tudo isso só existe porque houve e continuará havendo festas, selos, artistas e iniciativas irrequietas, contrárias, provocantes. A maioria desses atores se mobiliza pelo Brasil inteiro, ainda mais em tempos funestos como esse de ascensão do fascismo via democracia liberal — brecado nas eleições presidenciais pela atuação ferrenha de vários setores da sociedade, inclusive coletivos, fãs e artistas da música eletrônica, a despeito de uns e outros. Quem não se movimenta morre. Os peixes grandes precisam entender que esse movimento é também deles, e de forma horizontal — hierarquias não dão resultados.

Precisamos discutir uma aliança nacional que articule a música eletrônica de pista com pesquisas, levantamentos, projetos de fomento, atuação na coisa pública. Precisamos obter reconhecimento dos pares na música, aproveitar a nova perspectiva sobre a club music para ratificar um projeto de cultura além de entretenimento. Precisamos advogar por modelos de financiamento duradouros. Precisamos exigir responsabilidade social e ambiental de grandes artistas e eventos, às vezes explicando o bê-a-bá para seus públicos — do tipo “música eletrônica e extrema direita não combinam”. Precisamos que páginas se entendam como imprensa e atuem menos como influencers.

A se eximir disso, arriscamo-nos a perder um momento de bonificação único da música eletrônica brasileira entre crescimento de público, pujança criativa e tédio no Norte Global. É uma onda que pode passar sem criar um “Brazilian Storm”. Os maiores precisam ouvir os menores, e não apenas fazer bookings aqui e acolá — os grandes é que têm bala na agulha. Os menores precisam de respaldo, e só assim deixarão de ser um ou outro fenômeno — os pequenos é que ditam o novo. A pista só tem a crescer desse diálogo, e a bola está no campo de quem faz as maiores somas do jogo. Essa conversa é pra já, talvez a única que devamos ter no front (local onde a conversa fiada não tem vez). É isso. Ou a festa vai ficar chata.

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